Desmistificando o pole dance: modalidade surge como opção de carreira esportiva e superação de estigmas

Por Ana Clara Mascarenhas e Lívia Boscatti

O pole sport é uma modalidade esportiva que se originou a partir do pole dance, uma forma de atividade física e expressão artística, em que se executam movimentos acrobáticos e de dança em torno de um poste vertical. A prática também combina elementos de ginástica, demandando dos atletas notável força, flexibilidade, coordenação e condicionamento físico.  

Com raízes em circos e clubes de striptease, onde era (e ainda é) realizado como forma de entretenimento erótico, sua origem remonta aos anos 1920 nos Estados Unidos. Entretanto, existem registros anteriores na África e na China de performances similares. Apesar da associação com atividades para fins eróticos, nas últimas duas décadas, o pole dance evoluiu e se fragmentou em diversas vertentes, existindo competições para cada estilo no mundo todo.

O pole art e pole exotic são mais voltados para o lado artístico da dança. O pole sensual/classic, remete às origens da prática, o strip-tease, celebrando a sensualidade. Já a vertente mais voltada para o esporte, o pole sport/acrobático, foca nas acrobacias. Apesar de o último ser o objeto de destaque desta matéria, é importante ressaltar que todas as tendências do pole dance são igualmente importantes e devem ser respeitadas e valorizadas. 

A profissionalização do pole sport

Em 2009, na Inglaterra, foi fundada a Federação Internacional de Pole Dance (IPSF), que impulsionou a criação de outras federações ao redor do mundo, disseminando o pole e abrindo espaço para formação de novos praticantes, muitos deles, interessados em competir e seguir uma carreira esportiva na atividade.

A Federação Brasileira de Pole Dance (FBPOLE) foi criada no mesmo ano e, em 2010, realizou o I Campeonato Brasileiro de Pole Dance, em São Paulo. Esta competição e a Pole World Cup (campeonato que conta com atletas estrangeiros) viraram grandes marcos do pole dance brasileiro realizado pela federação. Em agosto de 2023, o Brasileiro de Pole Sports e Aéreos foi transmitido pela TV Bandeirantes. 

Os primeiros Campeonatos Mundiais ocorreram em 2012 e mais atletas de pole surgiram à medida que a popularidade do esporte cresceu. Um total de 1.724 atletas de 54 países competiram no Mundial de 2021. Em 2023, o World Pole Aerial Championship aconteceu em Katowice, na Polônia, entre os dias 26 a 29 de Outubro. 

A ascensão meteórica do pole sport como uma modalidade esportiva é evidente, com competições locais e internacionais proporcionando uma plataforma para atletas brilharem.

Nesse cenário em constante evolução, decidimos mergulhar mais profundamente, entrevistando duas atletas de destaque que têm conquistado reconhecimento neste universo. Nossas entrevistadas, cujas jornadas ilustram o poder transformador do pole dance como uma carreira, compartilharam conosco suas experiências desde o início da prática até os palcos.

As atletas

Créditos: Léo Almeida

Rachel Scarlatelli, de 29 anos, é natural de Belo Horizonte e pratica pole sport desde 2015. Formada em direito pela Pontifícia Universidade Católica de Minas Gerais (PUC-MG), a mineira dá aulas de pole dance e twerk, um estilo de dança com influências do funk e do hip-hop. Vice-campeã do Campeonato Brasileiro de Pole Sports de 2022, a atleta inaugurou, em 2023, o próprio estúdio em sociedade com uma amiga, o Aurora Pole Dance & Twerk, localizado no Bairro Vila da Serra, na Região Metropolitana de Belo Horizonte. 

Rachel relatou que desde pequena gosta muito de dança, entretanto, não pensava que era uma possibilidade de carreira. Em 2015, quando buscava uma atividade alternativa, divertida e que trabalhasse o corpo de forma dinâmica, ela descobriu um local na capital mineira que dava aulas de pole dance e resolveu dar uma chance. A paixão pela modalidade foi instantânea e as aulas que inicialmente ocorriam uma vez por semana, logo viraram treinos com horas de duração de segunda a sexta. 

Foi em 2017 que tudo mudou. Diante da chance de participar de sua primeira competição, o Campeonato Mineiro de Pole Dance, Scarlatelli agarrou a oportunidade que lhe apresentou para um mundo que não havia cogitado. Lá conheceu pessoas que viviam disso, tinham estúdio e competiam. Ela saiu da competição com o 1º lugar da categoria de principiantes e com uma certeza: ela queria transformar o que era um hobby em trabalho. 

“Desci do palco extasiada. Tive certeza que era aquilo que queria fazer pelo resto da vida […] Saí de lá pensando: vou começar a me capacitar para viver disso”

Rachel Scarlatelli, atleta do pole sport

Nesta época, ela cursava o 7º período de direito e, apesar da vontade de sair do curso para focar na carreira de atleta, finalizou a formação. Rachel alega que optar por traçar o caminho artístico foi uma escolha difícil tanto para ela quanto para seus pais, devido às incertezas e aos preconceitos que acompanham a decisão de seguir carreira no pole dance. Ideias de que “artistas não conseguem se sustentar” e “não vão ser ninguém na vida” eram algumas de suas preocupações. 

A artista foi corajosa e seguiu sua vontade e, mesmo reconhecendo a importância do dinheiro para o sustento, Scarlatelli entendeu que não é o principal para determinar seu sucesso. 

“Se eu conseguir melhorar a vida das minhas alunas eu estou sendo alguém na vida. Não preciso ganhar muito. Estar realizada é muito importante”, contou. 

A atleta começou a dar aulas, treinar cada vez mais, participar de mais competições e, neste ano, realizou o sonho de abrir o próprio estúdio.

Durante a entrevista, ela também destacou a importância da fé nesse processo.

“Eu sou espírita. Acredito em alguns sinais. Acho que se eu tivesse perdido, saído em último lugar ou me sentisse terrível no palco (durante o campeonato mineiro) eu teria tomado outras decisões na minha vida” 

Rachel Scarlatelli

Créditos: Léo Almeida

Samara Najla tem 19 anos, é natural de Belo Horizonte e começou no mundo do esporte pela ginástica artística aos nove anos na Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG). Ela foi medalhista no World Pole Aerial Championship em 2021, 2022 e 2023. Além disso, Samara estuda Educação Física, é empreendedora no ramo de eventos circenses e professora da modalidade pela qual é tão apaixonada.

Samara iniciou sua trajetória no pole sport por grande influência da mãe, que já praticava, e devido ao imenso desejo de se tornar atleta profissional e competir. Aos 13 anos, começou a praticar pole no Auê Pole e Circo, em Belo Horizonte. Como “plano B”, Samara realizava aulas de circo com o objetivo de ir para o Cirque du Soleil. 

Durante o período no estúdio, ainda não conseguiu realizar o desejo de participar de campeonatos devido à idade. Mas, ao realizar um workshop no ACRO Pole Dance e Circo, também na capital mineira, Samara iniciou os treinos no local e, em 2019, venceu o primeiro Campeonato Brasileiro na categoria amadora.

A partir desse momento, a jovem decidiu focar nos treinos apenas no pole para poder competir. Ainda em 2019, Samara participou de campeonatos na Argentina e em São Paulo. Em 2021, recebeu o convite para se tornar professora de pole e circo. Com três medalhas no campeonato mundial e mais de seis medalhas no campeonato brasileiro, a atleta almeja, cada vez mais, estar dentro de competições.

“Fiz a aula experimental, entrei dentro do carro e já falei para a minha mãe: acho que é isso que eu quero”

Samara Najla

Os desafios para ser atleta de pole sport 

Durante as entrevistas, Rachel e Samara destacaram os desafios enfrentados para seguir carreira profissional no pole. Mesmo diante do crescimento da modalidade, a prática ainda tem pouca visibilidade e reconhecimento como esporte. Devido aos preconceitos, muitas pessoas não enxergam o que está por trás das apresentações na barra. 

Dedicação, abdicação e acompanhamento profissional para preparação física, nutricional e psicológica, são alguns dos elementos mencionados por ambas como necessários para alcançar o sucesso nas competições. Apesar disso, o reconhecimento não acompanha as necessidades dos atletas, principalmente no Brasil. A falta de investimentos e patrocínio é um grande desafio, pois dificulta e até inviabiliza a participação nos campeonatos. 

Para competir no Campeonato Brasileiro de 2022 Rachel bancou todos os custos do seu bolso. Sua preparação pesada com acompanhamento profissional envolveu inclusive a ida para um centro de treinamento de atletas onde fazia exercícios direcionados para o pole. 

“Tive que dar muitas aulas para investir em mim mesma profissionalmente. (…) A gente trabalha para pagar nosso próprio trabalho”, contou Rachel.

Já para Samara, que sempre teve o objetivo de ser atleta de competição, não foi diferente. Para participar de campeonatos, a atleta envia propostas de patrocínios para várias marcas, mas o valor, na maioria das vezes, não cobre todos os custos. Além disso, as competições de pole dance não premiam em dinheiro, ou seja, os gastos devem ser pagos pelo atleta de alguma maneira.

“A gente vende rifa, a gente vai para o sinal, a gente tira do nosso próprio bolso. (…) Tudo que a gente tem é apenas o amor”, relatou Samara.

Doações e campanhas de arrecadações também são de grande ajuda. Além disso, ela afirmou que a falta de investimento do governo é uma grande barreira para que os atletas possam competir mais vezes, já que o esporte ainda não é muito reconhecido.

Créditos: Léo Almeida
Créditos: Léo Almeida

Sexualização do esporte

Para além do preconceito geral com artistas e atletas, os praticantes de pole enfrentam uma questão central na busca de reconhecimento para a modalidade: a sexualização. 

Por suas origens no strip-tease e proximidades com a dança burlesca, o pole dance segue sendo taxado por muitos como uma atividade voltada para o olhar masculino. As rotinas compostas muitas vezes por movimentos de danças considerados sensuais, o uso de saltos e roupas que permitam o contato da pele com a barra, são alguns dos elementos apontados para justificar discursos machistas de que o pole dance serve, exclusivamente, para seduzir quem assiste. 

Rachel relatou que, por diversas vezes, pessoas assumem que por fazer pole dance, ela também é stripper, trabalha em casas noturnas ou vende conteúdo sexual online. 

“É importante reconhecer as origens do pole e não desvalorizar suas vertentes mais sensuais, burlesco etc. Não é menos difícil fazer o pole com salto alto, mas é importante quebrar esse tabu de ver o pole somente como uma atividade sensual para benefício masculino”

Rachel Scarlatelli

Por vir do meio do direito, ambiente muito machista e com tendência a idealizar mulheres mais reservadas e que devem adotar determinada postura para serem dignas de respeito, Rachel enfrentou o preconceito dos colegas de curso. Ela contou ter escutado muitos comentários maldosos sobre o que fazia, como alegações de que posta seus vídeos praticando como forma de conquistar atenção masculina. 

“Eu faço pole para mim. Sou apaixonada e amo ver minhas alunas evoluindo, descobrindo o próprio corpo e sendo felizes fazendo algo que gostam. A última coisa que eu penso quando estou dando aula, treinando ou gravando meus vídeos é se estou agradando um homem”, falou.

Por ter iniciado muito nova, Samara não relacionava o pole aos preconceitos e à sexualização. Mas, ao ir se profissionalizando, enxergou mais dificuldades. Por participar em campeonatos em diversos lugares diferentes, a atleta afirmou que estes estigmas estão mais presentes em Minas Gerais, já que, no estado, o pole ainda não é um esporte muito reconhecido, principalmente para alunas mais novas.

Ela nunca sentiu resistência em sua família pela prática de pole. Mas, como professora, afirma que existem empecilhos criados pelos pais, que normalmente preferem levar os filhos para outras modalidades de danças e esportes.

“Quando a gente fala de abrir uma turma de pole kids, a gente já fala de muitas barreiras”, comentou.

No cotidiano, a jovem sente que os preconceitos partem muito de figuras masculinas que não estão em seu ciclo e, entre as situações, relatou um momento em que um motorista de aplicativo fez comentários inapropriados, a deixando desconfortável. Por já ter passado por este tipo de situação envolvendo a extrema sexualização do esporte, Samara diz se sentir muito exposta em alguns momentos e revelou ter receio de dizer que é professora e atleta de pole, mesmo tendo muito orgulho do que faz. 

“Principalmente para homens, é muito mais difícil relacionar o pole à uma pegada esportiva e não à uma pegada sensual”

Samara Najla

Mesmo assim, a atleta afirma ser muito importante debater e explicar mais sobre a modalidade para acabar com os estigmas.

Sonhos para o futuro 

Sobre os progressos da área, ambas se alegram com o crescimento da modalidade e o aumento de sua visibilidade. Muitos estúdios de pole dance foram abertos, mais eventos foram criados e o número de praticantes não para de crescer, o que possibilita que mais pessoas tenham interesse em conhecer a prática.

Rachel, que sonha em disputar um campeonato mundial nos próximos anos, e Samara, que pretende seguir subindo no pódio, compartilham o mesmo sonho: ver o pole sport se tornar um esporte olímpico. 

Devido à idade, elas acreditam que talvez não seja possível viver o sonho olímpico como atleta, mas ambas expressam o desejo de preparar as futuras atletas olímpicas de pole dance. 

Recentemente, o Conselho Executivo do Comitê Olímpico Internacional (COI) aprovou a inclusão de diversos novos esportes para os próximos Jogos Olímpicos. Karatê, críquete, flag football, squash, beisebol/softball e lacrosse são só algumas das novas modalidades que o público vai poder acompanhar. 

O reconhecimento destes esportes traz esperanças para os atletas de pole dance, que torcem para que seu esporte conquiste, finalmente, o espaço que merece. 

Além disso, Samara pretende seguir a carreira de professora e, como Rachel, ter o próprio estúdio em Minas Gerais, onde deseja abranger todas as modalidades e vertentes do pole dance, sua maior paixão.

“Samara é pole dance, pole dance é Samara. Eu sou apaixonada pelo que eu faço. (…) No dia que eu subi no pódio no primeiro lugar pela primeira vez, foi um sentimento emocionante. Nada se iguala a esse sentimento”, disse.

Para os que se interessaram pelo pole e gostariam de começar a praticar, mas sentem vergonha ou insegurança, as professoras ressaltam que o esporte é para todos. Homens, mulheres e crianças de todas as idades podem fazer as aulas. 

“Pole é sobre você enxergar o seu potencial. É um ambiente com muita sororidade. O pole é libertador, não segue padrões estéticos rígidos e é uma comunidade com muito apoio (…) Para mim o pole tem um pouco de paralelo com a vida. Vai ter dias que você vai escorregar, vai cair e nada vai dar certo, mas tem dias que você vai fazer um handspring (movimento com alto grau de dificuldade). Nossa evolução, no pole e na vida, não é linear”, finalizou Rachel.

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Autor: Laboratório de Comunicação e Esporte

O Laboratório de Comunicação e Esporte é uma disciplina de graduação ofertada anualmente no Departamento de Comunicação Social (DCS) da Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG) pela professora Ana Carolina Vimieiro.

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