Nadando contra a corrente: a batalha invisível contra o racismo nas piscinas

Por Alice Carvalho (@alicxcarvalho)

Ao observar as competições de natação nas Olimpíadas, uma realidade perturbadora se destaca: a quase total ausência de nadadores negros no pódio. Essa disparidade é refletida também no Brasil, onde a falta de diversidade é evidente entre os nomes mais celebrados do esporte. Ícones como César Cielo, Maria Lenk, Thiago Pereira e Xuxa compartilham um traço comum: são brancos. 

Embora o Brasil possua a maior população negra fora da África, a natação no país revela uma notável lacuna de representação. Até 2020, menos de 6% dos nadadores olímpicos brasileiros eram negros, e desde 1920, apenas 10 nadadores negros integraram a equipe nacional, segundo o Globo Esporte.

Esse cenário não é recente. Ao longo das décadas, um estereótipo racial prejudicial sustentou a ideia de que pessoas negras não eram adequadas para a natação. Essa crença foi alimentada pelo racismo científico, que erroneamente atribuía diferenças biológicas e raciais entre brancos e negros. Um estudo aponta que nos Estados Unidos, essa narrativa ganhou força com a fuga de escravizados por meio da natação. Temendo a fuga, os proprietários disseminaram desinformação para disseminar o medo de nadar entre seus escravizados, promovendo alegações e estudos que afirmavam que afro-americanos eram fisicamente inadequados para nadar devido a supostos problemas ósseos e de flutuabilidade, como uma estratégia de controle.

Além disso, a segregação racial e a proibição de negros em piscinas contribuíram para a perpetuação desse mito. No Brasil, por exemplo, até 1950, pessoas negras eram proibidas de frequentar clubes com piscina. Essas práticas discriminatórias ajudaram a manter a falsa ideia de que pessoas negras não eram aptas para a natação.

Eliane Pereira de Souza, uma nadadora negra que representou o Brasil nos Jogos Pan-Americanos de 1967 e 1971, compartilhou as heranças dessas ações em uma entrevista à Universidade Federal Fluminense. Ela revelou que um técnico da seleção brasileira chegou a afirmar que a ausência de nadadores negros se devia ao fato de que seus ossos eram “pesados demais para a água”. Esse tipo de comentário não só é racista, mas também desmotiva jovens negros a se interessarem pelo esporte.

Entre as raras exceções que conseguiram se destacar está Edvaldo Valério, o único nadador negro a conquistar uma medalha olímpica pelo Brasil – o bronze no revezamento 4×100 livre em Sydney 2000. Em uma entrevista à Rede Globo, Valério descreveu a constante hostilidade que enfrentou. “Quando eu ia competir, o atleta branco me olhava de cima abaixo. Aquilo me intimidava, me deixava acuado, e eu tinha medo. Quando o atleta fazia isso comigo, ele já ganhava a prova pra mim ali. Eu até me perguntava o que eu estava fazendo ali. A gente acaba se sentindo de fato não inserido naquele ambiente quando é olhado de forma desconfiada. De fato isso tem um peso para que a gente não tenha tantos atletas praticando a natação”, diz Edvaldo.

A luta de Edvaldo é  um dos desafios enfrentados por atletas negros na natação. Embora tenha superado barreiras significativas, a presença de nadadores negros na seleção ainda é rara. Etiene Medeiros, Eliane de Souza e Edivaldo são exemplos de atletas que enfrentaram e denunciaram o racismo dentro do esporte. Sua escassez destaca uma realidade desconfortável: a inclusão de atletas negros na natação continua sendo uma exceção.

Em um depoimento ao Globo Esporte, Etiene Medeiros, a primeira nadadora a ser campeã mundial nos 50 m livre e 25 m livre, denuncia a presença de racismo em competições, incluindo dentro da própria seleção nacional. Ela relata que frequentemente ouve comentários racistas, como “Ó lá, tinha que ser preto” ou “Ó lá, fazendo besteira, tinha que ser preto”. Segundo a atleta, essas “brincadeirinhas” são feitas por adultos com idades variando entre 20 e 35 anos e são tratadas com uma leveza inaceitável.

Etiene Medeiros. Treino preparatório para o Torneio Mare Nostrum no Canet 66 Natation. 09 de junho de 2014, Canet, Franca. Foto: Satiro Sodre/SSPress. Disponível em https://www.flickr.com/photos/etienemedeiros/15833906698/in/photostream/

Ela descreve seu desgosto e frustração ao tentar chamar a atenção para essas atitudes, mas afirma que suas queixas são frequentemente ignoradas e ridicularizadas. A normalização e a aceitação dessas frases racistas revelam um problema profundo dentro do esporte. 

Nicolas Oliveira, nadador da seleção nos Jogos de Pequim 2008, Londres 2012 e Rio 2016, ilustra a importância da influência de pessoas pretas no esporte. Em uma entrevista ao Globo Esporte, ele afirmou: “Um dos motivos para eu querer ser nadador foi ver o Edvaldo. Foi a primeira vez que vi alguém parecido comigo ganhando medalha olímpica.” Sua observação destaca a importância da representação para inspirar a próxima geração. A falta de representação reflete barreiras mais profundas, econômicas e sociais, que precisam ser superadas para que todos os talentos possam brilhar. O desafio vai além das correntes da água, é uma luta contra as correntes do racismo que ainda permeiam a cultura esportiva.

Bronze para Nicola Nilo Cesar de Oliveira nos 100m livre da natação em Gimcheon pelos 6º Jogos Mundiais Militares. Foto: Sgt Johnson Barros

 O uso de toucas para cabelos mais volumosos, nomeadas de Soul Cap, proibidas até 2022 pela Federação Internacional de Natação (FINA), revela como o racismo ainda está escancarado no esporte. Em Tóquio 2021, a FINA justificou o veto alegando que essas toucas não seguiam “a forma natural da cabeça”, ignorando as necessidades específicas de nadadores com cabelos crespos, cacheados e volumosos. Foi somente após críticas e protestos da comunidade esportiva que a FINA permitiu o uso dessas toucas, com as Olimpíadas de Paris sendo os primeiros Jogos a autorizarem esse vestuário.

Essa recente mudança, embora positiva, é apenas um exemplo das barreiras superficiais que ainda persistem. Este episódio ilustra como a luta por equidade é um processo que infelizmente caminha a passos lentos.

O caminho para a verdadeira inclusão tem sido longo e exige urgência. Em uma sociedade diversificada, é fundamental que essa diversidade se reflita em todos os espaços de prestígio—seja na televisão, nos escritórios ou nos hospitais. A inclusão vai além da representatividade, é crucial oferecer oportunidades reais para que talentos sejam descobertos e desenvolvidos. Isso demanda mudanças significativas no cenário da natação global, mas, acima de tudo, na realidade da natação brasileira. 

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Autor: coberturaparis2024

Turma de 31 estudantes de Comunicação da UFMG que integram a parceria entre a Revista Marta e a Rádio UFMG para a cobertura dos Jogos Olímpicos de 2024, em Paris.

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