O incentivo público e privado aos esportes influencia no resultado das maiores potências das Olímpiadas? O sucesso de países como Japão, China e EUA está relacionado a isso
Por Hellen Cordeiro (@hellenscordeiro)
Na primeira semana dos Jogos Olímpicos de Paris, repercutiu nas redes sociais uma série de derrotas do Brasil diante dos japoneses, que se tornaram verdadeiros “carrascos” para os brasileiros. No skate street feminino, as japonesas Coco Yoshizawa e Liz Akama conquistaram os primeiros lugares do pódio, com Rayssa Leal ficando com o bronze. Na categoria até 66 quilos do judô masculino, William Lima garantiu a prata após ser derrotado pelo judoca japonês Hifumi Abe, bicampeão olímpico na modalidade. E quando a vitória do Brasil sobre o Japão no futebol de mulheres já parecia certa, as japonesas conseguiram virar nos acréscimos, vencendo pelo placar de 2 a 1. Tudo isso em um único dia: 28 de julho. E no dia seguinte, mais uma derrota, o surfista Filipe Toledo foi eliminado nas oitavas de final pelo atleta do Japão, Reo Inaba. Com isso, os brasileiros foram às redes sociais e criaram uma onda de memes com a situação.
Se o Brasil investisse mais nos esportes… vários comentários como esse também foram feitos pelos brasileiros, o que nos leva a questionar: será esse o grande segredo do Japão para superar tantos adversários e conquistar medalhas?
O Japão é um país oriental com tradição em esportes como judô, ginástica e natação e, em Paris, também vem se destacando no skate e na esgrima. É o nono país com mais medalhas conquistadas, cerca de 500, em toda a história dos Jogos Olímpicos. Todos esses resultados alcançados são frutos de um investimento estratégico, que abrange desde a base até o treinamento de alto nível.
O desempenho dos japoneses em Paris foi impulsionado pela Olimpíada de Tóquio, que ocorreu em 2021. Mas para além disso, o esporte é algo culturalmente disseminado. Essa cultura esportiva começou em 1964, com os primeiros jogos no país e é incentivado nas escolas japonesas até os dias atuais, o que é sustentado pelo sistema educacional japonês. Ainda ressaltando o papel da educação, a popularização do esporte se deve, inclusive, à inclusão da educação física no currículo escolar e aos eventos anuais destinados a todos os alunos, chamados undokai.
Em 2015 foi criado o “Projeto de Melhoria de Capacidade Competitiva”, que destina os valores necessários para a preparação e fortalecimento de seus atletas, visando a conquista de medalhas nos Jogos Olímpicos. Em paralelo a isso, também desenvolveu o chamado “Plano Suzuki” – uma Política de Apoio ao Futuro para o Fortalecimento da Competitividade –, que destaca a importância de descobrir uma nova geração de atletas. Para isso, existe o “Projeto J-STAR”, que busca descobrir novos atletas e prestar o apoio que necessitam. Esses são apenas alguns dos projetos desenvolvidos no Japão.
Os últimos maiores vencedores olímpicos
Os Estados Unidos foram o país que mais conquistou medalhas nas últimas três edições olímpicas, além de também ser o maior medalhista de toda a história, com mais de 2.600 medalhas, seguido da União Soviética (1.010), Grã-Bretanha (916) e China (634).
Fazendo um retrospecto das últimas olimpíadas, conseguimos analisar quais se destacaram no quesito conquista de medalhas e, assim, podemos analisar o impacto do incentivo ao esporte nesses países.

O Brasil, nestas três edições, conquistou apenas 57 medalhas, sendo 17 de ouro, 17 de prata e 23 de bronze. O melhor desempenho foi em Tóquio 2021, com 21 medalhas, sete delas de ouro.
Estados Unidos
Os Estados Unidos sempre despontam como uma das principais potências olímpicas, sendo a maior medalhista entre todos os países. O principal caminho para alcançar esse sucesso é o investimento em escolas e universidades.
As bolsas estudantis fornecidas como NCAA (National Collegiate Athletic Association), NAIA (National Association of Intercollegiate Athletics) e NJCAA (National Junior College Athletic Association) são grandes incentivos para os estadunidenses. Desde cedo os alunos são incentivados a praticar esportes, pois, com o apoio dessas bolsas para entrar em uma universidade, as famílias podem economizar altos valores. O esporte gera oportunidades para os cidadãos, por isso é amplamente valorizado.
Um fator que impacta diretamente no sucesso de um país nos Jogos é justamente incentivar o esporte dentro das escolas, como é possível perceber em países como Japão e Estados Unidos. Em entrevista, Maicon Albuquerque, mestre em Ciências do Esporte e doutor em Medicina Molecular pela UFMG, aponta justamente essa questão:
“O incentivo ao esporte dentro da escola é extremamente importante. Inclusive, pensar em como poderíamos aproveitar o ambiente escolar para o desenvolvimento das crianças, usando o esporte como uma importante ferramenta. [..] O esporte pode ser um meio importante que certamente contribuiria não só para a educação, mas também para o desenvolvimento esportivo do país, como é feito nos EUA.”
China
Atualmente em segundo lugar no quadro de medalhas dos Jogos Olímpicos de Paris 2024, os chineses encontram seus principais resultados nos saltos ornamentais, no tiro esportivo e no tênis de mesa, além de tradicionalíssima na ginástica e no badminton. A China possui um investimento bilionário na preparação de seus atletas.
Assim como o Japão, a China também possui práticas de incentivo ao esporte que abrange desde a base até o alto rendimento. A identificação e formação de jovens talentos em academias e escolas esportivas também é um ponto a se ressaltar. Além disso, também investem em infraestrutura para treinamento e organização de eventos esportivos, como os Jogos de Inverno de Pequim em 2022.
Austrália
Outro país que vem crescendo nas últimas edições é a Austrália. Sexta colocada no quadro de medalhas em Tóquio com 17 ouros, o país chega com destaque em Paris. Até o momento, na metade da competição, os australianos já somam 12 ouros, sete deles apenas na natação. Vale ressaltar que mesmo sendo um país com aproximadamente 25 milhões de habitantes, a Austrália consegue encontrar tantos talentos. É o menor país dentre os maiores medalhistas.
Sediar uma edição dos Jogos Olímpicos pode transformar o posicionamento de um país dentre as grandes potências mundiais no esporte. Foi o que aconteceu com a Austrália, impulsionada pelas Olimpíadas de Sydney 2000, foi a quarta maior medalhista em Atenas 2004 e, desde então, sempre se manteve entre as dez maiores nações no quadro de medalhas.
A Austrália é um dos países que oferece bolsas universitárias para atletas de elite. Trata-se do Australian Elite Athlete Education Network (EAEN), que contempla suporte financeiro em acomodação, viagem e demais despesas relacionadas à carreira esportiva dos atletas assistidos. Outra ação do governo australiano é o FTEM – Foundations, Talent, Elite e Mastery – que atua na identificação de novos talentos em potencial, e promove um gerenciamento individualizado desses atletas, os preparando e oferecendo suporte e apoio financeiro.
Além disso, a Austrália já volta suas atenções para 2032, quando será sede novamente. O programa Win Well 2032+ é uma estratégia esportiva de alto desempenho que objetiva alcançar os melhores resultados em Brisbane. A proposta de preparação foca no investimento em infraestrutura e no desempenho, aliado ao bem-estar (físico, mental, emocional e cultural), de seus atletas e de todo o esporte como um todo.
O incentivo ao esporte no Brasil
Em Paris, Caio Bonfim ficou em 2º lugar na marcha atlética, uma das modalidades do atletismo. Caio é treinado pelos pais Gianetti Bonfim e João Sena. O local de treinamento dele, no Estádio Augustinho Lima, em Sobradinho, Brasília, viralizou nas redes sociais e destaca como é difícil ser atleta no Brasil e ter que enfrentar a falta de investimento e de infraestrutura que atendam aos nossos atletas:
Esse não é apenas o único exemplo de superação e de luta para chegar às Olimpíadas. Em 2021, Darlan Romani, do arremesso de peso, precisou improvisar seu treinamento em um terreno baldio com sacos de cimento para se preparar para as disputas em Tóquio. Ele conseguiu ficar em 4º lugar e até hoje, mesmo três anos depois, sua história ainda é lembrada. As olimpíadas chamam atenção para o baixo investimento em esporte no país, mas são nos quatro anos de preparação, o chamado ciclo olímpico, que realmente precisamos atentar os olhares para as necessidades dos nossos atletas.
“Essas histórias são inspiradoras e mostram a determinação e talento dos nossos atletas. É importante ressaltar que a resiliência, que está relacionada à capacidade de superar condições adversas, é um fator importante para o desenvolvimento de atletas e pode até contribuir para algumas questões. Contudo, certamente, com melhores condições e investimentos, poderiam alcançar resultados ainda mais impressionantes e consistentes em competições internacionais, como os Jogos Olímpicos”, afirma Maicon.
Em junho de 2023, foi sancionada a Lei Geral do Esporte, cujo um dos principais princípios é a excelência esportiva, que “abrange o treinamento sistemático direcionado à formação de atletas na busca do alto rendimento de diferentes modalidades esportivas”, previsto no artigo 6º. Também em 2023, em audiência da Comissão do esporte, a diretoria financeira do COB (Comitê Olímpico Brasileiro) afirmou que investiria R$ 250 milhões de reais nas modalidades olímpicas para os Jogos de Paris.
O Governo Federal disponibilizou um guia sobre os atletas brasileiros convocados para Paris 2024. Esse documento traz uma série de informações sobre as modalidades e os representantes do país, bem como apresenta os investimentos estatais destinados na preparação desses atletas. Segundo dados da Secretaria de Comunicação Social, o programa Bolsa Atleta é uma das principais fontes de apoio ao esporte de alto rendimento, juntamente de aportes da Lei das Loterias (Nº 13.756) – que destina 1,7% dos valores apostados na loteria federal ao Comitê Olímpico Brasileiro – e da Lei de Incentivo ao Esporte. O aporte no ano de 2023 foi de cerca de R$ 860 milhões de reais. Desse total, R$ 161,2 milhão foi o investimento do Bolsa Atleta que contempla 87,3% dos atletas olímpicos brasileiros convocados para Paris, ou seja, 241 atletas.

Ainda há outros investimentos, como o Programa Atletas de Alto Rendimento (Paar), coordenado pelo Ministério da Defesa em parceria com as Forças Armadas, que investe cerca de 6 milhões de reais anualmente, fornecendo benefícios do serviço militar e treinamento. São 533 atletas assistidos e 98 estão nos Jogos Olímpicos deste ano.
Ainda assim, muitos atletas sofrem com a falta de investimentos, o que impacta diretamente em sua preparação, sobretudo nos investimentos privados. Em entrevista à TV Globo, o pai de Caio, João Sena, veio pedir o patrocínio ao filho, pois o investimento no treinamento do atleta advém do esforço familiar, da Bolsa Atleta Nacional e do Distrito Federal, e da ajuda da Marinha, mas não conta com patrocínios privados:
“Essa medalha é resultado do investimento da família. Eu fiz vaquinha, não vou negar e dizer que sou o ‘bambambam’. […] O Caio é fruto da ajuda da família Oliveira e Bonfim. Não vou esquecer que a CBAt ajudou, nesse que é o ano olímpico, os quatro anos, tivemos ajuda do COB, de tudo. Mas o Caio precisa de patrocinador, ajuda da rede privada. Não faz mal. Qual é o problema de ele ter 15 patrocinadores? Até agora ele não tem nenhum. Ele só tem a parte que é a do Brasil, tudo que nós temos vem da ajuda nacional”.
O Brasil ainda deixa a desejar nesses incentivos. E o apoio não só do Estado, mas de outras instituições pode ser crucial para o avanço do esporte no país, como pontua Maicon:
“Nossos atletas precisam de mais apoio e assistência tanto do Estado quanto de organizações privadas. Embora muitas pessoas acreditem que o investimento é exclusivamente no que diz respeito à infraestrutura adequada e programas de suporte contínuo de treinadores e equipe multidisciplinar, é importante lembrar que, em um país de grandes dimensões como o nosso e com grandes desigualdades sociais, precisamos nos preocupar com outras questões, como, por exemplo, como esses atletas chegarão de suas casas para o treinamento, bem como os custos de viagem e alimentação, que não são poucos.”
Na falta de investimento e apoio advindos de ações governamentais, muitos projetos sociais assumem o papel de ajudar esses atletas, atuando na descoberta e preparação deles. Grandes destaques brasileiros nos Jogos Olímpicos são frutos desses projetos, como Isaquias Queiroz, Alisson dos Santos e Herbert Conceição.
As Olimpíadas abrem as portas para que os países possam conhecer seus representantes nos mais variados esportes olímpicos. Em um país tradicionalmente voltado a acompanhar majoritariamente o futebol, Paris nos permite conhecer e dar destaques a outros atletas como os judocas Beatriz Souza, Willian Lima e Rafaela Silva, a ginasta Rebeca Andrade, a skatista Rayssa Leal, o mesatenista Hugo Calderano e também Caio Bonfim, que trouxe um pensamento importante sobre isso:
“Eu brinco que o Brasil tem dois esportes. Um é o futebol e o outro é o que está ganhando. Se você quer aparecer, tem que estar nesse outro que está ganhando.”
Maicon fala que isso pode se tratar parcialmente de uma construção histórica, mas que está atrelada justamente com a questão de valorizar e investir em outras modalidades:
“Precisamos que a população consuma e que tenhamos mais ídolos nos outros esportes. Esses dois fatores podem impulsionar maior visibilidade e, consequentemente, mais aporte de recursos.”
Voltar o olhar para outros esportes, sem deixar de lado a paixão nacional que é o futebol, dar oportunidade e o incentivo necessário (muito além do financeiro), podem levar outros talentos para as próximas Olimpíadas e conquistar mais medalhas para o país. Isso é reconhecer a potencialidade de nossos atletas e apoiá-los a conquistar os lugares mais altos do pódio. Assim como na foto de David Ramos, Caio também é o retrato de ser atleta no Brasil:
Como o Brasil pode contornar essa situação? Maicon também responde:
“O Brasil pode avançar no esporte investindo em programas de desenvolvimento esportivo nas escolas, diversificando as modalidades esportivas, criando e mantendo infraestruturas de qualidade, formando recursos humanos de qualidade, desenvolvendo pesquisa e tecnologia, bem como oferecendo suporte financeiro e técnico contínuo aos atletas. Além disso, é crucial promover uma cultura esportiva que valorize e apoie o esporte desde a base até o alto rendimento.”