Entre conquistas, rivalidades e reestruturação, a Vetusta Casa de Afonso Pena reafirma seu legado como símbolo da força esportiva e estudantil.
Por Davi Perin e Matheus Lemes
Há quem diga que ser “Vetusta” é mais do que participar de uma atlética: é carregar nas costas a história de uma instituição que sobreviveu ao tempo, ao improviso e às gerações que passam pelos corredores da Faculdade de Direito da UFMG. Fundada em 1969, a Associação Atlética Acadêmica da Faculdade de Direito da UFMG, conhecida como Vetusta, nasceu da vontade de transformar o espírito competitivo e os laços estudantis em algo maior: uma comunidade. E, mais de meio século depois, é exatamente isso que ela se tornou.

Onde tudo começou
A história da Vetusta está intimamente ligada ao Centro Acadêmico Afonso Pena (CAAP), o mais antigo da universidade. E foi sob sua assistência que surgiram as primeiras movimentações esportivas dos estudantes de Direito. Com o passar dos anos, a demanda por autonomia cresceu e, em 1969, os alunos decidiram fundar uma entidade esportiva independente.
Esse rompimento marcou o início de uma trajetória de independência organizacional e de uma identidade própria. A nova atlética adotou o nome “Vetusta”, referência direta à alcunha tradicional da faculdade, a “Vetusta Casa de Afonso Pena”, título que homenageia o ex-presidente da República e benfeitor da instituição. O termo, que em latim significa “antiga” ou “respeitável pela antiguidade”, traduz o respeito às origens e a consciência de uma história que precede seus próprios fundadores.
“O que a atlética representa para as pessoas da faculdade é realmente uma integração, é um ambiente onde a gente promove o esporte, onde a gente promove as festas. Então, é um ambiente onde as pessoas realmente tendem a se sentir muito acolhidas.” – Comenta Maria Clara Mendonça, atual diretora de Relações Públicas da Vetusta e capitã do time de basquete feminino.
Dos jogos cariocas à CIA

Poucas atléticas universitárias em Minas Gerais acumulam um histórico tão vitorioso quanto a Vetusta. Desde sua primeira participação nos Jogos Jurídicos Mineiros (JJM), principal torneio entre as faculdades de Direito do estado, a atlética da UFMG coleciona 13 títulos gerais em 15 edições, um feito que a consagrou como a maior campeã da história da competição.
Antes mesmo da criação dos JJM, a Vetusta já levava seu nome para torneios nacionais como os Jogos Jurídicos Paulistas e os Cariocas, mostrando uma vocação precoce para o protagonismo esportivo. Hoje, além dos Jogos Jurídicos, a atlética marca presença em competições de grande porte como o Inter UFMG e a Copa Inter Atléticas (CIA), esta última um dos maiores eventos universitários do Brasil.
Com isso, a atlética manteve viva sua tradição de conquistas. Em 2023, o futsal feminino alcançou o título da primeira divisão da CIA, enquanto o futebol de campo masculino conquistou um inédito terceiro lugar, marcos importantes em um cenário de crescente competitividade. Já o basquete feminino, capitaneado pela própria Maria Clara, escreveu uma das páginas mais emocionantes de sua história recente:
“A final dos Jogos Jurídicos de 2023 foi para prorrogação contra a PUC. Ganhamos por uma sexta. Foi pura raça, um momento que eu nunca vou esquecer”.
Porém, os últimos anos também trouxeram desafios. Em 2024, a Vetusta caiu para a segunda divisão da CIA, mas promete voltar mais forte no próximo ano:
“Nós éramos a única atlética de direito na primeira divisão da CIA até 2024. Só que, infelizmente, ano passado a gente acabou caindo. Esse ano a gente foi em busca de voltar, infelizmente nós ficamos em quarto lugar e só os três primeiros sobem. Então, o nosso objetivo para o ano que vem é chegar lá com força total para conseguir voltar para onde a gente nunca deveria ter saído.” – afirma a diretora.
Rivalidade
Nenhuma história esportiva está completa sem uma boa rivalidade e, no caso da Vetusta, ela tem nome e sobrenome: PUC Minas. Os confrontos entre as duas atléticas de Direito são sempre especiais, cercados de provocação, mas também de fraternidade e respeito mútuo.
“É uma coisa muito amigável, mas assim, dentro de quadra, amizades à parte, sabe?”, brinca Maria Clara.
Com o cancelamento dos Jogos Jurídicos Mineiros de 2025, por falta de quórum, a Vetusta idealizou o torneio “O Clássico”, unindo UFMG e PUC em uma nova disputa, que será no mês de novembro. A intenção é preservar o espírito competitivo e a tradição do confronto.
Modalidades, Atletas e Identidade Esportiva
Hoje, a atlética mantém 16 modalidades esportivas ativas, representando diferentes culturas esportivas e universitárias. Entre as coletivas, destacam-se o basquete, handebol, voleibol, futsal e o futebol de campo. Nas individuais, o judô, jiu-jítsu, natação, atletismo, tênis, tênis de mesa, xadrez, peteca e o cheerleading, além de modalidades em expansão como a corrida e o beach tênis.

Cada modalidade tem sua própria história, mas algumas se tornaram símbolos da própria identidade da Vetusta. O basquete feminino, referência na modalidade, é o exemplo mais marcante. O futsal feminino, campeão da CIA em 2023, consolidou a força das atletas dentro do cenário universitário mineiro. Já o futebol de campo masculino vive sua melhor fase, com resultados inéditos.
Organização e trajetória dos calouros
Com cerca de 250 membros ativos, entre gestores e atletas, a Vetusta se organiza como uma instituição completa. Sua estrutura é liderada pela presidente Letícia Martins e pela vice-presidente Luisa Heckert, e conta com seis diretorias: Relações Públicas, comandada por Maria Clara; Financeira, sob a gestão de Helena e Júlia Fiorini; Produtos, dirigida por Marina Lima; Eventos, coordenada por Letícia Hatsumi; Marketing, liderada por Júlia Silva; e Esportes, chefiada por Gustavo Naldi. Cada uma dessas áreas possui autonomia para propor projetos, administrar orçamentos e conduzir suas respectivas equipes.
O projeto de aspirantes, um dos pilares da Vetusta, é o que garante a continuidade da cultura interna. O processo de entrada dos novos membros ocorre durante todo um semestre e funciona como uma imersão prática. Os aspirantes participam de reuniões, auxiliam em eventos, acompanham treinos, organizam comunicações e vivenciam o cotidiano das diretorias:
“Ao longo de um semestre inteiro a gente vai fazendo reuniões com esses calouros, colocando eles em contato com a Atlética. A gente faz um ‘testezinho’ para ver em qual diretoria eles têm mais aptidão de se encaixar”, diz Maria Clara.
A diretora complementa que:
“No final de semestre, a gente faz um churrasco, que é realmente dando as boas-vindas oficiais ao pessoal, acolhendo eles até se tornarem membros, podendo ajudar em quaisquer diretorias que eles acharem que gostariam mesmo de trabalhar.”
Afonsinho: o Macaco

O mascote da Vetusta é uma figura inseparável de sua identidade: o macaco Afonsinho, batizado em homenagem a Afonso Pena, representa a inteligência e agilidade dos estudantes da atlética que representa. Embora a origem exata do macaco como símbolo seja incerta, ele se tornou um emblema afetivo, presente nas camisetas, bandeiras e nas festas mais icônicas da atlética:
“Todas as nossas festas são baseadas justamente no macaco. Temos o ‘Planeta dos Macacos’, que é a nossa recepção dos calouros, e a ‘Welcome to the Jungle’, a calourada oficial”, explica Maria Clara.
Mais do que arrecadações para sustentar o caixa da atlética, as festas cumprem um papel simbólico e social: são uma etapa de transição, espaços de encontro e, muitas vezes, o primeiro contato de um calouro com a cultura da Vetusta.
Onde há glórias, há desafios
A Vetusta opera de forma autossuficiente, sem apoio financeiro da universidade, realidade que exige criatividade e planejamento. Com isso, para equilibrar as finanças, a atlética mantém uma rede de parcerias com empresas locais, como a loja de vestidos Fits U, e a Hub, empresa de formaturas que apoia eventos e marketing. Além disso, restaurantes, academias e clínicas oferecem descontos e apoio logístico aos atletas.
Cada equipe também se mantém com autogestão financeira: pequenas mensalidades e arrecadações, como de R$60 no time de basquete feminino, garantem a continuidade dos treinos e competições. A diretoria, contudo, planeja implementar em 2026 um sistema que promete melhorar a atual situação:
“Estamos estudando essa possibilidade que abarca mensalidade para as pessoas que são poliatletas, porque é uma coisa que as pessoas costumam reclamar bastante atualmente, que não precisem pagar mais de uma mensalidade, mas sim um valor específico para conseguir praticar quantas modalidades esse atleta desejar”, revela Maria Clara.
Próximos passos
Em 2025, a Vetusta vive uma fase de reconstrução e renovação. A queda na CIA ainda dói, mas o desejo de se reerguer é maior que tudo:
“Nosso maior objetivo para o futuro é realmente subir na CIA e jogar a primeira divisão novamente”, conclui Maria Clara.
Com 56 anos de história, a Vetusta permanece como um dos maiores símbolos da tradição universitária mineira — uma mistura de esporte, identidade e comunidade que transforma a rotina do curso de Direito da UFMG em algo vivo. Mais do que uma atlética, a Vetusta é a prova de que, mesmo com as dificuldades, a paixão universitária ainda é capaz de construir grandes legados.

Para acompanhar tudo que envolve a Atlética de Direito da UFMG, siga a Vetusta nas redes sociais: @aaafdufmg
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Redação e Apuração: Davi Perin e Matheus Lemes
Edição: André Quintão
Coordenação: Ana Carolina Vimieiro