Apesar do recorde quebrado neste ano, ainda há muito o que se fazer quando o assunto é diversidade e inclusão nas Olimpíadas
Por Diego Benjamin
Os Jogos Olímpicos de Paris 2024 estrearam com um novo recorde: a maior quantidade de atletas LGBT+ participando. Nesta edição, dos mais de mil atletas, temos 195 assumidamente da comunidade LGBTQIA+, consoante levantamento da revista esportista OutSports, feito levando em consideração declarações públicas e postagens em redes sociais. Esse dado representa um grande aumento ao longo das edições se comparado com os 23 esportistas de Londres 2012, mas ainda há um longo caminho a ser percorrido.
Paris: A cidade de todos os amores
O marco pode ou não ter relação com a política de inclusão do Comitê Olímpico de Paris 2024 que buscou, por exemplo, colocar representações queers na abertura. Durante as quatro horas da cerimônia de abertura, além de elementos clássicos da cultura e da história da França e shows de divas pop, pudemos presenciar um beijo gay, a modelo trans Raya Martigny desfilando, outras modelos desfilando também ao som da dj lésbica Barbara Butch e uma cena de drags queens num banquete.
A cena em particular causou muita polêmica nas redes, especialmente por parte de grupos mais conservadores e religiosos que creditaram o momento como uma paródia desrespeitosa de “A Última Ceia”, pintura de Da Vinci adotada como símbolo cristão. Contudo, o diretor artístico do evento, Thomas Jolly, afirma que a ideia era remontar às origens gregas dos Jogos Olímpicos, sendo a imagem uma ode a Dionísio, deus grego dos banquetes e das festividades. O diretor também afirma que a intenção não era ofender, mas sim celebrar a liberdade e a diversidade.
A inclusividade não parou na abertura. As Olimpíadas de Paris deram continuidade a uma tradição iniciada nos Jogos de Inverno de Vancouver 2010, com a construção de uma ‘Pride House’. Localizada em uma doca do rio Sena, o espaço foi construído para acolher atletas, torcedores e aliados da comunidade LGBT+. Além da exibição de partidas, o local tem uma programação repleta de apresentações e atividades que buscam conscientizar e lutar contra a discriminação de gênero e sexualidade.
(A dj lésbica Bárbara Butch com a roupa usada na abertura. Foto: Reprodução/Instagram)
Conheça alguns do nossos atletas olímpicos LGBTQIA+
Na modalidade diversidade, o Brasil é prata! É o segundo país com a maior quantidade de representantes abertamente LGBTQIA+, com um total de 30 atletas, perdendo somente para os 32 dos EUA. Dentro de alguns destaques nacionais temos:
- Rafaela Silva (Judô): A judoca, que foi campeã na categoria até 57kg no Rio 2016 e no Pan-Americano 2023 e levou uma medalha de bronze em Paris por equipes mistas, é casada com a ex-atleta da seleção brasileira Eleudis Valentim.
- Gabi Guimarães (Vôlei): Natural de Belo Horizonte, a jogadora foi prata em Tóquio 2021 e terminou recentemente com a também voleibolista Sheilla Castro.
- Ana Patrícia (Vôlei de Praia): “Paty” foi campeã do Pan-Americano 2023 e é uma das favoritas ao ouro juntamente com sua dupla Duda Lisboa. Ana namora a personal Nycaelle Maia.
- Marta (Futebol): A Rainha, que já foi eleita a melhor futebolista do mundo por seis vezes, é noiva da também jogadora de futebol Toni Pressley, juntas desde o final de 2018.
- Beatriz Ferreira (Boxe): A boxeadora baiana é filha do bicampeão Raimundo Oliveira e sempre teve apoio da família quanto a sua sexualidade. A atleta, que foi prata em Tóquio 2021, é lesbica e namora Ana Carolina Azevedo.
- Ana Carolina Azevedo (Atletismo): A velocista compete nas categorias 100m, 200m e 4x100m e já foi campeã brasileira cinco vezes. Ela participou das Olimpíadas de Tóquio e lá conheceu a atual namorada, Bia Ferreira.
- Nick Albiero (Natação): Um dos três homens na lista, Nick nasceu nos Estados Unidos mas foi naturalizado brasileiro. Ao fazer sua estreia olímpica nos Jogos Olímpicos deste ano, ele se tornou o primeiro nadador homem declaradamente gay a representar o Brasil nesta modalidade.
- Rayan Dutra (Ginástica): Rayan participa da ginástica de trampolim e já foi prata no Pan-Americano de Santiago, no ano passado. O atleta mineiro é bissexual e fez história em Paris conquistando a melhor marca por um brasileiro no trampolim (12°).
- Ana Marcela Cunha (Natação): A impressionante nadadora de 10km, ouro em Tóquio 2021, é casada com a preparadora física Juliana Melhem desde 2023.
Baixa Presença de Asiáticos e Africanos Assumidos
Dentro do grupo de atletas LGBTs deste ano, a maioria vem de países europeus, americanos e da Oceania como Holanda, Bélgica, Itália, Argentina, Porto Rico, Colômbia, Nova Zelândia e Austrália. Infelizmente, ainda há uma ínfima presença de atletas representantes de nações asiáticas e africanas nessa contagem. No total, temos somente três da Ásia, sendo eles o tailandês Chuthamat Raksat e as filipinas Nesthy Petecio e Hergie Bacyadan, todos do boxe. Já atletas naturais de países da África temos quatro: Dirkie Chamberlain (Hóquei na Grama), Kemisetso Baloyi (Rúgbi) e Sarah Baum (Surfe) da África do Sul e Cindy Ngamba (Boxe), refugiada do Camarão que compete na Equipe Olímpica de Refugiados.
Esse fenômeno deve-se não somente ao preconceito e relutância já existente no mundo dos esportes, mas também às leis discriminatórias mais severas presentes nos países desses continentes. Apesar de todos os avanços sociais e reivindicação de direitos, em diversos países africanos e asiáticos ainda existem leis punitivas e contra relacionamentos homossexuais. Em delegações do continente africano participantes das Olimpíadas de Paris 2024 temos a Argélia, Libéria, Marrocos, Senegal e Nigéria, por exemplo, que criminalizam relações sexuais entre pessoas de mesmo sexo com a setença inclusive de prisão, sendo que na Nigéria a pena pode chegar até a 14 anos, segundo segundo levantamento do Pink News, importante veículo de mídia internacional produzido por pessoas queers. Já em outros países, como na Somália, a sentença máxima pode ser a pena de morte. Agora, das pátrias asiáticas com comportamento histórico de perseguição legal contra a comunidade LGBT participantes, temos Afeganistão, Bangladesh, Indonésia, Iraque, Líbano e entre outros com prisão perpétua, pena de morte e forma de agressões como punições. Na Malásia, país do sudeste asiático, algumas sentenças penais podem ser a prisão de 20 anos ou chicotadas.
Por isso, apesar de provavelmente a quantidade de competidores asiáticos e africanos queers ser maior do que temos conhecimento, esse número não devem aumentar tão cedo. Por uma questão de segurança, esses atletas não podem expressar sua sexualidade e identidade de gênero. Nesse panorama, manter-se “no armário” acaba tornando-se uma ação não somente de proteção de suas carreiras e futuro, mas também de suas vidas e a de seus companheiros. Na edição deste ano, o Grindr, aplicativo de relacionamento gay, indisponibilizou a função que permitia outras pessoas explorarem a localização pelo mapa e ver quem está usando o aplicativo de dentro da vila olímpica. Essa medida foi implementada não só para respeitar a privacidade das pessoas ali presentes, mas também proteger aqueles não-assumidos e os que sofreriam consequências legais em seus países caso esses dados vazassem, como ocorreu na edição do Rio 2016. Na ocasião, o jornalista britânico Nico Pines utilizou perfis falsos dentro do Grindr e do Tinder para expor competidores gays em uma matéria.
É inegável que para além de questões internas pessoais é necessário mais legislações que permitam que os atletas possam expressar-se sexualmente sem sofrer punições ou correr o risco de vida. Não é à toa que das quatro atletas queers de delegações africanas, três sejam da África do Sul, país que é mais liberal para direitos gays, sendo o único de seu continente a constitucionalizar criminalmente a discriminação contra a comunidade LGBTQIA+ e a promulgar o casamento entre pessoas do mesmo sexo.
Alguns acreditam que esses países severamente discriminatórios vão de contramão aos valores olímpicos e não deveriam participar dos jogos. É o caso do saltador britânico Tom Daley. Tom, que já é vencedor da medalha de prata na modalidade de salto sincronizado em trampolim de 10 metros em Paris, é gay e considera como sua missão pessoal garantir que qualquer país que persiga a comunidade LGBT+ seja banido de participar do evento mundial.
(Tom Daley com sua medalha de bronze de Londres 2012 em seu país-natal. Via Wikimedia)
Muitas mulheres assumidas mas poucos homens
Desde as Olimpíadas de Londres 2012 o número de atletas mulheres assumidas mais do que triplicou, todavia, o número de homens nem chegou a dobrar. Segundo o estudo do OutSports, dos 195 atletas LGBTs, somente 12 são homens, menos do que 1% do total de competidores. Mas que fatores influenciam isso?
Primeiramente, há uma diferença cultural entre atletas e fãs de esportes tradicionalmente masculinos e os tradicionalmente femininos. Em esportes tradicionalmente masculinos, há sempre uma grande expectativa para que os homens sejam o ápice da virilidade e da valentia, fortes, agressivos e brutos. Esses elementos não são socialmente associados a homens queers, muito pelo contrário. Homens gays, bis, pans e trans são estereotipicamente associados à fragilidade e à fraqueza, o que faz com que atletas homens tenham sua força, talento e capacidade postas em cheque ao assumirem-se.
No futebol, por exemplo, é muito comum o uso de termos como “viado” e “marica” como forma de diminuir um atleta e criticar sua performance, sempre associando feminilidade e homossexualidade com fraqueza. Essa cultura preconceituosa faz com que em geral homens sintam-se menos seguros e confortáveis para expressar sua sexualidade em diversas modalidades esportivas. É o caso de Rycharlisson. Em 2017, o jogador, que foi campeão do mundo e três vezes Brasileiro pelo São Paulo, recebeu protestos violentos das torcidas organizadas do Guarani, com direito a rojões e bombas caseiras, contra a contratação do jogador. E a torcida fazia questão de não aplaudir seu nome, que era vítima de boatos da sua sexualidade desde os anos 1990. Em 2022, ele sentiu-se confortável para declarar-se bissexual, uma vez que já havia aposentado dos gramados.
Para Wagner Xavier, cientista social, doutor em Estudos de Gênero (UFSC, 2012) e em Antropologia Social (UFSCar, 2024), mestre em Educação Física (Unicamp, 1999) e pesquisador na área de gêneros, sexualidade e esportes, um dos fatores que acentua essa problemática está relacionado com o fato de corpos não-heteronormativos tentarem adentrar espaços que não são receptivos a eles, como o esporte.
“A outra questão é a escolha da modalidade esportiva que tal corpo desempenhará” diz. “Se não há um histórico anterior de prática, em geral estes corpos não se filiam aos ditames de modalidades convencionais, como o futebol, o voleibol, a ginástica, e outros. Mas procuram se engajar em práticas esportivas pouco exploradas, como a patinação artística, o cheerleading, o skate, o fisiculturismo, o atual MMA, ou até mesmo derivações do futebol, como hoje o conhecido ‘futebol LGBTQIA+’. Por estas duas razões se podem achar homens autodeclarados queers em esportes considerados alternativos (ou excêntricos, como classificação da literatura)” afirma o professor.
A fala de Wagner pode ser confirmada quando analisamos onde estão os atletas homens LGBT+. Os 12 atletas homens queer dessa edição dos Jogos Olímpicos estão inseridos no hóquei na grama, escalada esportiva, ginástica, natação, vôlei, judô, saltos ornamentais, taekwondo, remo e atletismo. Modalidades que já não são tão afundadas em padrões heteronormativos e de gênero e que, assim, são mais receptivas para a existência de corpos queers.
O antropólogo também leva em conta as expectativas criadas pela sociedade na relação gênero e esporte, porque a participação feminina em esportes por si só já é uma quebra de padrões societários de gênero, enquanto que a participação masculina em esporte é só uma reafirmação do que já se espera. Mulheres historicamente foram barradas de participar em atividades atléticas ao redor do globo. No Brasil mesmo elas já foram proibidas de participar do futebol por mais de 40 anos, período que engloba o governo Vargas e a ditadura militar. “Há o tabu da não normatividade e há uma ‘ideia de persecutoriedade’ sobre homens que faz com que sintam medo de assumirem outras sexualidades ou identidades de gênero. E como as mulheres já vivem dentro de um espectro de desvalorização e preconceitos, elas tendem a se identificarem mais facilmente com outras identidades de gênero ou orientações sexuais” continua.
Outro fator é que existe um pensamento preconceituoso travestido de “maior aceitação” da sexualidade de mulheres de que esportes “são coisas de homem”, e por isso, elas seriam mais masculinas e lésbicas.
Para o preconceito sair de campo
Portanto, apesar de cada vez mais atletas sentirem-se mais confortáveis para expressar e explorar sua sexualidade e identidade de gênero, ainda é preciso uma série de esforços para que todas as modalidades esportivas tornem-se cada vez mais seguras para pessoas LGBTQIA+. O Comitê Olímpico Internacional (COI) pode, por exemplo, proibir países com leis punitivas para pessoas queers de participar inteiramente do evento ou de ter uma cidade-sede, como forma de pressionar a abolição dessas leis. Outras medidas como a Pride House devem ser ampliadas para o fomento da conscientização e o combate ao preconceito.
O esporte não é somente uma atividade física de desenvolvimento físico e mental, mas também uma ferramenta de transformação, ascensão e união social. É um local onde todos podem dar o seu melhor, individualmente ou em grupo, sem distinção de raça, gênero, sexualidade ou país. E pessoas LGBT+ não deveriam ficar fora disso.