
Nome: Isabelle Gonçalves Sabino
Idade: 24
Esporte: cheerleading
Movimento preferido no cheer: rewind (mortal para cima da elevação)
Curso: Geografia
Área preferida da geografia: geoprocessamento
Hobbie favorito: fazer trilha
Curiosidade: amo filmes de desenho animado
Isabelle representa um esporte em constante expansão. O cheerleading esportivo chegou a pouco tempo no Brasil, em 2008, e está presente principalmente no meio do esporte universitário como maneira de incluir ainda mais estudantes no esporte. Contudo, também é possível encontrar ginásios all star em vários locais do país. Nesses locais, não é necessário ser aluno vinculado a nenhuma instituição de ensino para praticar e/ou competir. Além disso, o cheerleading foi reconhecido pelo Comitê Olímpico Internacional, em 2016, e está no processo de ser considerado um esporte olímpico oficial.
Para falar um pouco da modalidade, a Revista Marta conversou com Isabelle Gonçalves, atleta da “casa”, a Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG). Mapinha, como ela é conhecida, conta também sua trajetória pessoal no cheer.
Confira a entrevista!
Natália: O que é o cheerleading?
Isabelle: A tradução que a gente usa é de líder de torcida. Mas tem tipos diferentes de líder de torcida. O que a gente normalmente vê nos filmes é a categoria que a gente chama de side line, que são as animadoras de torcida mesmo que, enquanto uma equipe de futebol americano ou de basquete tá jogando, elas ficam do lado animando. E a gente tem também o que é esportivo que é, no caso, o que eu pratico e que é um esporte mesmo.
Em 2020 ele foi reconhecido como esporte olímpico. Nessa próxima Olimpíada ainda não vai ter, mas ele pode surgir nas próximas. Então, ele é um esporte que mistura um pouco de ginástica, dança e tem as elevações que a gente chama de stunt, que são também os arremessos.
Natália: Igual você comentou, tem-se essa grande expectativa para o cheer acabar entrando no programa das Olimpíadas. Mas o breaking, que vai estrear ano que vem, teve uma grande polêmica por ter muitos elementos da dança. Como a dança entra no cheer?
Isabelle: Pois é, são partes diferentes da rotina. Uma rotina de cheer envolve elementos de ginástica: como a gente vê na ginástica artística aqueles movimentos de solo e os mortais, que é dada a pontuação pra isso. Tem os elementos de dança, que é uma dança bem típica do cheer, que envolve os movimentos do cheer também. E as elevações. Então assim, a rotina precisa dessas três categorias de movimentos.
Natália: E como é que funciona para captar novos atletas pro cheer? Porque é um esporte novo aqui no Brasil, mas ao mesmo tempo é um esporte muito famoso por causa do que a gente vê nos filmes. Então como é que faz para despertar o interesse da galera? Você acha que essa questão do American Dream acaba ajudando?
Isabelle: Principalmente em Belo Horizonte, a maioria das equipes de cheerleading são universitárias. Então, muitas vezes a gente conhece o esporte na Faculdade, eu mesma conheci na Faculdade. E é feito também o side line, então quando tem algum outro esporte all competindo, tem as animadoras de torcida da Faculdade torcendo para esse esporte. Então muita gente passa a conhecer a partir da faculdade.
Tem alguns ginásios que não são vinculados à instituição de ensino, tanto universidade quanto em escola, que são o que a gente chama de All Star. Então o cheer está ficando cada vez mais espalhado pelas cidades. Porque, por exemplo, o atleta que estava na escola ou na universidade e praticava, o que faz depois que ele forma? Como que ele faz para continuar praticando esse esporte? Então os ginásios All Star estão crescendo também.
Este ano, em 2023, a Seleção Brasileira teve um desempenho muito bom no campeonato mundial e tiveram até algumas matérias, apareceu no Faustão, em alguns jornais. Então está começando ainda a ter essa divulgação e a gente espera que cada vez mais gente conheça.
Natália: Então aqui em BH acontece muito mais evento de cheer universitário. Você sente que tem muito essa diferença nos estados? Qual que você acha que é o estado que promove mais essa questão do cheer atlético, realmente não vinculado a universidade?
Isabelle: Existem ginásios All Star – assim eu não consigo dizer em todos os estados – mas de vários estados que eu conheço: no Rio de Janeiro, São Paulo, Brasília, Paraná. Assim, no geral, no Brasil é um esporte bem recente, então ainda está ainda está crescendo. Mas assim, já existem ginásios All Star, que são esses não vinculados a universidades ou escolas, espalhado pelo Brasil.
Natália: Eu acompanhei a sua trajetória indo pra Brasília treinar todo final de semana. Conta um pouco como é que foi essa experiência de participar da seleção, tendo que viajar várias horas pra poder treinar.
Isabelle: Na seleção brasileira, como tem atletas de vários estados, Brasília foi selecionada para sediar os os treinos, até pela maioria dos atletas da equipe de coed adulto, que é a que eu fazia parte, serem de Brasília. Então assim, ficava bem difícil para eu, que sou de Belo Horizonte. Alguns dos atletas – do Rio de Janeiro, do Espírito Santo – antes mesmo de começarem os treinos já conversaram, combinaram e falaram “ah não, vai ficar muito difícil ir todo final de semana” então eles marcaram alguns treinos que eles iriam e outros que eles não iriam.
Mas assim, é bem cansativo. Mas a gente poder treinar quando a gente reúne para treinar para esses treinos da seleção, a gente está treinando ali com os melhores atletas do Brasil. Então é um compartilhamento de conhecimento muito, muito bacana. No final acaba que vale a pena, a gente cria essas amizades de outros estados e fora que a gente conhece outros lugares do Brasil também.

Natália: Enquanto você não está treinando em Brasília, eu acompanhei o seu treino lá na escola de engenharia da UFMG e além de observar vocês, eu estava vendo também que quando você estava lá treinando, passava muita gente que ficava chocada vendo você ficar em pé em cima da mão da pessoa – e eu também fiquei chocada. Como é treinar num lugar público, na área de convívio comum da faculdade?
Isabelle: Sempre chama bastante atenção, né? E isso é até bacana, porque muitas pessoas conheceram o cheer assim, sabe? Despretensiosamente, estavam andando pelas faculdade, viram ali eles jogando gente pro alto e fala “gente, que que é isso? Quero fazer também”. Então isso é bem bacana.
Antes de eu entrar nos times, antes da Faculdade, antes mesmo da seleção brasileira, a gente treinava muitas vezes em praça. Porque agora a gente treina lá na escola de engenharia. As equipes têm os tatames que são guardados lá. Mas antes da gente ter todos esses acordos, antes das equipes adquirirem esses tatames, acontecia às vezes da gente se encontrar em praça pra treinar. Então chama bastante atenção, sempre uma pessoa ou outra passa, para, fica olhando, as crianças também acham incrível.
Por um lado, às vezes incomoda um pouco que as pessoas ficam olhando, e às vezes ficam perguntando “nossa, quando você pesa?”, “como é que você faz mortal?” e a pessoa pede para levantar ela só que é perigoso. Como é que eu vou falar não? Mas também é bacana porque difunde o esporte e torna o esporte mais conhecido.
Natália: E lá no seu treino da UFMG, eu estava reparando que você estava treinando com dois meninos. Mas nos filmes, a gente vê o cheer como um esporte feminino. Só que vendo você e vendo a seleção, eu vi que tem o all boys, all girls e o misto. Você considera que aqui no Brasil ainda tem esse estigma do cheer ser um esporte feminino?
Isabelle: Olha, eu acho que depende bastante. Isso varia de equipe para equipe. Porque tem equipes que a gente chama de coed, que têm tanto atletas masculino quanto feminino, têm all girl que é feminino e all boy que é só masculino. Então assim, depende até da própria equipe. Eu já conheci a equipe na universidade que a equipe é all girl, então só aceitava mulher. Só que assim a gente vê principalmente quando vai avançando de nível, que tem as bases duplas e base única e na maioria das vezes são rapazes que ficam de base.
Então eu não consigo te dizer se é predominantemente masculino ou predominantemente feminino, pelo menos dos que eu conheço e até a própria seleção brasileira tem tanto o coed – essa equipe mista – quanto o all girls.

Natália: Focando um pouco nessa questão do recorte, eu queria saber se você, que é uma mulher negra, acaba enfrentando algumas situações desagradáveis, igual a gente infelizmente vê acontecendo em outros esportes? Ou não, o cheer está aí para dar esse bom exemplo?
Isabelle: Pois é, tem algumas situações. Por exemplo, o nosso uniforme tem que ser o mais padronizado possível, na verdade, a nossa apresentação tem que ser a mais padronizada possível. Então, maquiagem, cabelo, o lacinho que é bem comum da gente usar, tem que ser tudo padronizado. Então às vezes pode ser um desafio a equipe selecionar um penteado ou uma maquiagem que se adeque tanto para meninas de pele clara quanto para pele escura, para cabelo liso, ondulado, cacheado, crespo, de trança. Então, às vezes isso é um desafio. Mas a presença de pessoas negras faz até a equipe se atentar a isso para evitar qualquer tipo de constrangimento.
Lógico, que como todos os outros esportes, ainda tem o que avançar. Mas eu acho que as equipes estão caminhando para ser cada vez mais inclusivas.
Natália: Com certeza, vamos torcer para vir o mais rápido possível. Aí vendo o treino também, eu percebi que precisa de muita força de todo mundo – da base, da flyer, de todo o mundo. Além do esporte, como é que você faz para se fortalecer?
Isabelle: Na universidade, às vezes a pessoa nunca praticou esporte na vida, conheceu o cheer e se apaixonou ali. Quando a gente aprende a técnica, você precisa de menos força do que parece, então às vezes é mais leve do que a gente olha e pensa que é. Então tem essas pessoas que o cheer foi o primeiro esporte que elas conheceram. Isso é até bom, porque às vezes as pessoas ficam “nossas, eu não tenho nenhuma experiência e como é que eu vou fazer?” e dá para todo mundo aprender, sabe? Mas aí quanto mais você quer trabalhar sua flexibilidade, sua força e a própria consciência corporal para você conseguir fazer as acrobacias, tem muita gente que faz academia por fora. Ou têm pessoas que vieram de outros esportes, por exemplo, eu fiz ginástica quando era criança.
Então é um condicionamento e uma força que a gente pratica e que a gente treina fora do treino da equipe de cheer. E no próprio treino, a gente tem a parte de condicionamento, parte de força que a gente trabalha também.
Natália: Além de ser atleta, você também é treinadora. Como é essa sensação de estar treinando as equipes? E como conciliar com os seus treinos também?
Isabelle: Eu estou começando agora. Até então, eu dou treino somente para uma equipe, que foi uma equipe que eu inclusive já treinei com eles, como atleta. Então assim é bom que foi desenvolvendo essa confiança em mim para eu poder ir conduzindo os treinos. A própria experiência da seleção brasileira foi muito enriquecedora para mim em questão de aprender as técnicas e de ter contato com mais treinadores. Porque como é um esporte que ainda está crescendo muitos treinadores também são atletas. Os atletas da seleção também são treinadores de suas equipes na sua cidade. Então esse contato com outros treinadores foi muito enriquecedor e é muito bom poder estar compartilhando com Belo Horizonte algum conhecimento que eu adquiri em Brasília ou no Rio de Janeiro.
Eu ainda estou enfrentando vários desafios que são normais por eu estar começando a dar treino agora, mas também é muito bom e eu tenho visto bastante resultado.
Natália: Agora, saindo um pouco do cheer, quero saber da sua vida fora do esporte. Seu apelido “Mapinha” já sei que é porque você é da Geografia. Me conta um pouco disso.
Isabelle: Pois é, eu curso Geografia na Universidade Federal de Minas Gerais e quando eu estava no meu terceiro período, que eu conheci o cheer. Então assim eu conheci o cheer justamente por estar na universidade. E os treinos sempre foi um desafio para as equipes você encaixar tanto horário de treino com o horário das aulas, então às vezes a equipe tem dois treinos na semana, mas você consegue ir em um porque no outro dia você tem aula.
Mas eu conheci o cheer em 2019 e não consegui mais largar e eu gostei demais. E logo quando eu entrei, eles me deram esse apelido de Mapinha é porque o meu nome é Isabelle e tinham muitas “Isas” na equipe. Então com muita Isa, ninguém pode ser Isa e aí eles me deram esse apelido e eu amei esse apelido e aí ficou.
E agora, com tudo dando certo, esse é meu último semestre na universidade, estou formando agora no final do ano, mas eu não pretendo largar o cheer. Pelo contrário, pretendo continuar no cheer mesmo depois da universidade.

Natália: Mas aí, na Geografia, você já trabalha na área? Vai continuar trabalhando e conciliando com cheer?
Isabelle: Isso, eu já trabalho com o geoprocessamento, eu faço mapas, ironicamente. Inclusive o meu apelido de Mapinha veio antes de eu começar a trabalhar com mapas. Mas eu trabalho na área de geoprocessamento e é muito bom que eu já consegui essa inserção no mercado de trabalho antes mesmo de me formar.
Natália: Então, além de dar treino, viajar para treinar, competir, trabalhar e estudar, tem mais alguma coisa que você faz?
Isabelle: Eu tenho que ir balanceando tudo, ne? Acho que esse é o maior exercício, a maior dificuldade. Mas acho que é isso mesmo.

Natália: E a vida social, fica como?
Isabelle: Chega o momento que praticamente todo o seu círculo de amigos é do cheer então eu tenho muitas amizades muito próximas que eu desenvolvi no cheer. Ainda mais porque, como quando você está treinando para competição, vocês passam muito tempo juntos, são desafios que vocês vão superando juntos e alegrias que vão compartilhando, então a amizade fica muito próxima.
Natália: Bom, então, para fechar agora eu vou te pedir para fazer um convite pra galera para conhecer o cheer e contando um pouco como é que faz para acompanhar os esportes, os canais que você acompanha para as competições. Como funciona isso?
Isabelle: O mais fácil de achar é jogando nossas hashtags: #cheerbrasil #cheerpostbrasil. E se alguém que faz faculdade ou está no ensino médio, pode procurar e ver se no seu local de estudo tem uma atlética com equipes de cheerleading também.
Inclusive se eu puder divulgar aqui o meu Instagram @mapiinha e lá eu também posto bastante coisa sobre cheer.