Perrengue Chique: a abertura disruptiva de Paris 2024

Feita pela primeira vez fora de um estádio, cerimônia de abertura sofre com a chuva, mas encanta pela pirotecnia, luzes e Celine Dion ao final

Por Isabel da Cruz Gonçalves, Arthur Azevedo Castro Mota, Matheus Hermógenes e Ana Carolina Vimieiro

Rio Sena foi o palco principal da festa (Wikimedia Commons)

Pela primeira vez na história dos Jogos Olímpicos de Verão, a cerimônia de abertura aconteceu fora de um estádio. Para tornar a cerimônia acessível a um grande público, sem necessidade de ingressos para acessar o cais superior – para o cais inferior, mais perto do rio, foi necessário adquirir os ingressos, que variavam de 90 euros (R$548) a 2,7 mil euros (R$16,4).  Foram disponibilizados 104 mil ingressos para compra.

Ao todo, 80 telões e caixas de som foram posicionadas de maneira estratégica ao longo do Sena e arredores.

Um dos nomes responsáveis pelo espetáculo de abertura é do francês Thomas Jolly, artista do teatro com mais de 18 anos de carreira. Jolly foi escolhido diretor artístico das cerimônias em dezembro de 2022 e vinha trabalhando em sigilo por 18 meses.

No último domingo (20), foi divulgado um vídeo dos bailarinos que participaram da cerimônia realizando um protesto.

O  Sindicato Francês dos Artistas Intérpretes da Confederação Geral do Trabalho divulgou uma nota que confirma o pré-aviso de greve. O motivo seria a diferença salarial e de tratamento entre os artistas, incluindo transporte e acomodação. Enquanto uns recebem 1.600 euros, outros ganham apenas 60 euros, valor equivalente a R$360. Cerca de 3 mil artistas, incluindo dançarinos, músicos e atores, participaram da cerimônia de abertura.

Participação brasileira

Um dos assuntos que mais movimentou as redes sociais relacionados à participação do Brasil na cerimônia de abertura de Paris 2024 foi o uniforme dos atletas. Desenhados e confeccionados pela Riachuelo, marca de fast-fashion (moda rápida) e patrocinadora do Comitê Olímpico Brasileiro (COB), a marca defende que os uniformes exploram a fauna e flora do país. As jaquetas que compõem o look foram bordadas por bordadeiras de Timbaúba dos Batistas, no Rio Grande do Norte. As críticas giram em torno do design das roupas e simplicidade, destoando da ocasião especial. 

(Divulgação/COB)

Representantes do COB chegaram a afirmar não se tratar da Paris Fashion Week, tendo sido rebatidos por especialistas em moda e pela própria cerimônia de abertura, que reforçou a importância da maneira de se vestir como forma de se expressar e expressar identidades nacionais. 

Os internautas também criticaram a logística do COB, já que os atletas receberam seus kits em sacos de pano, ao contrário das tradicionais malas de viagens. Poucos dias depois, o COB divulgou em suas redes sociais alguns posts mostrando a preparação e montagem das malas dos atletas, que estão sendo entregues na chegada deles à França. Além disso,  “O COB também oferece os uniformes de treinos e competições das delegações de boxe, remo, levantamento de peso, tiro com arco, pentatlo moderno e canoagem. Já as vestimentas das demais modalidades ficam a cargo das confederações de cada esporte”. (Nota do Ministério do Esporte) 

A logística criticada, porém, acabou se mostrando acertada, uma vez que muitas foram as reclamações de extravio de bagagens de jornalistas e atletas. A principal delas, Bia Haddad Maia, do tênis. A número 1 do ranking brasileiro teve sua mala deixada para trás pela companhia aérea em São Paulo e só recebeu sua bagagem após 48 horas de sumiço – a airtag da atleta indicava que a mala ainda estava em Congonhas, enquanto ela já havia desembarcado em Paris. 

Além disso, Izabela da Silva, do arremesso de disco, lamentou em suas redes sociais a falta do uniforme feminino no tamanho G e por isso, recebeu apenas peças do uniforme masculino. A confederação e a Puma – fornecedora dos uniformes – responderam que a empresa desenvolve “uniformes que atendem a corpos diversos, e especificamente em vestuário, do PP ao 4GG”. Outro atleta que ficou descontente com seu kit de uniformes foi José Fernando Ferreira (Balotelli), do decatlo. Ele afirma que não recebeu quantidades suficientes de uniformes para as suas dez provas e que teria que arcar com o custo de sete sapatilhas, já que cada prova tem um calçado específico.

Em vídeo bastante emocionante, o Brasil anunciou sua porta-bandeira, Raquel Kochhann. Ela descobriu um câncer agressivo após os Jogos de Tóquio em 2021, se curou e vai para sua terceira Olimpíada. Atleta de rugby e capitã das Yaras, nome dado à seleção feminina do esporte, será acompanhada na cerimônia por Isaquias Queiroz, canoísta campeão e quatro vezes medalhista olímpico.

Da delegação brasileira, a seleção feminina de vôlei decidiu não participar da cerimônia de abertura, isso porque, após reunião, o time chegou a decisão conjunta que “7, 8 horas em pé é cansativo e elas precisam ter energia acumulada para os jogos” – disse o treinador José Roberto Guimarães. A estreia da seleção feminina de vôlei na será na segunda (29), contra o Quênia, às 8h (de Brasília).

Histórico de aberturas 

A abertura, como o nome diz, marca o início oficial das Olimpíadas e acontece desde os primeiros jogos, porém nos jogos de Paris 1900 curiosamente não aconteceu. Por causa do diferente formato dos jogos, onde o torneio foi disputado durante cinco meses e associado à uma feira, os esportes ficaram em segundo plano e não foi realizada cerimônia de abertura.

A criação de uma cerimônia como a de hoje começou na Antuérpia em 1920. Os primeiros jogos depois da Primeira Guerra estrearam a bandeira olímpica, revoada de pombas e juramento de atletas.

Nos jogos seguintes, em Paris e Amsterdã, novas adições com o lema olímpico e a chama, uma tradição que datava dos jogos da Grécia Antiga. O revezamento da tocha surgiu nos jogos de Berlim 1936 durante o regime nazista na Alemanha. A tocha foi acesa em Olímpia, na Grécia, percorreu 3422 km e foi levada por 3422 pessoas.

A primeira cerimônia que foi transmitida ao vivo foi a de Londres em 1948. Os jogos aconteceram após um longo hiato de 12 anos por causa da Segunda Guerra e foram televisionados pela BBC. Waldi, o primeiro mascote criado para as Olimpíadas, foi apresentado na cerimônia de abertura dos Jogos de Munique em 1972.

Considerada como uma das mascotes mais memoráveis de todos os tempos, Mischa foi apresentada numa mega cerimônia de abertura nos Jogos Olímpicos de Moscou em 1980. A abertura foi marcada por incríveis mosaicos.

Em Sydney 2000, o Brasil teve sua primeira porta-bandeira, Sandra Pires, campeã olímpica de vôlei de praia. Cathy Freeman, representante da Austrália e pertencente aos povos aborígenes australianos, acendeu a pira olímpica.

A cerimônia mais cara de todos os tempos foi em Pequim 2008. Os chineses gastaram 100 milhões de dólares para fazer uma das aberturas mais espetaculares dos jogos. As olimpíadas de Londres 2012 marcaram a primeira vez que todos os 204 países estavam representados por homens e mulheres.

Rio 2016 foram os primeiros jogos disputados em solo sul-americano. O espetáculo teve corte de 90% dos gastos em relação ao de Londres e mesmo assim é considerado uma das melhores aberturas de todos os tempos. A cerimônia de Tóquio 2020 foi marcada pela pandemia de COVID-19, obrigando o evento a acontecer em 2021.

Inovação

A cerimônia começou com uma brincadeira entre o jogador Zinedine Zidane e o ator Jamel Debbouze – o Lucien, do filme O fabuloso destino d’Amelie Poulain. Debbouze conduz a tocha olímpica para dentro de um Stade de France vazio. Confuso, ele é alertado por Zizou que a cerimônia não seria ali. 

O astro do futebol, então, trata de levar a tocha para o local onde ocorrerá a cerimônia. Perto do metrô, ele a passa para um trio de crianças que percorrem os túneis subterrâneos da capital francesa e se deparam com um indivíduo mascarado e encapuzado. Ele dá carona às crianças num barco e, a partir dali, os atos da festa acontecem todos às margens do Sena.

Intercalando momentos de chuva e de estio, Lady GaGa se apresentou vestida de vedete e  cantando em francês. Artistas franceses e internacionais se sucederam à diva, em um show de autorreferências à história francesa, como aos cabarets e à revolução de 1789. Momento de grande emoção foi a execução do hino nacional, “A Marselhesa”. Axelle Saint-Cirel foi a responsável por entoar a canção nacional dos franceses, envolta por uma enorme bandeira tricolor e trajando um vestido nas mesmas cores, do alto do Grand Palais, enquanto eram exibidas estátuas de mulheres que revolucionaram a história do país.

As embarcações de Austrália, Estados Unidos e França foram as últimas a desfilar. Debaixo de chuva, o “espírito olímpico” surgiu coberto pela bandeira olímpica, montado em um corcel mecânico a cavalgar pelo Sena. Seguido pelas demais bandeiras, ele entregou a bandeira branca com os anéis coloridos para que fosse hasteada – de cabeça para baixo, vale notar a gafe – e dado continuidade ao protocolo. 

Os presidentes do COI, Thomas Bach, e do Comitê Organizador, Tony Estanguet, discursaram, seguidos do Presidente francês, Emmanuel Macron, que declarou abertos os Jogos Olímpicos. Atletas e árbitros fizeram os juramentos e então, Zinedine Zidane retornou, agora já no Trocadero, para receber a chama olímpica do mesmo mascarado que a tomou das crianças no início da apresentação. 

Num ato digno de Aguinaldo Silva, ficamos sem saber a identidade do mascarado/encapuzado, que claramente fazia referência a um personagem de vídeo games “Assassin’s Creed”, ambientado em Florença, mas também em Paris. Outras referências ao mascarado da abertura foram o Homem da Máscara de Ferro e o Fantasma da Ópera.

Recuperada a chama, Zizou passou a Rafael Nadal, 14 vezes campeão de Roland Garros, o Aberto de tênis da França. Nadal, por sua vez, revezou com a também campeã do aberto francês, Serena Williams, a ginasta Nadia Comaneci e o velocista Carl Lewis, ao longo de um passeio de barco pelo Sena. 

Coube a Amelie Mauresmo, tenista francesa, receber a tocha para a fase final do revezamento. Ela deu início à última parte do trajeto, que passou pela pirâmide do Louvre e se encerrou com Teddy Riner e Marie-José Pérec recebendo o fogo olímpico das mãos de outros ícones do esporte francês, para acender a pira olímpica em forma de balão, que se elevou sobre o céu de Paris.

Para finalizar, a diva canadense Celine Dion performou do alto da Torre Eiffel a canção “Hymne à l’amour” de Marguerite Monnot, interpretada originalmente por Edith Piaf.  Dion sofre de síndrome da pessoa rígida e tem lutado há anos contra a doença degenerativa que afeta a parte motora do corpo.

UFA!

A Revista Marta e a Rádio UFMG preparam uma série de guias sobre os esportes disputados e onde o Brasil tem as melhores chances de medalha. Siga ligado em nossas redes pelos próximos dias para acompanhar o que acontece ao longo das competições e no programa VAGÃO OLÍMPICO, a partir de segunda-feira (29), às 16h, na Rádio UFMG, para um resumo do que aconteceu dia a dia, esporte por esporte. 

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Autor: coberturaparis2024

Turma de 31 estudantes de Comunicação da UFMG que integram a parceria entre a Revista Marta e a Rádio UFMG para a cobertura dos Jogos Olímpicos de 2024, em Paris.

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