Para além do sucesso de público das finais: vitórias e desafios do futebol feminino

Por Amanda Camargos e Vitória Castro, estudantes de Jornalismo da UFMG


O futebol feminino brasileiro tem conquistado novos espaços, torcedores e torcedoras a cada temporada. Apesar da expansão constante, ainda há desafios importantes que impedem a modalidade de alcançar todo o seu potencial, entre eles, o difícil acesso aos estádios, a pouca divulgação dos jogos e a limitação na venda de ingressos, principalmente nas fases iniciais dos campeonatos.

Muitas partidas ainda são realizadas em locais afastados, com estrutura limitada e sem a visibilidade necessária para atrair o grande público. Em contraste, os jogos de fases finais costumam acontecer em estádios maiores, com maior apelo popular, e é aí que se revela o potencial de mobilização das torcidas.

A história do futebol feminino no Brasil carrega marcas profundas da desigualdade. Desde sempre, dividiu opiniões dentro da sociedade, muitos acreditavam que o esporte poderia ser prejudicial para o corpo e a moral. Foi proibido por Decreto-Lei publicado pelo governo em 1941 e marginalizado durante décadas. Mesmo assim, as mulheres resistiram e seguiram jogando, muitas vezes em campos improvisados e longe dos olhos do público. A revogação da proibição só veio no fim dos anos 1970 e a regulamentação oficial pela  Confederação Brasileira de Desportos e pela Confederação Brasileira de Futebol em 1983, mas o impacto foi duradouro: sem apoio, sem incentivo e com visibilidade quase nula, o futebol feminino precisou começar praticamente do zero assim como uma maior conexão com a torcida.

Torcida, presença e o ambiente nos estádios

Hoje, o cenário é diferente, ainda que desigual. O calendário nacional conta com campeonatos estaduais, nacionais e internacionais. Desde 2019, todos os clubes que disputam a Série A do Campeonato Brasileiro masculino e torneios como a Libertadores e a Sul-Americana são obrigados a manter equipes femininas ativas. A medida tem sido fundamental para fomentar o desenvolvimento da modalidade e aproximar o público dos gramados.

Em grandes jogos desses times, como finais de campeonatos, existe uma preocupação maior com o número de torcedoras e torcedores por parte dos clubes e instituições. Nesses casos, os jogos costumam ser em arenas maiores, com mais divulgação da venda de ingressos e mais ações que chamam atenção do público e aproximam a torcida. 

A historiadora e professora, Renata Lemos, que estuda sobre o futebol de mulheres, comentou sobre o público em jogos femininos: “No geral, as arquibancadas possuem pessoas relacionadas aos atletas, como familiares, amigos e pessoas da comissão. Já os times de camisa, vão ter a presença, mesmo que não tão grande, de torcedores fidelizados por aquele clube e a depender da importância da partida, há mais divulgação e mais interesse também.”

Esse público é formado por uma presença maior de mulheres e que não necessariamente acompanham o futebol masculino, apesar de muitas frequentarem os dois ambientes. De modo geral, há um crescimento do público em jogos femininos e que chama também torcidas organizadas para o estádio. 

Renata comentou sobre como é a torcida: “Em questão de observação, a gente percebe diferenças: massivamente contam com mais mulheres e crianças, que não necessariamente tem uma relação de clubismo diferente do futebol masculino, porque são experiências culturais diferentes.”

Apesar do aumento de público nas fases decisivas, o caminho ainda é longo. Renata também aponta para a necessidade de uma atuação mais efetiva das instituições: “Falta interesse para que se faça o mínimo de divulgação, ações promocionais. Além disso, federações e a CBF devem se atentar aos horários, às localidades e à qualidade da arbitragem. E claro, a mídia fazendo o papel de fomentar a modalidade dentro da cultura nacional.”

Segundo ela, muitas vezes o torcedor sequer sabe que o jogo vai acontecer. E quando sabe, enfrenta dificuldades que vão desde horários inviáveis até a falta de transporte para os estádios. “Jogar numa segunda-feira, três da tarde, uma Copa do Brasil… Não tem público. É preciso se atentar às questões dos horários, das localidades, à experiência do jogo como um todo.”

A pesquisadora também critica a superficialidade com que muitas vezes a mídia cobre o futebol feminino: “Não é só transmitir um jogo da Seleção e achar que isso é suficiente para dizer que está apoiando a modalidade. É preciso fomentar, incentivar e tratar o futebol feminino como parte da cultura nacional.” Essas falas evidenciam o que muitas torcedoras e torcedorae já sentem na prática: o crescimento do futebol feminino precisa ser estruturado, e não apenas pontual.

Recordes e perspectivas para o futuro

O maior recorde de público em jogos femininos no país é da Seleção Brasileira, a partida entre Brasil e Suécia durante a semifinal dos Jogos Olímpicos Rio 2016 contou com mais de 70 mil pessoas no Maracanã. O sentimento de nacionalismo e identificação com a seleção, além da importância da competição contribuíram para esse número, que segue sendo disparado o maior público em um jogo disputado no Brasil.

No Brasil, essa presença nas finais do Campeonato Brasileiro tem se tornado cada vez maior. Em 2022, Inter e Corinthians levaram 36.330 torcedores no jogo de ida e 41.070 na volta. No ano seguinte, Corinthians e Ferroviária conseguiram  42.566 pessoas. Ano passado, Corinthians e São Paulo chegaram a um novo recorde, foram 44.529 torcedores acompanhando a partida. Em 2025, o jogo de volta da final entre Cruzeiro e Corinthians levou 41.130 pessoas para a Neo Química Arena, em Itaquera, zona leste de São Paulo, o terceiro maior público do futebol feminino do Brasil.

Esse número é contrastado quando se trata do começo de um campeonato. Em 2025, o Atlético-MG, na primeira fase da Série A2, fez quatro jogos como mandante na Arena Gregorão, em Contagem. Ao todo, 534 pessoas foram nas partidas e o público máximo foi de 184 na estreia, contra o Botafogo. O cenário mudou quando as Vingadoras, apelido da equipe atleticana, mandaram o jogo na Arena MRV contra o Vitória, durante as quartas de final da competição, que permitiu um aumento de 544% em relação a todos os jogos da primeira fase: foram 2096 pessoas presentes. Outro fator importante foi a grande presença de torcidas organizadas que frequentam o masculino e também foram apoiar o feminino.

E foi justamente essa conexão entre clube e torcida que gerou um momento histórico no último dia 7 de setembro. No jogo de ida da final do Brasileirão Feminino, o Cruzeiro enfrentou o Corinthians na Arena Independência, em Belo Horizonte, diante de 19.175 pessoas, um novo recorde de público do clube em jogos femininos.

Jogo no Independência dia 07/09/2025. Foto: Amanda Camargos

A partida terminou empatada em 2 a 2, mas o grande destaque veio das arquibancadas, onde a torcida celeste demonstrou apoio incondicional. A expectativa inicial era de 18 mil presentes, mas a mobilização superou todas as projeções e trouxe uma renda superior a R$ 300 mil. O clima foi de festa, com famílias inteiras ocupando o estádio desde as primeiras horas da manhã, em uma celebração não apenas de um jogo, mas da força do futebol feminino.

As Cabulosas, como são conhecidas as jogadoras do Cruzeiro, entraram em campo embaladas pela vibração das arquibancadas e retribuíram com entrega, intensidade e emoção. Contra uma das maiores potências da modalidade no país, o Corinthians, o time mineiro mostrou força e personalidade, contagiado pelo apoio vindo das arquibancadas.

Algumas torcedoras e torcedores foram entrevistados exclusivamente para esta matéria e relataram percepções semelhantes: o público nos jogos femininos é marcadamente mais diverso, com a presença expressiva de mulheres, crianças e famílias inteiras. Também citaram o ambiente mais acolhedor e seguro, além de maior acessibilidade nos estádios. Por outro lado, a falta de divulgação adequada ainda é vista como um dos principais obstáculos para que mais pessoas conheçam e frequentem esses jogos.

Maria Beatriz, torcedora do Cruzeiro, foi uma das pessoas que compareceram ao Independência e demonstrou entusiasmo com a visibilidade que a modalidade está ganhando. “Não venho muito nos jogos por morar em São Paulo, mas já que estava aqui resolvi vir prestigiar as meninas”, contou. Para ela, o apoio que o futebol feminino tem recebido é motivo de orgulho: “Muito bom ver que as meninas estão recebendo apoio, estão batendo recorde de novo, então fico muito feliz com a torcida.”

Maria Beatriz no jogo de ida da final do Brasileirão. Foto: Amanda Camargos

A torcedora também fez questão de comparar a evolução do público de um ano para o outro: “Do último jogo que eu fui, ano passado, pra esse, a torcida cresceu muito e isso é muito bom. A energia está diferente, mais animada, mais vibrante. Dá pra ver que o pessoal está se envolvendo de verdade.” Segundo ela, esse engajamento reflete uma mudança cultural importante: “Acho que o futebol feminino está conquistando o espaço que sempre mereceu, e é bonito ver isso acontecendo com tanta força.”

Uma outra entrevistada, a advogada Iana Mel Pinheiro, foi uma dessas torcedoras estreantes em partidas femininas. Com o estádio localizado próximo à sua casa, ela destacou a importância da acessibilidade: “Nunca fui em um jogo sem ser no Independência por ser muito longe. Aqui é perto da minha casa e consigo vir a pé. Seria ideal que fosse sempre aqui, inclusive”, comentou.

Raíssa Rego Neto e Iana Pinheiro na Final do Brasileirão. Foto: Amanda Camargos

Segundo Iana, a atmosfera no estádio é um dos grandes diferenciais da modalidade. “Eu acho que o feminino tem mais essa energia de família”, observou. Para ela, o maior desafio ainda está na comunicação com a torcida: “Talvez esteja faltando até essa visibilidade para chegar nas mulheres, pra gente saber direitinho como faz.”

Outra cruzeirense, Talita Guedes, entrevistada durante o jogo de ida, também estava assistindo a uma partida de futebol feminino pela primeira vez e ficou muito animada com a experiência: “muito legal, tá todo mundo vindo apoiar o time.” Ela contou que foi ao estádio acompanhada da família — a mãe, o marido e os dois filhos — e destacou o quanto gostou do ambiente. Apesar de não ter notado muitas diferenças em relação aos jogos masculinos, ela comentou: “o mesmo público, mas a gente vê mais mulheres e crianças.”

Talita Guedes e família no jogo de ida da grande final. Foto: Amanda Camargos

O crescimento do futebol feminino no Brasil representa muito mais do que apenas uma mudança no cenário esportivo; é um reflexo direto das transformações sociais, culturais e políticas que vêm ocorrendo no país. A quebra de recordes, como vimos com o Cruzeiro na final do Brasileirão de 2025, demonstra não apenas o potencial de mobilização das torcidas, mas também a sede do público por uma modalidade mais inclusiva, diversa e representativa. Essa evolução, no entanto, não acontece de forma espontânea — ela é fruto da resistência histórica das mulheres que desafiaram décadas de proibição e marginalização, e também de políticas recentes que forçam clubes a manterem equipes femininas ativas.

Ainda assim, o cenário está longe de ser ideal. Os dados e os relatos mostram uma realidade desigual, onde a empolgação das fases finais contrasta com o desinteresse nas etapas iniciais, causado por falta de divulgação, estrutura inadequada e horários inacessíveis. A própria experiência das torcedoras e torcedores que participaram das partidas demonstra que o futebol feminino tem um público diverso, composto por mulheres, crianças e famílias inteiras, que veem nos estádios um espaço de acolhimento e pertencimento. Mas essa experiência precisa ser fortalecida com estratégias consistentes e duradouras, que vão muito além de ações pontuais.

É essencial que clubes, federações, a CBF e a mídia entendam que o futebol feminino não pode mais ser tratado como algo secundário ou experimental. É preciso investir em comunicação de qualidade, oferecer experiências completas e respeitosas ao público, garantir acessibilidade geográfica e econômica, e valorizar a atuação das atletas dentro e fora de campo. A presença crescente de torcidas organizadas, a conexão emocional com as jogadoras e o engajamento de novos públicos revelam que há um caminho sólido a ser seguido, mas ele exige vontade política, sensibilidade cultural e, acima de tudo, compromisso com a equidade.

O futuro do futebol feminino brasileiro é promissor, mas ele depende de uma mudança de postura coletiva. A paixão já existe, o talento está em campo, e a torcida está disposta a comparecer, agora, falta o restante do ecossistema esportivo fazer a sua parte. O futebol feminino está deixando de ser uma promessa e se tornando realidade. Para que ele se consolide de forma plena, é necessário tratá-lo com a seriedade, o investimento e o respeito que sempre mereceu. Afinal, não se trata apenas de esporte,  trata-se de transformação social.

Expediente
Redação: Amanda Camargos e Vitória Castro
Apuração: Amanda Camargos e Vitória Castro
Edição: André Quintão
Coordenação: Ana Carolina Vimieiro

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Autor: Laboratório de Comunicação e Esporte

O Laboratório de Comunicação e Esporte é uma disciplina de graduação ofertada anualmente no Departamento de Comunicação Social (DCS) da Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG) pela professora Ana Carolina Vimieiro.

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