Tatiane Gonçalves: trajetória vitoriosa no futebol feminino, história ‘apagada’ e sonho à beira de campo

Fonte: Tatiane Gonçalves

“A gente lutou pelo que essas meninas têm hoje”. Foi assim que Tatiane Gonçalves relatou o longo caminho para que o futebol feminino fosse mais respeitado, recebesse investimento e atenção com o passar dos anos. A goleira de 39 anos, com passagens por América, Atlético e Cruzeiro faz parte da história e trilhou a carreira em campo sob dificuldades e incertezas até levantar troféus e se destacar individualmente. Hoje, desempenha papel importante para a continuação do projeto esportivo no Araguari, time pioneiro na modalidade e que disputa o Campeonato Mineiro pela segunda vez. 

Por mais que apenas a partir de 2019 os clubes passaram a ser obrigados a ter um time feminino, a história precede os anos 1980. Contudo, os relatos das personagens que atuaram como jogadoras antes de o esporte receber maior atenção das federações é nebuloso e, muitas vezes, desconhecido. 

Tatiane fez parte do time campeão do Cruzeiro em 2001. Mesmo assim, ela conta que não recebe reconhecimento por isso e que tem a história quase apagada. A taça que a equipe levantou, inclusive, não está exposta.

“É muito triste não ser reconhecida por conta disso, porque fomos campeãs do Mineiro de 2001, dentro de um campo de terra no bairro Planalto, em Belo Horizonte, que passava até esgoto no meio do campo. Eles falam nos acervos que o Cruzeiro nunca teve futebol feminino, só que a gente foi campeão mineiro. Jogamos com uniforme do Cruzeiro masculino, na época, porque não tinha esse suporte para o feminino. Antigamente, não tinha obrigação de manter um time feminino”, contou. 

Fonte: Tatiane Gonçalves

Em 2022, Tatiane viveu um momento emocionante. Ela não estava preparada e nem esperava que iria jogar com a camisa do Araguari, mas esteve debaixo da meta no confronto entre Cruzeiro e Araguari, no Mineirão – na ocasião, a Raposa venceu por 6 a 0. 

“A minha ideia era estar preparando as goleiras para ser vista. Aí o diretor falou para eu pegar um uniforme e que ia entrar no segundo tempo. Eu entrei para encerrar minha carreira no Mineirão, no auge dos meus 39 anos (risos). Fiz uns 25 minutos de jogo e depois que eu entrei não tomamos mais gol. Aí depois ele falou que eu ia ser a goleira e eu encarei esse desafio. Perdemos todos os jogos por causa de estrutura, mas fui muito elogiada”, recordou.

Até chegar em 2022, já como preparadora de goleiras à frente de um time do interior, o caminho foi longo. As experiências em campo ainda nos anos 2000 retratam o choque de realidade que era ter o sonho de se tornar profissional em um esporte que sempre deu espaço a homens.

Goleira ‘por acaso’

O contato de Tatiane com o futebol começou na infância, quando tinha cerca de 12 anos, em Corinto, Minas Gerais. Mas a surpresa é que ela nem sempre esteve no gol. Curiosamente, ela jogava na linha quando criança. A mudança de posição foi por causa da lesão de uma companheira de equipe. 

“Eu era muito ruim, muito ruim mesmo (risos). Na época a goleira machucou, eu falei com o treinador ‘se quiser que eu brinque no gol, eu brinco, mas nada sério não’. Foi uma brincadeira que me rendeu o gol a vida inteira, porque mesmo quando ela melhorou e voltou para o time, ele deu prioridade pra mim, disse que no time dele, se não fosse no gol, eu não jogava.”

Embora o cenário não fosse tão estruturado como hoje, ela teve a primeira oportunidade no futebol profissional em 1998, quando um time de Curvelo a convidou para jogar o Campeonato Mineiro.

No ano seguinte, em 1999, Tatiane se mudou para Belo Horizonte, fez um teste no Cruzeiro e conquistou vaga no time. Já na primeira semana, foi convocada como a segunda goleira. A partir daí, a carreira começou a deslanchar, com passagens também por Atlético e América. 

Desafios e dificuldades 

Depois de ser campeã pelo Cruzeiro, a equipe disputou o Campeonato Brasileiro em Ubá e terminou em quinto. Depois, o time foi desfeito, e ela alternou entre América e Atlético. Na época, o futebol feminino não era reconhecido como profissional e recebia o título de amador. 

“A gente saía para viajar, para jogar fora, que o Cruzeiro cedia ônibus para a gente, então foi um momento que a gente passou como profissional, a gente dava autógrafo, tínhamos fãs, o pessoal ia para o campo, era muito legal.”

A realidade, contudo, era diferente de hoje. Segundo Tatiane, as atletas não recebiam amparo do clube como profissionais. Mesmo que campeã, ela disse que nunca recebeu premiação pela conquista.

“A gente tinha o básico. Algumas pessoas ganhavam alguma coisa por fora, tinha um ‘mini patrocínio’. Eu sempre tive uma ajuda para o jogo, além da passagem, e a alimentação era uma ajuda, mas a maioria das atletas não tinha. A gente tinha que comprar nossa chuteira, nossa luva. Em 2003 começou a melhorar, tinha um apoio do departamento médico, mas nenhuma estrutura financeira. Foi muito difícil essa época. A gente lutou para o que essas meninas têm hoje”, revelou.

Em 2003, com a camisa do Santa Cruz, equipe da Região Nordeste de Belo Horizonte, Tatiane jogou ao lado de Marta e Formiga – duas das maiores referências do futebol feminino. 

“A presidente do clube, a Vera, dava uma cesta de verdura para a gente toda sexta-feira. Isso era algumas coisas que eles davam algumas vezes. Mas financeiramente, raridade. Para as atletas, não tínhamos regalias”, contou.

Uma realidade no futebol feminino é a dupla jornada de trabalho. Muitas atletas não recebem apoio financeiro suficiente para manter uma casa e uma família, e com isso, são obrigadas a terem outros empregos fora das quatro linhas. 

Tatiane contou que esse foi um dos motivos para que ela não tentasse uma carreira no exterior, onde o futebol feminino tinha mais visibilidade e investimento.

“Eu não fui profissional para a jogar lá fora, porque eu precisava trabalhar e não podia abrir mão para tentar. Quem teve oportunidade melhor é porque tinha um maior poder financeiro para bancar. A maioria dos clubes de fora dava faculdade e ajuda de custo, mas eu não pude fazer isso porque eu precisava trabalhar para poder me manter.”

“Já pensei muitas vezes em desistir do futebol. Principalmente quando separou o amador do profissional. De estrutura de campo, de não ter um vestiário e pensar ‘o que estou fazendo aqui’, mas eu sempre quis muito”, falou.

A carreira fora de campo

Depois de deixar o Santa Cruz, Tatiane seguiu para outros clubes e continuou empilhando troféus. Ela escreveu o nome na história, inclusive, no Gigante da Pampulha.

“Fui campeã mineira dentro do Mineirão pelo Nacional do Carmo, jogamos a Copa do Brasil em 2007, aí foi quando começou a profissionalizar. Em 2012, começaram a redigir carteira assinada, de 2014 para 2015 estavam todos começando essa nova etapa do futebol feminino”, contou. 

Em 2017 ela jogou futebol profissionalmente e teve uma passagem pelo América até seguir para o Araguari. Em meio ao esporte profissional, a goleira se formou em educação física e atualmente atua no crossfit, além da função de preparadora no time do interior de Minas.

“Eu sou formada em educação física, mas não trabalho só na área. Trabalho numa construtora de manhã e de noite no crossfit. No futebol estou trabalhando fim de semana como preparadora de goleira. Fiz faculdade para trabalhar com futebol. Hoje, faço a preparação física. É uma área que eu gosto muito e que quero seguir”, disse.

Tatiane também disse acreditar que a formação entrou quase que como um ‘plano B’. Para ela, em razão das poucas chances no esporte, muitas mulheres se veem obrigadas a tentar trilhar um caminho paralelo ao campo. 

“Tenho contato com meninas que jogaram comigo que hoje são formadas e trabalham na área. Outras estão montando o próprio negócio. Pela falta de oportunidade que o futebol feminino tem e nunca abrangeu financeiramente, para o homem é mais fácil. Eles acabam abandonando o estudo, e a mulher, não. Quando o homem entra para o profissional, ele sabe que a chance dele de ganhar dinheiro é muito mais rápido que uma mulher”, opinou.

Agora, o foco de Tatiane é estar à beira de campo no auxílio das goleiras. Mesmo que ainda não descarte uma aposentadoria, ela revelou o maior sonho como profissional: ser preparadora da Seleção Brasileira.

“Não me aposentei ainda. Não sei como vai ser. Se aparecer oportunidade de trabalhar, não jogo mais, mas ainda vejo que tenho condições de jogar. A vida de goleiro é mais longa. Meu problema é que tive uma lesão no ombro, isso agravou. Estou desde o início do ano sem jogar, e tive o contato como preparadora de goleira. Não é muito provável que eu volte, mas quem sabe me ver como preparadora da Seleção”, brincou

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Autor: Laboratório de Comunicação e Esporte

O Laboratório de Comunicação e Esporte é uma disciplina de graduação ofertada anualmente no Departamento de Comunicação Social (DCS) da Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG) pela professora Ana Carolina Vimieiro.

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