A onda universitária em Paris: pelo menos 12 atletas das Olimpíadas e Paralimpíadas treinam em centros universitários

Por Mayra Barbosa

Para nós, público geral, é meio confuso saber como um atleta brasileiro cresce ao ponto de se tornar olímpico. Pelo senso comum, é fácil imaginar que os profissionais se aliam a clubes de treinamento com patrocínios, como o Cruzeiro, Flamengo ou o Sesi. Mas, em esportes olímpicos, universidades também são muito fortes no treinamento de seus atletas, semi ou profissionais.

A contribuição mineira

A Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG) tem um grande centro de treinamento esportivo (CTE), que é um órgão complementar da Escola de Educação Física, Fisioterapia e Terapia Ocupacional (EEFFTO), criado em parceria com a Secretaria de Estado de Esporte e da Juventude (SEEJ). É focado principalmente nas práticas de atletismo, natação e taekwondo, olímpico e paralímpico. De acordo com o antigo diretor do CTE, Sergio Fonseca, praticamente todas as modalidades do atletismo têm material de treino. 

Piscina olímpica do Centro de Treinamento Esportivo da UFMG. Fonte: CTE-DIVULGAÇÃO.

O objetivo da instituição é justamente aprimorar o esporte de alto rendimento, mantendo juntamente a saúde dos atletas em dia, com aparelhagem de ponta. Atualmente, o diretor é o professor Maicon Rodrigues e o professor Luciano Sales é o coordenador técnico/científico. Além disso, Maicon também é coordenador do Projeto de Desenvolvimento do Esporte, enquanto a professora Andressa da Silva de Mello é cabeça do Projeto de Esporte Paralímpico. A qualidade do centro é tão boa que serviu de espaço de treinamento para delegações estrangeiras nas Olimpíadas Rio 2016, o que prova que não é de hoje que as universidades têm um pézinho na prática.

Infelizmente, sendo um órgão público, o CTE também sofre com verba limitada. Após 2016, a participação do Estado de Minas Gerais diminuiu com a conclusão das obras. Até 2019 contamos com apoio do Governo Federal por meio de verba para projetos olímpicos e paralímpicos. Após este período, tivemos uma redução desses apoios. Atualmente, temos apoio direto de empresas, como a USIMINAS” diz Sérgio. Geralmente o patrocínio por empresas privadas se dá pela popularidade do atleta ou do esporte, ou até mesmo do próprio CTE, porém poucos atletas e organizações têm esse status.

Andressa de Mello, coordenadora do treinamento paralímpico, disse que os esforços direcionados aos esportes paralímpicos se iniciaram no CTE em 2019, “[…] sendo que já passaram por treinamento no CTE mais de 250 deficientes físicos, visuais e intelectuais. Atualmente atendemos em torno de 120 paratletas nas modalidades paralímpicas de natação, halterofilismo, atletismo e parataekwondo.  Para a formação de atletas há um caminho a ser percorrido. Esse caminho antecede a iniciação esportiva pois é necessário desenvolver uma cultura esportiva, e isso tem sido construído dentro de CTE.” os resultados estão vindo com o desenvolvimento de atletas como Izabela Campos, Arthur Xavier Ribeiro e Ana Carolina Silva de Moura que são bastante capacitados de acordo com Andressa.

Esses três tiveram um bom desempenho em seus esportes e vão representar o Brasil nos Jogos Paralímpicos que se iniciam dia 28 de agosto. Izabela, pessoa com deficiência visual, competirá no lançamento de disco pela quarta vez, portanto é veterana na prova. Os novatos Arthur, pessoa com deficiência intelectual, na natação, e Ana, com deficiência física, no taekwondo. Também em Paris, Ana Caroline Silva é atleta olímpica de arremesso de peso. Todos foram selecionados pelo Comitê Olímpico Brasileiro para nos representar.

Em sua quarta Olimpíada, Izabela busca o ouro inédito. Fonte: Arquivo Pessoal.

Sérgio também comentou que a maioria das universidades públicas com centros de treinamento sofrem com a falta de verbas e que não tem uma rede de contato próxima, porém Andressa tem conhecimento da Universidade Federal de Uberlândia (UFU) e a PUC Minas, que também têm projetos para desenvolvimento de paratletas nas mais variadas áreas e que são referência estadual.

Outras universidades no ramo

Outros centros universitários de grande peso nas últimas edições dos jogos marcaram presença, como a Universidade de Brasília (UnB) que levou o nadador Wendell Belarmino para Tóquio e voltaram para casa com uma medalha de cada, ouro, prata e bronze. As modalidades paralímpicas receberam um montante maior de verba nos últimos anos devido ao potencial dos atletas e, atualmente, o Brasil é um dos dez maiores medalhistas dos Jogos Paralímpicos das últimas quatro edições.

A Universidade de São Paulo (USP), maior universidade do Brasil, também pública, levou para Paris Bruna Patrício da vela, Giulia Guarieiro do handebol e Alina Dumas do para-remo, além de um extenso corpo de profissionais na preparação física e psicológica dos atletas. Por fim, a UNISANTA, da rede privada, que tem um time de natação olímpica de nomes muito famosos desde as últimas edições, levou um time de oito atletas, com Beatriz Dizotti, Gabi Roncatto, Guilherme Basseto, Maria Paula Heitmann, Stephanie Balduccini e a última campeã olímpica da maratona aquática Ana Marcela Cunha. Ainda completam o time Mafê Costa e Guilherme Cachorrão, recentes detentores de recordes de velocidade pan-americanos.

Existem outras organizações?

Há, obviamente, organizações de esportes universitários por praticamente todo o território brasileiro. A Federação Universitária Mineira de Esportes (FUME), criada em 1938, é filiada à Confederação Brasileira do Desporto Universitário (CBDU) e vinculada ao Comitê Olímpico Brasileiro, portanto é uma grande porta de entrada. Ao todo, são 27 federações representando todos os estados brasileiros, que treinam novos atletas e prepara-os para competições de desporto de nível superior, como os Jogos Universitários Brasileiros (JUBs). É enorme, então há vários atletas que passaram por treinamentos em federações. 31 deles estão em Paris, como o medalhista de bronze em Tóquio Alison dos Santos, o famoso Piu no atletismo e, no basquete, o João Marcelo conhecido como Mãozinha, que está nas quartas de final. Ambos não estão mais na CBDU.

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Autor: coberturaparis2024

Turma de 31 estudantes de Comunicação da UFMG que integram a parceria entre a Revista Marta e a Rádio UFMG para a cobertura dos Jogos Olímpicos de 2024, em Paris.

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