Apesar de uma final espetacular, a Copa 2022 ficará marcada por corrupção e violações de direitos humanos

Por Maria Carolina Martins (@mariacamartins) e Diego Graim

A 22a edição da Copa do Mundo de Futebol Masculina, que aconteceu entre 21 de novembro e 18 de dezembro de 2022, no Catar, mobilizou, como sempre, torcedores ao redor do mundo e levou pelo menos um milhão de visitantes do exterior para o país, segundo estimativa da FIFA. Essa edição, porém, já é considerada uma das mais controversas dos últimos tempos, pois a escolha do Catar como sede, há 12 anos, inclui alegações de corrupção, violações dos direitos humanos, além de dúvidas a respeito de como pessoas LGBT+ são vistas e tratadas no país, principalmente no que diz respeito à segurança. 

Como a FIFA escolhe as sedes da Copa do Mundo?

O processo de escolha das sedes para as Copas do Mundo são realizados pela FIFA e, geralmente, começam com a convocação dos candidatos e, ao final desta chamada, o Conselho analisa as candidaturas e, se necessário, reduz a lista de finalistas. Por fim, o Congresso da entidade se reúne  para realizar a votação e escolher uma nova sede do evento. O processo de seleção do anfitrião da Copa do Mundo de 2022 começou em 2009 e no ano seguinte, 2010, o Catar foi o país escolhido. É importante ressaltar que um dos requisitos mais importantes da escolha é que as confederações que já sediaram as duas Copas anteriores não podem se apresentar à convocação atual, ou seja, na ocasião, países da África e da América do Sul não poderiam concorrer para serem sede do evento, pois África do Sul e Brasil já haviam sido escolhidos para recebê-lo em 2010 e 2014, respectivamente. Tendo a Rússia sido escolhida para receber a edição de 2018, o Catar derrotou os Estados Unidos na votação para sediar 2022.

Ex-presidente da FIFA, Joseph Blatter em meio a protesto contra esquemas de corrupção na entidade (Arnd Wiegmann/REUTERS)

A polêmica escolha do Catar

Acolher um evento global da magnitude da Copa do Mundo é um desejo cobiçado por vários países, pelo fato da vantagem lucrativa no turismo, receitas e por toda a cobertura midiática que o país sede recebe. Por isso, algumas polêmicas envolvem a escolha do Catar. A primeira delas é a respeito de um suposto pagamento de propina por parte do governo do país à FIFA. De acordo com o jornal britânico The Sunday Times, o governo dos EUA denunciou que 21 dias antes da eleição em Zurique, representantes da TV Al Jazeera, estatal do país, teriam feito um contrato de pagamento no valor de  € 880 milhões (aproximadamente R$ 4,7 bilhões). O pagamento teria sido feito em quantia dividida em duas parcelas, uma de 480 milhões e a segunda de 400 milhões, havendo uma cláusula de bonificação, caso o Catar fosse escolhido, no valor de  € 100 milhões. Quem estava na presidência da entidade na época era Joseph Blatter, e a recente declaração dele ao jornal suíço Tages-Anzeiger diz que a escolha do país foi um erro.

“O futebol e a Copa do Mundo são muito grandes para isso. Eu só posso repetir que dar o evento para o Catar foi um erro, e eu fui responsável por isso como presidente na época. Agora que a Copa está chegando, eu estou feliz que, com algumas exceções, nenhum jogador esteja boicotando o torneio”.

afirmou Blatter, que ainda fez críticas ao atual mandatário da Fifa, Gianni Infantino. 

A própria escolha dos Estados Unidos como sede para 2026, ao lado de Canadá e México, é cercada de polêmicas. Entende-se que é uma resposta ao FIFA Gate, operação perpetrada pela justiça estadunidense para desbaratinar os casos de corrupção na entidade máxima do futebol, mas, se por um lado o Catar é acusado de violações sistemáticas aos direitos humanos, como explicar as infindáveis invasões a outros países levadas a cabo pelo Tio Sam? 

É de conhecimento amplo, geral e irrestrito, já de longa data, a maior facilidade que a FIFA tem em se relacionar com governos, se não autoritátios, autocratas, na realização de seus eventos. Sistemas legais mais complexos exigem também mais lobby por parte da entidade para alterar leis que a favoreçam, como a Lei Geral da Copa, utilizada no Brasil, em 2014. Rússia, em 2018, e China, sede do primeiro mundial de clubes nos moldes da Copa, ainda sem data definida, são outros exemplos de países com os quais a FIFA possui relações estreitadas por grandes cotas de patrocínio como as da Wanda e Gazprom, estatais de petróleo de ambos os países, respectivamente. 

Outra questão contraditória envolvendo a escolha do Catar é a respeito da construção da infraestrutura. O país construiu sete estádios para o torneio, um novo aeroporto, metrô e novas rodovias, inclusive uma nova cidade, Lusail, construída a 15 km da capital Doha. Entretanto, todos esses empreendimentos foram erguidos em meio a uma série de polêmicas como o de exploração e más condições de trabalho, o que é considerado violação aos direitos humanos.   

Histórico dos Direitos Humanos no Catar: Escravidão Moderna e Tráfico Humano

O Catar adotou sua primeira constituição em 2004, e esse foi o primeiro passo para uma espécie de liberalização do país após sua independência da Inglaterra em 1971. Havia certas dúvidas quanto à questão dos direitos humanos no país dali em diante, o que gerou denúncias que datavam antes mesmo da escolha do emirado para sediar a Copa do Mundo.Uma das principais polêmicas envolvendo sua constituição é a adoção da Xaria como forma de legislação para o país. A Xaria atualmente é um dos sistemas legais mais utilizados no mundo, sendo presente em maior parte no Oriente Médio e no norte africano. O sistema faz com que suas leis sejam fundamentadas no Alcorão, livro sagrado do Islã.

A Xaria carrega consigo a criminalização da conversão a outra religião, do estabelecimento de direitos às mulheres, e de práticas LGBT+, valores que no mundo ocidental são amplamente essenciais para a valorização da liberdade individual. Para a manutenção das leis religiosas no país, é utilizada uma interpretação da Xaria que permite o uso de violência corporal e até mesmo a pena de morte. Em 2021, a pena de morte foi utilizada pela última vez, no caso de um nepalês culpado por assassinato.

Desde o estabelecimento de sua constituição, a organização Human Rights Watch mantém o país em observação, gerando um relatório em 2012 sobre a exploração de trabalhadores, tráfico humano e os preparos controversos da Copa, que já havia sido anunciada na época. Em 2013, a Anistia Internacional também divulgou relatório próprio, alegando que até a chegada da Copa do Mundo de 2022, cerca de 4000 trabalhadores seriam mortos devido às condições de trabalho. Na época, o número foi contestado por autoridades locais como exagerado. Quase uma década após a publicação desse documento, o jornal The Guardian estima que esse número tenha passado dos 6500. Entretanto, não é possível relacionar os motivos das mortes às obras de infraestrutura devido à falta de coleta de dados do governo do Catar sobre os imigrantes. Apenas é possível afirmar que essas mortes são de imigrantes desde 2010 até a finalização dos estádios.

Fonte: Revista Marta

Dentre grande parte do número de pessoas mortas, é revelado um grave problema de imigração em massa e a precarização dos imigrantes no Catar. Submetidos a trabalhos análogos à escravidão e ao tráfico humano, esses imigrantes enfrentam também um déficit habitacional nas periferias de Doha, uma das cidades mais caras do mundo para se viver. 

Os imigrantes comumente se tornam vítimas de tráfico humano devido às precárias condições trabalhistas. Boa parcela das pessoas traficadas provêm do norte africano e do sul da Ásia como refugiados, que vão para o Catar em busca de melhores condições de vida, visando o alto índice de desenvolvimento do país, mas, logo eles encontram uma realidade distorcida em que são constantemente explorados. A questão feminina na imigração se torna mais importante ao notar que grande parte das mulheres imigrantes optam por seguir o caminho da prostituição de luxo, crime passível de deportação. Até o momento não é possível afirmar a quantidade de mulheres envolvidas neste processo.

Em meio a vários protestos de organizações internacionais, o Catar realizou medidas para conter os abusos trabalhistas e humanitários. Foram realizadas campanhas publicitárias contra o tráfico humano, que forneceram métodos de denúncias anônimas e estabeleceram palestras sobre o assunto. Também foram feitas parcerias com países do Sul Asiático para evitar o turismo sexual e melhorar as condições de trabalho de imigrantes, garantindo alguns recursos essenciais como salário mínimo de 250 dólares e a construção de zonas residenciais para esses imigrantes. Ainda há uma contestação sobre a aplicação dessas medidas e como elas são feitas, mas é importante notar essa pequena evolução dos direitos humanos no Catar.

Conforme a data do jogo de abertura da Copa do Mundo ia se aproximando, mais organizações e entidades públicas expressaram seu repúdio à escolha da FIFA em levar o evento para um país com histórico inexistente no futebol e graves violações aos direitos humanos. Torcedores europeus levantaram a hashtag #BoycottQatar2022 pedindo para evitar os jogos da copa e evitar engajamento com produtos ou comentários nas redes sociais.

A Copa é de todo o mundo? Negação do direito de existência de LGBT+ e de outras culturas

A Copa do Mundo é conhecida como um evento que traz consigo uma espécie de propaganda positiva sobre o país que irá receber o torneio, e promove uma melhoria significativa no comércio local. Em 2014, o Ministério do Turismo estima que o Brasil recebeu cerca de R$ 30 bilhões em capital estrangeiro investido no território nacional durante o período da Copa. Já o Catar vem apresentando números assustadores para seu investimento dar certo, dado todo o histórico ruim que o país apresenta. O país investiu cerca de US$ 229 bilhões na construção de estádios, aeroportos, transporte público e até mesmo em uma nova cidade para receber turistas. Esse valor chega a ser 20 vezes maior que o investimento feito pela Rússia na Copa do Mundo passada (US$ 17 bilhões).

Dentre uma das principais polêmicas que ronda o valor dessa Copa ser inflado é o uso de possíveis torcedores falsos para passar uma imagem positiva do país em meio a tantas polêmicas. Em vídeos que viralizaram no aplicativo TikTok, era possível ver uma multidão de torcedores de vários países festejando pelas ruas de Doha. Muitos usuários notaram, entretanto, uma discrepância no perfil racial das pessoas e que elas não tentavam simular o ritmo cultural do país que estavam representando, fazendo somente sons vazios sem sentido nenhum. O que remete ao Sportwashing, termo usado constantemente para falar sobre a artificialidade dessa Copa do Mundo, e que denuncia o investimento alto como uma forma de mascarar todos os problemas no Catar e tentar atrair o máximo de público e capital para países que violam os direitos humanos constantemente. Mas, quem é o verdadeiro público da Copa do Catar?

Como mencionado anteriormente, o Catar usa como método de legislação a Xaria, um sistema baseado no Alcorão. Em meio a suas leis, muitas chamam a atenção por possuir questões que não são vistas no mundo ocidental há muito tempo, dentre elas estão o banimento de práticas LGBT+, regulação da vestimenta feminina e a proibição de manifestações religiosas fora do Islamismo. Usando a ferramenta de dados Google Trends, é possível ver um aumento repentino sobre o que não se pode fazer no Catar, revelando o medo entre torcedores quanto a um evento que deveria representar a união de vários países ao redor do globo.

O principal medo em todos os torcedores se deve ao uso de punições corporais como método de aplicar a lei. A legislação do Catar prevê o uso de chibatadas, apedrejamento e até mesmo fuzilamento em casos mais extremos, mas há uma ambiguidade sobre o que é extremo ou não para o Governo do Catar, com vários relatos de penas diferentes para crimes iguais, baseado no perfil social do infrator.

Para a legislação do Catar, é proibido a prática e a conversão a outras religiões que não o Islã para cidadãos do país, sendo apenas permitido a prática para turistas. Atualmente, o Catar está incluído na 18° posição em uma lista de países que mais perseguem cristãos, religião seguida pela maior parte dos jogadores. Outra proibição fortemente ligada à cultura do futebol é a do álcool, consumido principalmente por países ocidentais em partidas esportivas e com previsão de 1 a 5 anos de prisão para quem for pego bêbado nas ruas. A Budweiser, uma das marcas de cerveja que mais investiu no evento, com aproximadamente US $75 milhões, foi pega de surpresa a dois dias da partida inaugural com a proibição da venda de bebidas alcoólicas nos arredores dos estádios. Para o público estrangeiro, apenas as fan fests organizadas pela FIFA ofereceram a opção por cervejas, mesmo assim com entradas controladas e preços salgados. A edição do Catar é a com o litro de cerveja mais caro entre as 22 já realizadas do mundial – cerca de 73 reais.

Em novembro de 2022, uma matéria exclusiva do site britânico INews revelou a história de um homem espancado e estuprado por seis policiais em um hotel do Catar por usar um aplicativo de relacionamentos e tentar achar outro homem no país. Ali conheceu uma pessoa que o incentivou a ir a um hotel para se conhecerem pessoalmente, mas ao chegar ao quarto se deparou com vários policiais que haviam armado uma armadilha para ele. Depois desse evento traumático, Ali foi preso e deportado, sem receber nenhuma espécie de indenização pelo que aconteceu. A reportagem sobre o caso viralizou pelo mundo e muitas pessoas demonstraram insegurança ao notar que policiais usam dados pessoais para caçar pessoas consideradas indesejadas no país. Mesmo que os turistas não demonstrassem nenhum ato tido como “criminoso” e obedecessem às leis do Catar, eles ainda poderiam ser presos por simplesmente existir. Para o britânico INews, Ali afirmou acreditar que nada mudará após a Copa: “Impossível. Nada vai mudar depois da FIFA.”

“Acredito que odiar pessoas só pela forma de amar delas não deveria ser uma forma de ‘cultura’… me sinto muito desrespeitada quanto a isso porque diz muito sobre a nossa existência.” Diz Rebeca Mello, uma torcedora LGBT+, que expressa descontentamento com a forma que a FIFA tratou essa copa. Ela compartilha do medo que várias pessoas têm quando um torneio dessa magnitude acontece em um país homofóbico. Ela conclui dizendo: 

“A copa é um evento mundial, que abrange vários tipos de pessoas com diferentes costumes, então a sede da copa, pra mim, deveria ser um país que tenha as mínimas condições de respeito às vivências dos seres humanos de uma maneira geral… se isso ocorre em meio a uma copa que aborda o mundo todo, no dia a dia deve ser bem pior.”

Fonte: Revista Marta

A FIFA se pronunciou para diversos jornais dizendo: “FIFA luta para criar um ambiente livre de discriminação, e promover diversidade dentro de sua organização, suas atividades e eventos… Catar como país-sede tem noção total de sua responsabilidade a aderir as expectativas da FIFA e seus requerimentos em direitos humanos, igualdade e não-discriminação”.  

Muitos apontam as diversas hipocrisias na organização do evento, denunciando a valorização do espetáculo ao invés dos direitos humanos. Por mais que a Copa do Mundo de 2022 não tenha recebido nenhuma interferência direta para cessar as atividades, várias seleções optaram por realizar protestos simbólicos como forma de denunciar os problemas que ocorrem no Catar.

Um caso que chamou a atenção foi a Dinamarca ao manter o brasão e a marca da fornecedora nas mesmas cores de sua camisa oficial para a Copa, tentando expor a mensagem “Direitos humanos para todos”, barrada pela FIFA por uso de mensagem política. Também houve a união de vários capitães de seleções para usar uma braçadeira colorida contra a homofobia no país, novamente frustrada pela Federação Internacional sob ameaça de punição esportiva ao longo da competição.

Divulgação/Twitter/Fodboldlandsholdene (Seleção dinamarquesa)

Algumas pessoas pediram uma espécie de “respeito à cultura do Catar”. Hugo Lloris, capitão da França, disse que não usaria a braçadeira pois segundo ele: “Concorde ou não com as ideias deles, tenho que mostrar respeito em relação a isso”. Outro posicionamento notável foi a da CBF ao pedir aos times em nota que: “não permitam que o futebol seja arrastado para todas as batalhas ideológicas ou políticas que existem”.

Em contrapartida, a torcida catari também se manifestou nos estádios relembrando violações de direitos perpetradas por países europeus ao longo do século passado, sobretudo a Alemanha, um das seleções a se posicionar na Copa, ao lado da Bélgica, e também episódios de racismo sofrido pelo jogador alemão de ascendência turca Mesut Özil. A mídia catari se manifestou quando ocorreu a eliminação de ambas as seleções, indicando que, caso elas se preocupassem mais com o futebol, não estariam voltando para casa de forma precoce ainda na fase de grupos.

Classificada para as semifinais após eliminar o Brasil, a seleção croata também foi alvo de críticas ao ter vídeos divulgados em que entoava cânticos de teor nacionalista contra populações bósnias da península balcânica. Reincidente em episódios do tipo, a Croácia conta com grande número de jogadores do Dínamo Zagreb, cuja torcida marchou sobre Milão fazendo saudação nazista.

A Copa do Mundo 2022 será lembrada por zebras como a vitória da Arábia Saudita sobre a campeã Argentina ainda na primeira rodada, ou a eliminação do Brasil para a Croácia ao levar gol de empate faltando 4 minutos para o fim do jogo. Como uma faca de vários gumes, não apenas dois, porém, um evento historicamente conhecido por unir nações com culturas tão diferentes, terá uma mancha difícil de apagar em sua história ao realizar este torneio em meio a tantas polêmicas.

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