Por Francyelle Messias, estudante de jornalismo da UFMG
A Confederação Brasileira de Vôlei (CBV) decidiu aderir à nova diretriz do Comitê Olímpico Internacional (COI) de testes de gênero para definir a elegibilidade de atletas na categoria feminina. “Essa verificação é feita por testagem e triagem do gene SRY – tendo como ressalva apenas condições excepcionais previstas na política”, lê-se em nota divulgada em 14 de agosto pela entidade nacional.
Na prática, a medida tem um efeito direto: o afastamento da jogadora Tiffany Abreu, do Osasco, das competições. Ela é a única mulher trans em ação no voleibol brasileiro profissional.
A medida entrou em vigor na recém-iniciada temporada 2026/27, que engloba competições como as Superligas A e B, a Supercopa, a Copa Brasil, o Circuito Brasileiro de Vôlei de Praia e o Circuito Brasileiro de Vôlei de Praia Challenger. O movimento da CBV se ampara em uma decisão mais ampla a nível internacional.
Em 26 de março, o COI anunciou uma nova diretriz para que todas as atletas apresentem teste genético negativo para o gene SRY (Sex-determining Region Y), responsável pelo “desenvolvimento masculino” no corpo humano:
“Como ex-atleta, acredito veementemente no direito de todos os atletas olímpicos de participar de competições justas. A política que anunciamos tem base científica e foi elaborada por especialistas médicos. Nos Jogos Olímpicos, mesmo as menores diferenças podem significar a diferença entre a vitória e a derrota. Portanto, está absolutamente claro que não seria justo que homens biológicos competissem na categoria feminina”, declarou a presidente da entidade, a zimbabuana Kirsty Coventry, na época.
Pesquisadores e ativistas do movimento LGBTQIA+ demonstram preocupação com a medida, especialmente pela exclusão às atletas trans. Para contribuir com este debate, a Revista Marta reuniu os principais impactos da nova política e conversou com o antropólogo e pesquisador Wagner Xavier de Camargo, que tem se dedicado ao estudo das expressões dissidentes de gênero e sexualidade no futebol e nos esportes.
O impacto na sociedade, vida e carreira de Tifanny
Com a implementação desta nova diretriz, a atuação da atleta Tifanny do Osasco vira dúvida para a continuidade da temporada. A oposta do clube paulista é a primeira e única atleta transgênero a disputar competições de elite no vôlei nacional.
Ela estreou na Superliga feminina em 2017 pelo Bauru e desde 2021 defende o Osasco. No clube da Região Metropolitana de São Paulo, Tifanny conquistou a Superliga 2024/2025 – foi a maior pontuadora da equipe na conquista e a quarta maior da competição, com 442 pontos. Além disso, foi campeã do Campeonato Paulista de 2021, 2023, 2024 e 2026 e duas vezes da Copa do Brasil, em 2025 e 2026, também com o Osasco.

Nesta temporada, o Osasco estreou no Campeonato Paulista em 15 de agosto, um dia após a CBV anunciar a nova regra. A atleta participou normalmente da partida, pois o campeonato começou antes da proibição. Ou seja, as regras da competição são as que já estavam vigentes. Durante o jogo, Tifanny recebeu apoio das companheiras de time e da torcida, que gritou o nome da atleta em vários momentos.
Depois da partida, Tifanny falou com a imprensa e deixou claro o descontentamento com a decisão:
“O voleibol é minha vida, meu trabalho. A CBV está tirando de mim tudo o que eu tenho, que é o amor pelo voleibol e a profissão que venho exercendo todos esses anos. É um enorme retrocesso na luta pelo reconhecimento e inclusão de todas as pessoas no esporte. Voltamos para uma forma vexatória, como se testavam as atletas nos anos 60 e 70. Estamos em 2026. Não podemos ter esse retrocesso jamais. Não vou me calar. E vou tomar todas as medidas possíveis para que minha luta pelo direito, visibilidade, inclusão e prática do esporte não tenham sido em vão”.
Para o antropólogo e pesquisador Wagner Camargo, a decisão da CBV tem um impacto negativo do ponto de vista social: “Tudo o que é decidido no âmbito do esporte ou reflete a sociedade ou de de certa forma está em sintonia com ela. É uma relação de causa e efeito, e é muito prejudicial, muito deletério para a sociedade. Isso reforça ainda mais que esses corpos não são bem-vindos nos lugares esportivos e também não são na sociedade, porque esses corpos apresentam visivelmente uma outra possibilidade que não o binarismo feminino e masculino”.
O vôlei é a segunda modalidade mais popular e praticada no Brasil, e decisões como essa vão na contramão do que é a essência inclusiva do esporte. Para além do âmbito esportivo, o Brasil em 2025 se manteve na posição de país que mais mata pessoas transgênero no mundo pelo 18º ano consecutivo, segundo o Dossiê Assassinatos e Violências Contra Travestis e Transexuais Brasileiras, divulgado pela Associação Nacional de Travestis e Transexuais, no início de 2026. Nesse sentido, a implementação da regra reforça o preconceito e a exclusão de pessoas trans, tanto no esporte quanto na sociedade.
Apoio do Osasco e de Gabi Guimarães
Em nota publicada nas redes sociais, o Osasco reforçou o apoio a Tifanny e relatou que o departamento jurídico do clube está avaliando a nova regra em uma tentativa de reverter a situação. O técnico Luizomar de Moura também falou sobre a situação: “Não é justo com a equipe, não é justo com a Tifanny”.
Algumas atletas também manifestaram publicamente apoio à jogadora, como Gabi Guimarães. A capitã da seleção feminina escreveu em uma publicação nas redes sociais: “A mudança foi planejada ou pensada por quem? Defendendo os interesses de quem? Em algum momento alguém pensou na pessoa da Tiffany, em como isso impactaria na vida dela? Ou só vamos reforçar que as pessoas trans devem ficar à margem da sociedade mesmo? É preciso enxergar além do superficial para ver o que realmente importa. Tifanny é um ser humano que merece todo nosso respeito. Mas, infelizmente, foi duramente desrespeitada”.
Atualmente, Gabi Guimarães é uma das melhores atletas do mundo na modalidade e uma referência para as novas gerações, o que traz ainda mais peso para a declaração da atleta. Para o pesquisador Wagner, o apoio à Tifanny não é somente sobre ela, mas por toda uma causa:
“É defender também a questão das mulheres num todo, para elas também não sofrerem violências. Então, tem uma causa comum. Dado que a Tifanny é uma mulher, as outras mulheres muitas vezes observam a Tiffany como uma aliada na briga contra essas mazelas sociais que afetam as mulheres no Brasil.”
Outras entidades também adotam nova medida do COI
Não é somente no vôlei que esta nova regra do COI está implementada. Recentemente, a WTA, entidade que gere o tênis feminino profissional, aderiu à política de elegibilidade. Com isso, as tenistas vão precisar passar pelo teste de gênero, ainda que não existam mulheres trans no circuito.
Segundo Wagner, a tendência é a nova regra se proliferar para as outras modalidades. Em 2023, a Federação Internacional de Xadrez (FIDE), por exemplo, determinou que mulheres trans devem esperar dois anos para serem aceitas em competições femininas. “Na visão desta federação, o cérebro de um homem é mais desenvolvido que o de uma mulher, então uma mulher trans seria um homem, portanto, o cérebro mais desenvolvido vai ter mais vantagem num jogo que é mental. Só que isso é um absurdo sem tamanho”.
De modo geral, o cenário atual indica que o esporte continuará sendo, pelo menos até os Jogos Olímpicos de Los Angeles 2028, pautado por questões de natureza biológica, o que desconsidera a pluralidade de corpos e não acompanha as lutas de movimentos progressistas em defesa de grupos minorizados. Em nota, a Associação Nacional de Travestis e Transexuais (ANTRA) manifestou profunda preocupação com o avanço de tais medidas e ressaltou que este movimento não é novo, como também foi apontado pelo pesquisador:
“Ao longo da história, a biologia foi mobilizada como instrumento político para restringir direitos e testar supostas hierarquias de superioridade. Foi com base nesses argumentos que mulheres cisgêneras foram proibidas de participar de competições esportivas por décadas, sob alegações de fragilidade ou inadequação, enquanto pessoas negras também foram alvo de teorias eugenistas e racistas que buscavam definir quem poderia ou não competir. Hoje, esse mesmo repertório é reativado contra pessoas trans, revelando a permanência de uma lógica excludente que apenas atualiza seus alvos”.

Desdobramentos na justiça
No dia 16 de outubro, poucas horas antes do confronto contra o Praia Clube, válido pela Supercopa 2026, a jogadora conseguiu uma liminar emitida pela justiça do Rio de Janeiro, para possibilitá-la entrar em quadra. O documento determinava que a CBV deveria permitir a oposta de participar da Supercopa 2026 e da Superliga 2026/2026 e, caso a entidade máxima do voleibol brasileiro descumprisse a liminar, ela seria multada. Depois da partida a jogadora falou com a imprensa:
“Fiquei esperando essa resposta [da liminar] o dia inteiro. Quando recebi a notícia pouco tempo antes do jogo, eu caí aos prantos. É muito difícil, porque a gente, atleta, tem que brigar todo dia para se provar dentro de quadra. Tem que brigar todo dia treinando, malhando, cuidando do físico. Ao mesmo tempo, tenho que me provar também como atleta fora de quadra. É muito difícil”.
No dia anterior, 15 de outubro, a CBV tinha aprovado a inscrição de todas as atletas do Osasco Vôlei, com exceção de Tiffany, o registro dela ficou pendente. Com essa indefinição, a equipe jurídica da atleta e do Osasco pediram a liminar para a Justiça Desportiva, porém a liberação foi negada. Então foi necessário apresentar um recurso ao Tribunal Pleno do STJD (Superior Tribunal de Justiça Desportiva) e pedir a liminar na justiça comum.
Depois da liberação da atleta, emitida pela justiça do Rio de Janeiro, a CBV se manifestou em um comunicado à imprensa. Confira alguns trechos:
“Em cumprimento à ordem judicial, e por força dela, a atleta terá, em caráter excepcional e provisório, condição de jogo na partida da Supercopa Feminina 2026 de hoje, e na Superliga Feminina 2026/2027.
A CBV apresentará os recursos cabíveis e adotará as medidas necessárias para a reversão da decisão.”
Já na sexta-feira, 23 de outubro, foi realizada uma audiência e a Justiça Desportiva decidiu, por unanimidade, ser contra a elegibilidade da atleta. Ela fica impossibilitada de disputar competições da CBV. O Tribunal de Justiça do Rio de Janeiro (TJRJ) também decidiu suspender a liminar que autorizava a jogadora a participar da Superliga 2026.
Nota oficial da CBV
Para o ge.globo, a equipe juridica da jogadora comunicou que vai entrar com um pedido de reavaliação no Tribunal de Justiça do Rio de Janeiro e vai seguir tentando a liberação na justiça comum. A CBV também se manifestou por meio de uma nota oficial:
A Confederação Brasileira de Voleibol (CBV) informa que obteve decisão do Tribunal de Justiça do Estado do Rio de Janeiro suspendendo, nesta sexta-feira (23), a decisão de primeira instância proferida em favor da atleta Tifanny Abreu.
O fundamento da decisão é o artigo 217 da Constituição Federal, que estabelece que o Poder Judiciário só deve analisar ações sobre disciplina e competições esportivas depois de esgotadas as instâncias da Justiça Desportiva. Ao conceder o efeito suspensivo, o relator informou:
“Todavia, em análise preliminar, a mera urgência decorrente do calendário esportivo não parece suficiente, isoladamente, para afastar o requisito constitucional, sobretudo quando a parte interessada já submeteu a questão à Justiça Desportiva e dispõe de recurso próprio contra a decisão que indeferiu a medida liminar.
Com efeito, a negativa de tutela provisória por órgão da Justiça Desportiva não se confunde com o esgotamento das instâncias desportivas. Admitir que o indeferimento de medida liminar autorize, por si só, a imediata submissão da mesma pretensão ao Poder Judiciário pode implicar a transformação da jurisdição estatal em instância revisora de pronunciamentos interlocutórios desportivos, em aparente desconformidade com a sistemática estabelecida pelo art. 217, § 1º, da Constituição Federal.”
Pouco depois, o Superior Tribunal de Justiça Desportiva do Voleibol concluiu o julgamento do Mandado de Garantia nº 002/2026, impetrado pela atleta, e, por unanimidade, negou a ordem.
Com as duas decisões, a decisão anterior deixa de produzir efeitos e a atleta não tem condição de jogo.
A CBV reafirma que cumpriu integralmente a decisão anterior enquanto ela esteve em vigor, e seguirá cumprindo todas as determinações do poder judiciário e da justiça desportiva. A entidade mantém seu compromisso com o respeito e a dignidade de todas as atletas, e reitera que sua Política de Elegibilidade é uma norma geral, aplicável igualmente a todas, alinhada aos critérios do Comitê Olímpico Internacional e da Federação Internacional de Voleibol.
Depois da decisão, Tiffany usou as redes sociais para se manifestar sobre o veto. Em uma publicação no Instagram, a atleta destacou que vai seguir lutando para voltar às quadras:
A Revista Marta continuará acompanhando o caso e a presente matéria poderá ser atualizada posteriormente.
Expediente
Redação: Francyelle Messias
Edição: João Vitor Marques e Rafaela Souza
Coordenação: Ana Carolina Vimieiro