David Luiz, mais um jogador brasileiro denunciado por violência. Vamos falar dos casos recentes?

Por Isabela Fernandes, estudante de Jornalismo da UFMG

Há algumas semanas, o ex-zagueiro da Seleção Brasileira David Luiz foi acusado pela assistente social Francisca Karollyne Barbosa Cavalcante de perseguição, ameaça e assédio moral. O jogador, casado com a carioca Bruna Loureiro desde 2016, teria mantido uma relação extraconjugal com Francisca no período em que atuava pelo Fortaleza, de janeiro a agosto de 2025. 

Fonte: Mateus Lotif / Fortaleza FC

A defesa da vítima revelou que as ameaças começaram após o término da relação, motivado pela recusa da cearense em ter relação sexual com ele e uma amiga. Segundo Karollyne em entrevista a TV Record no dia 31 de agosto, David Luiz ameaçou seu filho caso ela seguisse com a denúncia por agressão. David também ofereceu 100 mil reais para que a assistente social “sumisse de sua vida”, e ainda afirmou que, com o dinheiro e poder que possuía, poderia concretizar as ameaças sem ser culpabilizado e punido no futuro. O jogador, em vídeo postado nas redes sociais, não negou que conhece ou que mantinha contato com Francisca, mas disse que nunca a viu pessoalmente e negou todas as demais acusações.

Foto: Redes sociais/Arquivo Pessoal/Thiago Gadelha/SVM

Esse é só mais um caso de violência envolvendo jogadores de futebol revelado em 2025. Recentemente, o jogador Bruno Silva, ex- Cruzeiro e Botafogo, foi acusado pela sua esposa, Andressa Marinho, de inúmeras traições e agressões físicas, inclusive enquanto estava grávida de seu primeiro filho com o volante. Dias depois, Andressa voltou às redes sociais declarando estar arrependida de ter exposto situações “tão pessoais”, e que o caso de violência doméstica foi “caso do passado resolvido na época”. Depois da repercussão, tanto Bruno Silva quanto Andressa desativaram seus perfis no Instagram. 

Allan, jogador do Flamengo, também foi alvo de denúncias neste ano. Jordana Holleben, ex-esposa de Allan, declarou que o volante invadiu a casa em que ela morava com os filhos, de 2 e 6 anos de idade, em um condomínio na Barra da Tijuca. Ela alega que Allan “entrou na residência, a empurrou e retirou as crianças sem combinar com ela previamente”.  Allan foi parado pela PM ainda dentro do condomínio, mas não foi conduzido para a delegacia devido ao “estado de choque” dos filhos, e sua assessoria afirma que não houve violência física, e que a denúncia de invasão não é procedente, pois a propriedade pertence ao jogador.

Outro atleta acusado de violência foi o francês Dimitri Payet, que na época atuava pelo Vasco da Gama. A advogada Larissa Natalya Ferrari, de 28 anos, disse no depoimento que “foi agredida por Dimitri Payet, deixando marcas em seu corpo, e sofreu violência física, moral, psicológica e sexual”. Segundo ela, Payet tinha crises de ciúmes e, assim, passou a puni-la com xingamentos, chantagens e agressões. O meia é casado com Ludivine Payet há 18 anos, com quem tem quatro filhos. 

Violência como resultado de uma estrutura de poder

Esses não são os primeiros relatos de violência de gênero por jogadores de futebol. Casos como o de Robinho e Daniel Alves são muito lembrados, por terem resultado na prisão de ambos, mas as ocorrências são muito mais constantes. Ainda assim, existe uma visão de que essa violência se manifesta de forma isolada e pontual, e não como resultado de uma estrutura de poder construída e perpetuada historicamente. Sobre essa ideia, Márcia Ribeiro, Mestre em Direito pela UFMG e pesquisadora no Diverso UFMG com foco no atendimento à mulheres sobreviventes a violência de gênero, diz:

“Isso impede que a sociedade enxergue a violência como parte de uma engrenagem estrutural e cultural, seja no campo do medo e do horror, ou no campo da adoração da pessoa agressora pelo desempenho profissional. Quando, por exemplo, um jogador famoso é retratado como um “caso à parte”, perde-se de vista que o que sustenta a violência é a normalização do machismo, do patriarcado, da desigualdade de gênero e de uma justiça que ainda é seletiva.”

Outro fator comum na percepção desses ocorridos é a culpabilização das vítimas. Como nos casos de David Luiz e Payet, as vítimas mantinham relações extraconjugais com os jogadores, quebrando o ideal de “vítima perfeita”. Segundo Márcia, esse julgamento “desloca a responsabilidade [da agressão] para uma ideia moralizante”, resultando em “estratégias sociais para normalizar a violência e deslegitimar a palavra de mulheres.”

Ainda sobre tais estigmas, esposas de jogadores são comumente taxadas de interesseiras, reforçando um estereótipo e colocando a vítima no lugar de “merecedora” da violência que sofreu. “Ao reduzir a experiência de uma mulher a esse lugar de oportunismo, a sociedade encontra uma justificativa para não enxergá-la como vítima de violência” completa a pesquisadora.

Sobre os desdobramentos dos casos, Francisca Kerollyne e Larissa Ferrari estão sob medida protetiva, enquanto David Luiz segue atuando pelo Pafos FC, time do Chipre, e Payet voltou para a França e está sem time após rescindir com o Vasco. Andressa Marinho continua o relacionamento com Bruno Silva, que, logo depois que o caso veio a público, foi anunciado como novo reforço do São Bernardo, time da Série C do Campeonato Brasileiro.

Diante desses cenários, a acadêmica Márcia Ribeiro afirma: 

“[A fala de David Luiz] ‘eu posso te fazer sumir e nada vai acontecer comigo’ traduz de forma explícita como funciona a impunidade masculina, especialmente de homens ricos e famosos. Isso não é um caso isolado: é a reprodução de um sistema em que pessoas agressoras contam com as falhas dos aparatos de proteção do Estado e do sistema de justiça que se  mostra falho, seletivo e muitas vezes cúmplice, o que acaba por reforçar a ideia de que mulheres não têm garantias reais de proteção.”

Por fim, Márcia defende que, apesar das brechas, os mecanismos de acolhimento das vítimas desses tipos de crime são muito importantes para garantir suporte e proteção, e uma conquista essencial para o combate à  violência de gênero:

“Há falhas, sim, mas também há muitas vias na rede de enfrentamento à violência e atendimento à mulheres sobreviventes que funcionam bem. É importante que as mulheres superem esse mito de que homens podem fazer qualquer coisa que sairão impunes e que saibam que elas não estão sozinhas”

Suporte para mulheres vítimas de violência

Confira alguns números importantes em casos de violência contra mulheres.

  • Ligue 180 – Central de Atendimento À Mulher – orientação sobre leis, direitos das mulheres e serviços da rede de atendimento, recebe ligações de qualquer lugar do Brasil
  • Delegacias Especializadas de Atendimento à Mulher (deam) – unidades policiais especializadas da Polícia Civil que prestam atendimento à mulheres vítimas de violência doméstica e familiar, violência sexual e feminicídio; funcionam 24 horas por dia, 7 dias por semana. Deam Virtual: https://deamvirtual.pc.pa.gov.br/violencia_contra_mulher/ 
  • Casa da Mulher Brasileira: iniciativa do programa Mulher Viver Sem Violência que busca integrar, no mesmo espaço, “apoio psicossocial; delegacia; Juizado; Ministério Público, Defensoria Pública; promoção de autonomia econômica; cuidado das crianças, alojamento de passagem e central de transportes.”

Expediente
Redação: Isabela Fernandes
Edição: Olívia Pilar
Coordenação: Ana Carolina Vimieiro

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