Por Felipe Veras (@felipe.verax) e Duda Castro (@dudam.castro)
Estudantes, docentes e outros funcionários da universidade têm optado por caminhar ou ir de bicicleta para o campus; o hábito contribui para o bem-estar, mas há desafios como falta de iluminação e sensação de insegurança.
Cada vez mais pessoas escolhem caminhar ou pedalar como meio de transporte, incorporando atividade física à rotina. Essa tendência combina deslocamento e bem-estar, promovendo saúde e sustentabilidade na vida urbana.
Assim, na Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG), especialmente nos campi da Pampulha e da Saúde, essa escolha se torna comum entre estudantes, professores e funcionários que transformam o trajeto em uma oportunidade de praticar esporte. A combinação de atividade física e mobilidade sustentável contribui para a saúde dos indivíduos e ajuda a reduzir o impacto ambiental, reforçando a ideia de cidades mais humanas e integradas.

#ParaTodosVerem: A foto é da entrada da Av. Antônio Carlos do Campus Pampulha da UFMG. Nela, há diversos alunos de costas caminhando pela calçada. Há alguns carros passando e à direita um espaço com grama.
Alunos como Arthur Juliano, estudante de Publicidade e Propaganda, têm incorporado o trajeto até a faculdade à prática de atividade física, encontrando nesse hábito uma alternativa que auxilia na rotina de exercícios e melhora a disposição e o bem-estar. “Sempre fiz exercícios e, como em BH eu não estava conseguindo manter essa rotina, passei a ir andando até a FAFICH, o que leva uns 40 minutos”, conta Arthur. Além de economizar tempo, ele percebe que ir a pé influencia diretamente seu ânimo e disposição, especialmente quando comparado a dias em que opta por usar o transporte coletivo. “Fico muito mais disposto no dia a dia quando vou a pé, uma sensação de bem-estar maior do que no dia em que vou de ônibus”, relata.
No entanto, Arthur menciona desafios que enfrentam os que aderem a essa mobilidade ativa. Dificuldades relacionadas à infraestrutura e segurança, como a falta de iluminação em determinados pontos e a presença de buracos no trajeto, são alguns dos principais fatores que limitam a frequência com que ele faz esse percurso a pé. “Não volto de noite porque não tem iluminação, em alguns lugares fica um verdadeiro ‘breu’, então por segurança eu evito”, explica Arthur. Outros fatores como condições climáticas, como a chuva e o sol forte, também impactam na regularidade de seu trajeto a pé.
Planejamento urbano
A infraestrutura urbana desempenha um papel fundamental na promoção da mobilidade ativa e na inclusão de práticas esportivas no deslocamento diário, especialmente em um campus como o da UFMG. Contudo, Daniel Parreiras, gerente de projetos do Instituto de Planejamento e Gestão de Cidades (IPGC), destaca que há um problema significativo de integração entre os modais de transporte, como ciclovias e calçadas, e outros pontos de interesse da cidade. “O planejamento em Belo Horizonte muitas vezes acaba importando modelos de outras grandes cidades, como São Paulo e Rio de Janeiro, mas sem adaptar essas estruturas às particularidades locais, o que dificulta o uso de bicicletas, por exemplo”, explica Parreiras.
Nos campi da UFMG, particularmente nos da Pampulha e da Saúde, a infraestrutura interna possui limitações que restringem as opções de transporte ativo. Parreiras aponta que, no campus Saúde, o deslocamento a pé é predominante, já que o espaço é mais propício para caminhadas devido à circulação intensa de pedestres. “Embora o campus tenha potencial para outros meios de transporte, como bicicletas e até patinetes, ainda há uma barreira relacionada à segurança e à falta de valorização dessas alternativas”, comenta. Essa carência de infraestrutura específica para veículos leves, como ciclovias seguras e áreas para patinetes e skates, também limita a criação de um ambiente em que o transporte ativo e o bem-estar físico sejam prioridades.

#ParaTodosVerem: Foto da portaria do Campus Saúde da UFMG. Nela, tem um bicicletário com muitas bicicletas estacionadas e algumas pessoas caminhando. Tem uma van estacionada ao centro e algumas árvores.
Outro ponto importante, segundo Parreiras, é a necessidade de a universidade se aproximar da comunidade ao redor. Ele sugere que, além de atender às demandas dos alunos, a UFMG também poderia adaptar sua infraestrutura para estimular a participação de moradores locais em atividades físicas e recreativas, promovendo uma convivência mais rica e acessível.
“A universidade deveria contemplar a cultura e as demandas da sociedade ao seu redor, incluindo a comunidade local, que poderia fazer uso dos espaços para atividades além da bicicleta ou caminhada, criando uma identidade de bem-estar e segurança”, propõe Daniel Parreiras.
Para que os frequentadores possam se beneficiar de uma mobilidade mais completa, Parreiras sugere que a reitoria incentive o uso dos espaços por meio de eventos e campanhas que promovam a circulação pelo campus, unindo planejamento físico e social. Mapas, roteiros culturais e uma estrutura que permita o uso de veículos leves, como bicicletas e patinetes, poderiam ajudar a desenvolver a universidade como um espaço integrado.
Por que começar?
No Brasil, segundo dados do Ministério da Saúde, quase metade da população (49%) é considerada insuficientemente ativa, enquanto 15% são classificados como inativos, não realizando nenhum minuto sequer de atividade física na intensidade recomendada pela Organização Mundial de Saúde (OMS). A recomendação atual da OMS para adultos é de pelo menos 150 minutos semanais de atividades moderadas, o que, na prática, pode ser alcançado no dia a dia urbano: apenas 100 minutos de ciclismo ou 170 minutos de caminhada semanais já representam uma quantidade significativa para obter os benefícios para a saúde.
Assim como Arthur, Julia Colombo também é uma estudante que decidiu inserir a atividade física no seu dia a dia para o campus. Aluna da Escola de Engenharia da UFMG, ela destaca que hoje frequenta a academia e pratica handebol todas as semanas, mas quando entrou no curso iniciou sua rotina de bem-estar com as idas até o campus, “a caminhada foi extremamente importante para o meu condicionamento físico, no começo eu tinha dificuldade para subir morros no caminho e então não tive mais, percebi que realmente a prática estava me ajudando”, ressaltou.

#ParaTodosVerem: Foto do Campus Pampulha da UFMG. Nela há alguns estudantes caminhando, eles aparecem de costas. Também há vários carros estacionados e muitas árvores.
O pediatra e professor da Faculdade de Medicina da UFMG, Cássio Ibiapina, destacou, “como médico, meu conselho é sempre praticar. Estudos mostram que subir seis lances de escada por dia já é um exercício benéfico a sua saúde. A OMS recomenda que se caminhe ao menos 10.000 passos por dia, essa meta pode ser cumprida se a atividade física estiver na nossa rotina, é importante manter o corpo em movimento, caso não seja possível uma ginástica, natação ou academia, tente ir ao trabalho, faculdade sem meios automotivos”.
Ele que também usa sua ida ao campus como atividade física, conta que adotou o hábito de se locomover de bicicleta em 2013, quando realizou sua pós-graduação na Holanda. Morando a cinco quilômetros da faculdade, ele semanalmente tira dias para ir ao campus Saúde de bicicleta ou a pé. O professor conta que quando começou realizou um estudo do mapa de Belo Horizonte, traçando aspectos de segurança, conforto e praticidade para o trajeto de sua casa ao Campus e usa a si próprio como exemplo, “em um semestre, a alguns anos, torci o meu joelho, na época acabei ficando um tempo sem poder usar a bicicleta ou andar a pé, nesse semestre ganhei peso, dormi pior. Quando eu voltei se tornou claro a falta que a atividade física fazia no meu corpo”.
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