Coletivos de torcedores na UFMG: onde a paixão e o acolhimento se tornam um só

Entenda como funcionam os agrupamentos de torcedores na vida acadêmica e como o torcer tem ajudado no processo de socialização dos estudantes da UFMG.

Por Gabriela Sousa (sousagabizx) e João Pedro Salles (_jpsalless)

Movido pela paixão e considerado uma grande forma de mobilização, o futebol atravessa fronteiras e comove milhares de pessoas ao redor do mundo. A partir disso, torcedores de diversas camadas sociais e localidades se unem pela criação de espaços de pertencimento, confraternização e luta, conectados pela vontade de torcer em comunidade e manifestar suas suas reivindicações e opiniões frente ao clube de coração.

A existência desses corpos sociais pode ser observada em diversos contextos. As circunstâncias de atuação podem envolver desde o dia a dia no estádio e a frequência nos jogos, ou até mesmo mobilizações mais localizadas, ou seja, que agrupam pessoas com interesses, princípios ou rotinas semelhantes, mas que além disso compartilham, claro, o amor pelo mesmo time.

Na Universidade Federal de Minas Gerais, por exemplo, encontramos coletivos de torcedores de seis clubes de futebol: Atlético Mineiro, Cruzeiro, Flamengo, Corinthians, Internacional e Vasco da Gama. 

Nesse contexto, o ambiente universitário une centenas de estudantes em busca do reconhecimento de uma identidade e cotidianos partilhados. 

A definição de coletivo pode se confundir muito com a de torcida organizada, porém, a assimetria existe e é muito perceptível. Para Renata Lemos, historiadora e pesquisadora do esporte, apesar da diferença se basear muito na autodefinição de quem gere ambos os grupos de torcidas, é notório a diferença acerca da organização dos agrupamentos. 

“As torcidas organizadas e os coletivos diferem bastante em suas estruturas e funcionamento. As organizadas costumam ter uma hierarquia definida, o que proporciona aos membros um sentimento de poder e posição dentro da organização. Já os coletivos, em geral, adotam uma estrutura mais horizontal, promovendo a igualdade entre seus integrantes”, reforçou a pesquisadora.

Surgimento dos agrupamentos de torcida no Brasil

Todo brasileiro já deve ter escutado, pelo menos uma vez, que o Brasil é o “país do futebol”. Afinal, com o reconhecimento internacional do futebol vistoso e com o domínio global no esporte, visto que a seleção masculina é a única pentacampeã mundial, é difícil questionar os motivos pelos quais fomos presenteados com esse título. 

Em paralelo à disseminação e popularização do futebol pelo país, as torcidas logo começaram a ter um papel essencial e altamente relevante no espetáculo. 

Os primeiros agrupamentos de torcedores dos quais se tem registro no Brasil são a Torcida Uniformizada do São Paulo (TUSP), de 1940, e a Charanga Rubro-Negra, de 1942. Em terras mineiras, a torcida do Atlético foi a primeira a se organizar, a partir da criação da Força Atleticana de Ocupação / Dragões da FAO, no ano de 1969. 

O movimento foi seguido por Cruzeiro e América, com as fundações da Torcida Jovem, em 1970, e da Torcida Desorganizada Avacoelhada, em 1988.

Como surge um coletivo de torcedores na UFMG

Os coletivos de torcedores na UFMG são formados por iniciativas individuais de pessoas que torcem para os seus clubes. Além disso, o desejo em se juntar partia sempre da necessidade de torcer em grupo, de dividir os sentimentos de tudo que envolve o seu time do coração.

Rafael Borges (25) é atleticano fanático, estudante de veterinária na UFMG e criador da UFMGalo – coletivo do Atlético Mineiro. Ele relatou que a criação do coletivo foi motivada muito pelo ano vitorioso do clube em 2021, temporada em que o time ergueu as taças do Campeonato Mineiro, Copa do Brasil e Brasileirão, e que a ideia surgiu durante uma conversa descontraída com seus colegas de turma que sempre acompanhavam os jogos juntos.

“Quando o Atlético ainda jogava no Mineirão, a gente sempre frequentava os jogos com muita facilidade. Então, em dias de jogos, a gente ficava ali na [Escola de] Veterinária interagindo e perto do horário da partida a gente seguia para o estádio. Em um desses dias, eu comentei com meu amigo que deveria ter algo da UFMG toda, um local ou um grupo de torcedores feito de aluno para aluno, com um único intuito: torcer para o Galo!”, contou Rafael.

O estudante também reforçou a sua vontade de democratizar o ato de torcer pelo seu clube:

“Eu sempre pensei que queria criar algo que realmente colocasse todo mundo da faculdade, de forma inclusiva, envolvendo pessoas de diferentes origens, independentemente de orientação sexual, cor ou qualquer outra diferença. Que fosse algo realmente para todos.”

Além disso, ele relatou as ações do coletivo que transformam essa ideia em algo possível e concreto: “No começo isso tudo era uma ideia. Mas, após muita conversa, cheguei em algo: ‘Vamos fazer uma camisa’. Fiz a primeira camisa e usei o dinheiro das vendas para impulsionar o projeto, investir em divulgação, e, com o lucro, promover sorteios de ingressos e outras ações. Recentemente conseguimos disponibilizar uns ingressos e levar algumas pessoas pela primeira vez na vida à Arena MRV”.

12 pessoas estão torcendo para o Atlético Mineiro em meio a um bar. 10 delas estão de pé e 3 estão sentadas. Todos estão vestidos de Galo, cantando e gesticulando. Ao centro da foto, está escrito Bar Batata Raiz.
Coletivo da UFMGalo torcendo para o seu clube na semifinal da Libertadores de 2024. Foto: João Salles

#PraTodosVerem: 13 pessoas estão torcendo para o Atlético Mineiro em meio a um bar. 10 delas estão de pé e 3 estão sentadas. Todos estão vestidos de Galo, cantando e gesticulando. Ao centro da foto, está escrito Bar Batata Raiz.

Alison Luiz (28), torcedor do Corinthians e estudante de História na UFMG, contou sobre o contexto de criação do grupo Fiel UFMG, do qual faz parte desde 2023. Segundo ele, o coletivo foi criado por uma estudante, Amanda, que veio de São Paulo para fazer mestrado em BH e percebeu que, na turma dela, não havia nenhum corintiano.

“Ela estava sentindo essa falta, essa dificuldade de encontrar uma galera para se reunir, assistir aos jogos e falar sobre o Corinthians. Então, começou a usar as redes sociais para chamar as pessoas. Assim, criou o grupo, e sempre que via alguém com a camisa do Corinthians já chamava para participar. Assim, o grupo foi crescendo”, relatou o corintiano.

Foi assim também que Alison foi chamado para participar do coletivo, com a ajuda de um acessório que faz ele ser reconhecido pelo campus da Universidade: o boné da Fiel BH, movimento de torcedores com base na capital mineira. 

Alison, um homem branco, gesticulando com um punho em frente ao peito. Está vestido com um boné preto escrito "Fiel BH" e uma camisa preta escrita "Gaviões da Fiel". O fundo é o gramado de um estádio de futebol e a sua arquibancada.
Alison com o seu característico boné da Fiel BH em um jogo na Arena MRV. Foto: Alison Luiz

#PraTodosVerem: Alison, um homem branco, gesticulando com um punho em frente ao peito. Está vestido com um boné preto escrito “Fiel BH” e uma camisa preta escrita “Gaviões da Fiel”. O fundo é o gramado de um estádio de futebol e a sua arquibancada.

“Eu sempre usava um boné da Fiel BH aqui na UFMG. Um dos caras me viu com o boné e me reconheceu, porque já tinha me visto andando pelo campus com ele. Aí ele falou: ‘A gente tem um grupo aqui de corintianos na UFMG. Me passa o seu contato que eu vou te adicionar’. Foi a partir disso que eu entrei no grupo”, contou Alisson.

Samuel Bárbara (21) é de Paraguaçu, estudante de Engenharia Mecânica e criador do grupo UFMGama, coletivo de torcedores do Vasco da Gama. Ele relatou qual foi o motor principal para a criação do grupo: “Assistir um jogo sozinho pode ser tímido ou desconfortável, mas quando você tem mais pessoas animadas para ir junto, isso torna a experiência sensacional. Foi daí que surgiu minha vontade em juntar e interagir com os vascaínos da UFMG”.

“Sei que ainda não juntei todos, mas sinto que aos poucos a gente vai se juntando e se unindo para torcer pelo Vasco”, completou o graduando.

Três pessoas com a camisa do Vasco estão dentro da arquibancada de um estádio de futebol. Da esquerda para a direita: Um homem branco, Samuel, de cabelo preto médio, com idade entre 20 e 25 anos, vestido com uma camisa roxa do Vasco da Gama, ao seu lado, uma mulher parda, com cabelo curto, idade entre 20 e 23 anos, com uma camisa branca com listra diagonal em cor de arco-íris do Vasco e, por último, um homem pardo, de com cabelos próximos aos ombros, com idade entre 20 e 23 anos, vestido com uma camisa preta e listra diagonal de arco-íris do Vasco da Gama.
Samuel e seus amigos em um jogo do Vasco no estádio Independência. Foto: Samuel Bárbara

#PraTodosVerem: Três pessoas com a camisa do Vasco estão dentro da arquibancada de um estádio de futebol. Da esquerda para a direita: Um homem branco de cabelo preto médio, com idade entre 20 e 25 anos, vestido com uma camisa roxa do Vasco da Gama, ao seu lado, uma mulher parda, com cabelo curto, idade entre 20 e 23 anos, com uma camisa branca com listra diagonal em cor de arco-íris do Vasco e, por último, Samuel, um homem pardo, com cabelos próximos aos ombros, idade entre 20 e 23 anos, vestido com uma camisa preta e listra diagonal de arco-íris do Vasco da Gama.

O sentimento do torcedor que está fora de casa

A relação do torcedor de futebol com seu time do coração é algo que, por vezes, é difícil explicar. 

A intensidade do sentimento e a comunidade criada na união do torcer são típicos do esporte, que tem o poder de promover mobilizações sociais, culturais, de luta, identificação e pertencimento.

Para o fã que está longe da cidade sede do seu clube, a vivência com o futebol e o ambiente das torcidas pode ser difícil de substituir.

Gustavo Nitsch (21), torcedor do Internacional e natural de Bento Gonçalves, sentiu isso ao se mudar para Belo Horizonte em 2021 para estudar Letras na UFMG. 

Ao chegar, a saudade de casa e do Inter foram ficando cada vez mais intensas e, com isso, ele teve a ideia de criar o grupo, que, além de trazer conforto para o seu coração gaúcho e colorado, possibilitou que ele conhecesse melhor a cidade e auxiliasse no seu processo de socialização em BH.

“Foi muito bom para conhecer a cidade e explorar lugares que eu nunca teria visitado se não fosse para assistir ao Internacional. Quando cheguei aqui, no início, minha rotina se resumia a ir da universidade para casa, não saia com muitas pessoas. Mas ver o Internacional jogando foi maravilhoso. Comecei a conversar, fazer amizades, e isso criou uma relação legal”, relatou o colorado.

Um homem branco, loiro, na arquibancada de um estádio de futebol, com o gramado ao fundo, com idade entre 18 e 20 anos, vestido com uma camisa vermelha com listras em vermelho escuro, do Internacional de Porto Alegre, fazendo um gesto com o polegar e o mindinho abertos com as duas mãos.
Gustavo em jogo do Internacional no Mineirão. Foto: Gustavo Nitsch

#PraTodosVerem: Gustavo, um homem branco, loiro, na arquibancada de um estádio de futebol, com o gramado ao fundo, idade entre 18 e 20 anos, vestido com uma camisa vermelha com listras em vermelho escuro, do Internacional de Porto Alegre, fazendo um gesto com o polegar e o mindinho abertos com as duas mãos.

Alison, natural de Arapuá, no triângulo mineiro, fala sobre o seu processo de adaptação em Belo Horizonte e a percepção que tem sobre estudantes que vêm para a capital com o objetivo de estudar.

“Eu tinha um professor na faculdade que brincava que, para quem é de fora da cidade de Belo Horizonte, no fim de semana a gente sobra que nem chuchu na janta” relatou o corintiano, em tom de humor. “A gente fica meio assim, né? Porque você tá longe da família então, às vezes, no começo, principalmente, chegava no final de semana era bem assim, chegava até ser depressivo.”

Em seguida, Alison destacou a importância que o grupo Fiel UFMG teve na sua adaptação ao novo ambiente e a dar continuidade aos estudos na capital. “No final de semana, ir para o bar e estar com a galera me ajudou muito a sentir esse pertencimento a uma comunidade. Acho que esse é um laço muito forte que a gente cria, né? Você está ali com outras pessoas que, muitas vezes, você nem conhece, mas está vestindo a mesma camisa e defendendo o mesmo ideal. Isso cria um laço muito forte e, assim, me ajudou bastante a firmar laços e me sentir bem aqui em BH”, concluiu.

Lugar de acolhimento 

Os grupos de torcedores presentes na UFMG também surgem como um espaço de acolhimento identitário para diversos estudantes. Muitas vezes, diante de discriminações e movimentos de exclusão por parte de outras comunidades, é no espaço da Universidade que os alunos se sentem confortáveis para serem eles mesmos.

Segundo Renata, diversos grupos de minorias nas sociedades encontram confiança e segurança em alguns coletivos de torcedores para que eles possam viver essa paixão por seu clube.

“Dentre os diversos tipos de coletivos, reconhecemos alguns que surgem como resposta às marginalizações enfrentadas nessas arquibancadas, unindo pessoas para compartilhar a paixão pelo futebol. Eles são importantes porque oferecem oportunidades para que indivíduos de grupos sociais minoritários vivam o esporte de maneira inclusiva, criando espaços seguros. Esses agrupamentos permitem que torcedores que antes se sentiam excluídos se identifiquem com outros semelhantes e vivenciem o futebol de forma que antes lhes era negada.”, explicou a historiadora.

Ian ou Iana Braga (24), graduando em Química, é atleticano, mas tem uma história curiosa com os coletivos de torcedores da UFMG. Apaixonado por futebol, decidiu ingressar em todos os grupos de torcedores que conseguiu encontrar. Além disso, foi no grupo de seu time do coração, UFMGalo, que ele encontrou conforto e espaço para manifestar sua identidade de gênero. 

“Eu sou uma pessoa não binária, e às vezes eu gosto de ficar mais feminina, outras vezes mais masculina. E foi no coletivo do Galo que eu pude ser eu mesmo sem me sentir julgado. Planejo visitar os estádios dessa forma no futuro.”, revelou o torcedor atleticano. 

Um homem branco, cabelos longos e escuros, batom vermelho, idade entre 20 e 25 anos, vestido com camisa rosa choque do Atlético Mineiro.
Iana usa uma camisa do seu time do coração. Foto: Iana Braga

#PraTodosVerem: Iana, uma pessoa branca, cabelos longos e escuros, batom vermelho, idade entre 20 e 25 anos, vestida com camisa rosa choque do Atlético Mineiro.

Como fazer parte dos coletivos de torcedores na UFMG

  • Atlético Mineiro (UFMGalo): entre em contato pelo Instagram, @ufmgalo, ou pelo WhatsApp do Rafael – (31) 99701-5073.
  • Cruzeiro (UFMzero): entre em contato pelo Instagram, @ufmzero.
  • Internacional (UFMGINTER): entre em contato pelo Instagram de um coletivo parceiro, @tropadomao.
  • Vasco da Gama (UFMGama): envie uma mensagem pelo WhatsApp do Samuel – (31) 98535-0451.
  • Corinthians (Fiel UFMG): envie uma mensagem pelo WhatsApp do Alison – (34) 98892-5324.

O Coletivo do Flamengo não disponibilizou uma forma de ingresso em seu coletivo.

Avatar de Desconhecido

Autor: labcomunicesp

O Laboratório de Comunicação e Esporte é uma disciplina de graduação ofertada anualmente no Departamento de Comunicação Social (DCS) da Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG) pela professora Ana Carolina Vimieiro.

Deixe um comentário