Uma campanha sólida, marcada por crescimento técnico, destaques individuais e amadurecimento coletivo, garante o vice-campeonato ao Brasil e também alguns alertas importantes para o Mundial
por Duda Castro (dudam.castro)

A seleção brasileira feminina de vôlei terminou a Liga das Nações 2025 com o vice-campeonato. É a quarta medalha de prata do Brasil na competição e, ainda que o título inédito siga escapando, a campanha deixa motivos para celebrar e acreditar. Com apenas duas derrotas (ambas para a poderosa Itália), a equipe comandada por José Roberto Guimarães confirmou sua permanência entre as potências do voleibol mundial e, mais do que isso, mostrou que o processo de renovação está em curso e tem dado frutos. O Brasil jogou muito vôlei ao longo das últimas semanas e isso não pode ser ignorado.
A renovação, até aqui, tem funcionado. Jogadoras jovens, mas com personalidade e desempenho de veteranas, têm se firmado como pilares da seleção. É o caso de Julia Kudiess, Diana e Ana Cristina, que entregaram atuações consistentes, técnicas e corajosas. Há também nomes ainda mais novatos, como Marcelle, Jheovana e Helena, que, sempre que acionadas, corresponderam à altura – com destaque absoluto para a líbero (Marcelle), que salvou o time em momentos decisivos. Ao lado desse novo fôlego, veteranas como Gabi seguem como referências, mantendo um nível altíssimo e assumindo o protagonismo quando necessário. Por outro lado, algumas jogadoras experientes não conseguiram manter a mesma constância: Rosamaria, Macris e Roberta oscilaram em momentos importantes, o que acende um sinal de atenção para o Mundial. A mistura de gerações é promissora, mas, para funcionar, precisa que todas entreguem o melhor em quadra.
A solidez de quem aprendeu a competir
Chegar à fase final da VNL é sempre um feito, mas mais do que isso, é um teste de nervos, preparo técnico e resiliência emocional. E foi com esse espírito que o Brasil entrou em quadra na última quinta-feira (24), contra a Alemanha, pelas quartas de final. O placar seco de 3 a 0 não conta toda a história, mas resume bem o que o time mostrou em quadra: eficiência. Não foi o melhor jogo do Brasil na competição, mas foi o mais pragmático. Um jogo que precisava ser vencido e foi.
A Alemanha, que já tinha levado o Brasil ao tie-break na fase classificatória, tentou repetir a dose. Entrou com intensidade, defendeu muito e dificultou o jogo. Mas a seleção brasileira soube jogar com os erros adversários e com um fundamento que tem crescido ao longo do torneio: o bloqueio. Foram 11 pontos nesse fundamento, com Diana dominante na rede, e, do outro lado, 23 erros alemães que o Brasil não perdoou. No ataque, destaque para Rosamaria, com 13 pontos, e Gabi, grande destaque da fase final.
Na semifinal, no sábado (26), o roteiro ganhou drama. Japão e Brasil voltaram a se encontrar em uma semifinal de VNL e, como no ano passado, o jogo foi ao tie-break. Mas diferente de 2024, desta vez deu Brasil! Depois de um primeiro set irregular, com falhas de recepção e problemas na virada de bola, a entrada de Macris ainda na parcial foi um divisor de águas. Com velocidade e inteligência, ela reorganizou o jogo e deu um novo ritmo à equipe. A partir daí, vimos o Brasil renascer, liderado por uma Gabi inspirada e sustentado por uma Marcelle monumental na defesa – talvez a melhor em quadra naquela tarde.
Foi um jogo de entrega, de superação e de muito coletivo. Quando o Japão empatou a partida no quarto set, foi inevitável o fantasma da eliminação do ano passado. Mas a resposta veio com força: 15 a 8 no tie-break, com saque agressivo, bloqueio bem montado e vibração do início ao fim.
Na final de domingo (27), porém, faltou algo. Ou melhor: sobrou Itália. As atuais campeãs olímpicas e da VNL mostraram porque acumulam 28 vitórias consecutivas. O Brasil venceu o primeiro set com autoridade, chegando a abrir 24 a 21. Porém, a partir do segundo set, o que se viu foi um domínio italiano nos fundamentos que mais machucam: saque, bloqueio e contra-ataque. O Brasil lutou, tentou, fez ajustes, Macris voltou ao time, Rosamaria tentou assumir o protagonismo em momentos de oscilação, mas não foi suficiente.
Foi uma final em que o Brasil oscilou demais na distribuição e seguiu sem encontrar uma oposta de referência. E mesmo com boas atuações individuais (Gabi foi a maior pontuadora da equipe com 15 pontos), a diferença técnica nas viradas de bola ficou evidente. Egonu e Antropova, alternando em quadra, mostraram o que significa ter uma jogadora decisiva na entrada de rede. O Brasil, por outro lado, ainda busca essa referência.
Destaques em verde e amarelo
A VNL 2025 foi palco de grandes histórias individuais. E poucas se destacaram tanto quanto Julia Kudiess. Aos 22 anos, a central foi escolhida como melhor central da competição e igualou o recorde de bloqueios da história da VNL, da central Carolana, com 63 pontos no fundamento. No total, ela somou 151 pontos e foi a terceira maior pontuadora do Brasil, atrás apenas das ponteiras Gabi e Ana Cristina. Em uma palavra: dominante.
Ao lado dela, na seleção do torneio, brilhou a capitã Gabi Guimarães, que foi eleita melhor ponteira da VNL pela quarta vez na carreira. Mesmo jogando apenas nove dos quinze jogos do Brasil, marcou 112 pontos e foi a referência técnica e emocional da equipe. Na final, fez 15 pontos e, após o jogo, resumiu com precisão o sentimento coletivo: “Foi uma campanha sólida, com jogadoras que assumiram papéis incríveis, como a Marcele e a Júlia Kudiess. É uma geração renovada que quer melhorar, que entende que é possível chegar lá e buscar o título”, disse em vídeo para O Tempo Sports.
E por falar em Marcelle, a líbero fez sua estreia na seleção principal com uma atuação de veterana. Defendeu tudo na semi contra o Japão e segurou o fundo de quadra com personalidade. “Foi incrível. É o sonho de qualquer atleta estar aqui. Não foi o resultado que queríamos, mas não faltou entrega nem dedicação”, disse após a final.
Julia Bergmann também merece menção. Nesta competição, pudemos assisti-la crescer e amadurecer como jogadora da seleção. Na reta final, melhorou no passe, se posicionou melhor na defesa e virou bolas importantes no ataque. Mostrou amadurecimento técnico e emocional e se firmou como uma peça confiável para o futuro.
A grande ausência na final foi Ana Cristina, que sofreu uma lesão no joelho esquerdo durante a vitória sobre a França, no dia 10 de julho, em Chiba, e já passou por uma artroscopia. Aos 21 anos, a ponteira vinha sendo a maior pontuadora do Brasil na VNL, com 167 pontos, e fazia uma campanha brilhante até então. Contra a Itália, sua presença certamente teria feito diferença, não só na força ofensiva pela entrada de rede, mas também como possível opção na saída, dada a potência que carrega no braço.
Pontos de atenção daqui para a frente
Ainda que a campanha tenha sido fortíssima, há lições a serem levadas para o Mundial, que começa em agosto, na Tailândia. E a mais urgente delas é: o Brasil ainda precisa encontrar sua oposta de confiança. Zé Roberto testou Rosamaria, Kisy, Tainara e Jheovana ao longo da competição. Todas tiveram bons momentos, mas nenhuma conseguiu se firmar como aquela jogadora que a gente chama para virar uma bola no 24 a 23. No jogo de alto nível, especialmente em finais como a da VNL, essa referência faz diferença. E enquanto o Brasil ainda busca sua viradora de segurança, a Itália teve Paola Egonu – melhor oposta da VNL 2025, desequilibrando sets inteiros sozinha.
A outra questão que segue em aberto é a da levantadora. Macris e Roberta, experientes e já acostumadas a decisões, oscilaram. A entrada de Macris na semifinal contra o Japão mudou o jogo. Mas, na final, nenhuma das duas conseguiu se impor. Claro que o passe quebrado atrapalha, e a Itália forçou bastante o saque para isso. Mas, ainda assim, faltou um pouco de variação, aceleração e leitura mais rápida do bloqueio adversário. São jogadoras excepcionais, mas que precisam retomar o nível que já apresentaram em outros grandes torneios.
E, se dentro de quadra há o que ser ajustado, fora dela o clima também pesou. As críticas nas redes sociais não foram poucas. Rosamaria foi o principal alvo, mas Gabi também sentiu e verbalizou isso no retorno ao Brasil. Algumas críticas são compreensíveis, especialmente em relação ao rendimento da oposta, que oscilou durante a VNL. Ninguém sai feliz de uma derrota e isso ficou evidente no semblante da capitã no desembarque.
“Dá pra ver no meu semblante a frustração. Estou virada desde o jogo”, desabafou Gabi ao GE. Mesmo ao saber que foi eleita para a seleção da competição, ela minimizou a conquista: “Sinceramente, não fico feliz quando a gente não ganha. Para mim, não me bate muita alegria, sendo sincera.” Na mesma entrevista, elogiou Kudiess, reconheceu a atuação da Sylla e até mencionou que Julia Bergmann também merecia estar na seleção da VNL. Uma fala honesta e que revela o quanto esse grupo está envolvido no processo.
A frustração é legítima, mas precisa ser canalizada da maneira certa. A seleção já provou que tem talento, entrega e base para seguir crescendo. Agora, é entender onde estão os ajustes e, mais do que nunca, proteger quem está tentando fazer esse time dar certo. Jogar bem é importante. Mas saber perder também é um aprendizado necessário, dentro e fora da quadra.
Itália: impecável, mas indigesta
É impossível negar: a Itália mereceu o título. Fez uma campanha perfeita, venceu todas as partidas, soube se adaptar a diferentes adversárias e foi dominante do início ao fim. Com Egonu e Antropova revezando como se fosse simples ter duas das melhores opostas do mundo no elenco, com uma líbero histórica como Monica De Gennaro e uma levantadora cerebral como Alessia Orro, as italianas formaram um time completo. Frio, técnico, eficiente. O título veio com justiça.
Mas, ainda assim, dói. Porque essa não foi uma final tão desequilibrada. O Brasil teve momentos de destaque, abriu vantagem, lutou. E, mesmo assim, não foi suficiente. A Itália não só nos venceu de novo, ela nos venceu com consistência. E isso, para quem acompanha essa seleção há anos, começa a incomodar. Porque a gente sabe que tem elenco, que tem base, que tem jogadoras capazes, mas quando chega em uma final isso muda. Ver o título escapar pela quarta vez é frustrante. E ver uma mesma adversária, com mais força mental, mais controle emocional e mais tranquilidade tática, levantar a taça – de novo – machuca um pouco mais.
A VNL 2025 acabou, e o título, mais uma vez, não veio. Já são quatro pratas no currículo da seleção brasileira feminina na competição. E embora o vice-campeonato não deva ser encarado como fracasso, também não pode mais ser visto como suficiente. Porque esse time tem jogadoras, estrutura e ambição para mais. O “quase” precisa ser transformado em conquista.
Ainda assim, o Brasil sai maior da competição. Mostrou que tem um elenco renovado, técnico, vibrante e pronto para brigar com as melhores seleções do mundo. Com Gabi guiando o grupo, Julia Kudiess bloqueando até pensamento e Marcelle se firmando como novo nome do fundo de quadra, o futuro parece mais próximo. E promissor.
Que venha o Mundial. Porque o vôlei que a gente viu nas últimas semanas merece mais do que aplausos. Merece continuidade. Merece confiança. Merece torcida. E, em breve – por que não? – merece o ouro.
Expediente
Redação: Duda Castro
Edição: Olívia Pilar
Coordenação: Ana Carolina Vimieiro