176 títulos – e contando: o fenômeno Diede de Groot

Por Vivian Martinho, estudante de jornalismo da UFMG

Da pequena Woerden ao topo do esporte mundial, Diede “de Great” transformou o tênis em cadeira de rodas e construiu uma das carreiras mais dominantes da história do esporte.

Existe uma cidade pequena na província de Utrecht, nos Países Baixos, chamada Woerden. Pouco mais de 50 mil habitantes, canais tranquilos, pastagens, o tipo de anonimato que a maioria das cidades europeias de pequeno porte carrega sem esforço. Por alguma razão que nem os próprios moradores conseguem explicar com satisfação, a região produziu uma concentração improvável de gênios do tênis em cadeira de rodas. Esther Vergeer nasceu lá em 1981. Jiske Griffioen também. E em 19 de dezembro de 1996, num hospital da cidade, nasceu Diede de Groot – que ao longo dos anos seguintes, alcançaria marcas que pouquíssimos tenistas em toda a história conseguiram. 

Quando alguém do circuito tenta explicar o fenômeno de Woerden, geralmente recorre ao acaso ou à coincidência, porque não há razão estrutural óbvia. Vergeer e Griffioen são da mesma cidade pequena, e de Groot cresceu em Oudewater, que fica a poucos quilômetros. O que esses lugares têm em comum com tantos títulos paralímpicos é uma pergunta que persiste sem resposta definitiva. 

Para tentar entender o que está por trás de tais campanhas vitoriosas, o jornalista Geoff Berkeley, da Inside the Games, visitou a Holanda antes dos Jogos Olímpicos de Paris de 2024. Em conversas com pessoas ligadas ao tênis holandês, como o ex-paratleta Robin Ammerlaan, medalhista nos Jogos Paralímpicos de Atenas 2002 e Pequim 2008, e Lalique Stoutjesdijk, gerente de eventos da Federação Neerlandesa, o repórter não encontrou uma resposta unânime. Para alguns dos entrevistados, um fator importante para o desenvolvimento de várias gerações de campeãs vem do tratamento do tênis em cadeira de rodas pela Federação Holandesa, sempre com o mesmo respeito dispensado ao tênis chamado de convencional. Outro ponto ressaltado é o próprio sucesso da pioneira Vergeer, que criou certa competição interna ao treinar com compatriotas.

Diede de Groot é mais um exemplo com raízes na pequena cidade holandesa. A tenista nasceu com fêmures de tamanhos diferentes, o que faz a perna direita ser mais curta em relação à esquerda e impede que o quadril esteja propriamente alinhado. Ao completar um ano , Diede ganhou sua primeira prótese, e não demorou para aprender a andar.

Ainda ao longo da infância, de Groot passou por várias cirurgias para tentar estabilizar o quadril. No entanto, como nenhum procedimento resolveu a condição, Diede teve de lidar com a notícia de que dependeria da prótese para sempre. Segundo a tenista, isso nunca foi motivo de um grande drama por parte da família, que gradualmente se adaptou à realidade. 

O tênis não foi a primeira escolha da atleta. Antes, ela queria nadar – e de maneira competitiva. No início da infância, ela tirou todos os diplomas de natação disponíveis para a faixa etária, e foi só depois, aos sete anos, quando visitou um centro de reabilitação durante a recuperação de uma das cirurgias no quadril, que alguém sugeriu que ela tentasse o tênis. 

Já que não precisava da cadeira de rodas para se locomover no dia a dia, de Groot teria a possibilidade de competir no tênis “convencional” e teve o poder de escolha com relação a isso. Convencida pelo centro de reabilitação De Hoogstraat, sentou-se na cadeira pela primeira vez para experimentar a tal tecnologia assistiva.

Foto: Divulgação/Nike

“Ter a sensação de que eu podia jogar tênis igual a todas as outras crianças do grupo foi muito especial”, contou em entrevista à CNN.

Mesmo sem ter tido contato com a modalidade desde a primeira infância – como é o caso de muitos dos maiores esportistas da atualidade –, de Groot teve um desenvolvimento muito mais acelerado que o esperado. Aos 12 anos, foi convocada para a seleção júnior holandesa pela primeira vez – período em que já treinava com as adultas em competições nacionais. 

De Groot é campeã desde o início da carreira, com ao menos um título em todas as temporadas nas quais fez parte do circuito. 

Os primeiros títulos de Diede

A estreia em torneios da Federação Internacional de Tênis (ITF) ŧ foi em um Series 1 na cidade de Utrecht, disputado em agosto de 2009, quando Diede tinha apenas 13 anos. Naquela temporada, a tenista conquistou o título da chave secundária, com uma campanha que incluiu viradas e até um pneu. Na chave principal, de Groot ganhou nas duplas.

No ano seguinte, Diede voltou a Utrecht para jogar o Foundation Junior Camp da Europa, onde conquistou mais um título, desta vezsem perder sets e tendo perdido apenas nove dos 45 games disputados ao longo de todo o Junior Series. 

Em 2011, Diede também ajudou a equipe neerlandesa na Copa do Mundo, na África do Sul. Apesar de o torneio ser considerado para meninos, os oito países participantes inscrevem meninas para jogar a Fase de Grupos. Diede venceu todos os jogos: dois de duplas mistas e um de simples – aos 14 anos, contra um menino de 16.

Naquele mesmo ano, de Groot conquistou mais um título: o ITF Junior Camp de Mechelen, na Bélgica, mais uma vez sem perder sets – além de ter cedido apenas seis games ao longo de todo o campeonato, com duplo 6-0 na final.

A partir daquele momento, poucos conseguiriam parar Diede de Groot. 

No Future Series de 2012, na Bélgica, Diede venceu a chave principal da categoria juvenil do torneio. Com apenas 15 anos, ela também ganhou a categoria adulta do campeonato – mais uma vez, sem perder sets em nenhuma das chaves. 

Foto: Facebook/Diede de Groot

Em 2012, aos 16, Diede já fazia parte do ranking adulto de duplas de tênis de cadeira de rodas da ITF e terminou o ano em 82º lugar. Já era óbvio para quem quisesse – e talvez até para quem não quisesse – ver: Diede de Groot parecia imparável.

Em 2015, ao terminar o ensino médio no sistema HAVO – um ensino de cinco anos, dos 12 aos 17 –, ela virou tenista profissional em tempo integral. Com isso, passou a combinar treinos com Amanda Hopmans em Alphen aan de Rijn, uma parceria que viria a durar dez anos, e com sessões conduzidas pelo técnico Dennis Sporrel, da KNLTB (Associação Real Neerlandesa de Tênis), em Amstelveen.

Até ali, Diede já acumulava 33 títulos – 20 em simples e 13 em duplas – além de finalizar 2015 como a 9ª melhor tenista do ranking de simples e 16ª do de duplas. 

O primeiro objetivo sempre foi conseguir a vaga para os Jogos Paralímpicos do Rio, em 2016.

A classificação veio pelo ranking, e, com 19 anos, ela chegou às semifinais de simples, mas perdeu a chance de disputar o ouro após uma derrota para a conterrânea Jiske Griffioen no tiebreak do terceiro set. Nas duplas, perdeu o primeiro lugar também para Griffioen, que jogava ao lado de Aniek Van Koot – que viria a ser uma das principais parceiras de de Groot ao longo da carreira. 

 O desempenho poderia ter soado como um começo excelente e confortante, um sinal de que estaria no caminho certo e que a única coisa que lhe faltava era a experiência. Entretanto, para de Groot, aquilo serviu como a faísca que restava para acender o que seria o começo de um tanque de combustível aparentemente infinito. 

Foi então que surgiu o apelido “Diede de Great” (Diede, a Grande). Segundo a própria tenista, a escolha de usar o apelido como nome de usuário na rede social X – na época Twitter – se deu principalmente por “DiededeGroot” já ser registrado por outra pessoa. Ela, então, aproveitou a tradução literal do sobrenome, que significa “grande” em neerlandês, e diz se sentir orgulhosa dos feitos que alcançou na carreira. 

Foto: Reprodução/Comitê Paralímpico Internacional

Apesar da frustração nos Jogos Paralímpicos de 2016, o ano da neerlandesa terminou com números impressionantes. No ranking, de Groot chegou à 6ª posição em simples e à 5ª em duplas, além de acumular quatro títulos individuais e sete outros com seis parceiras diferentes. 

O início de uma carreira vitoriosa em Grand Slams

Já no ano seguinte, em 2017, de Groot disputou o primeiro Grand Slam em simples, no Australian Open. Na ocasião, com recém-completados 20 anos, perdeu na estreia, nas quartas de final. O resultado se repetiu em Roland Garros, desta vez em três sets. Nas duplas, a tenista chegou à final na Austrália ao lado de Yui Kamiji – tenista que venceu de Groot na disputa pelo bronze no Rio 2016 –, mas foi eliminada na semi em Paris pela própria Kamiji, que jogava ao lado de Marjolein Buis, a mesma tenista que eliminou de Groot na chave de simples. 

E então veio Wimbledon, com toda a carga histórica e protocolar que o mais tradicional dos Grand Slams, o All England Club, carrega. Mesmo que de certa forma acidental, de Groot honrou sua versão junior e, na grama sagrada de Londres, levou o título sem perder set algum ao longo de toda a competição – em cima de Sabine Ellerbrock, que havia eliminado a neerlandesa na primeira rodada do Australian Open naquele mesmo ano. 

Foto: Facebook/Diede de Groot

O ano de 2017 para de Groot terminou não apenas com a 2ª colocação em ambos os rankings da ITF, mas também com o primeiro título de Grand Slam nas duplas, no US Open, ao lado de Marjolein Buis, e com o inédito Master Series. 

Naquele momento, Diede mal sabia que aquela seria a última vez que terminaria um ano sem o número 1 do ranking – marca que manteria nos sete anos seguintes em simples e em cinco nas duplas.

Na crescente carreira, de Groot teve um 2018 quase perfeito: venceu o Australian Open, Wimbledon e o US Open em simples, chegou à final em Roland Garros e conquistou o Masters. Nas duplas, também ganhou Roland Garros, Wimbledon e US Open, além de ter sido nomeada a campeã mundial da categoria pela ITF – a primeira de seis vezes consecutivas, com exceção de 2020, que não contou com a premiação por conta da pandemia de Covid-19. 

Em 2019, ganhou Australian Open e Roland Garros em simples – completando com esse título francês o que no tênis se chama de Career Grand Slam, os quatro Grand Slams ao longo da carreira. Ela foi a primeira jogadora de tênis em cadeira de rodas a alcançar esse ciclo consecutivamente ao vencer os quatro torneios em sequência, ainda que em anos diferentes. Nas duplas, o feito se repetiu não só com o título do Australian Open no começo do ano, mas com a conquista de todos os outros Grand Slams naquela temporada.

Seria possível parar por aqui e já ter material para uma carreira inteira. Com apenas 23 anos, Diede já tinha 87 títulos, 58 nas categorias principais da ITF (Series 1, 2 e 3, Super e Masters) e 15 Grand Slams – além dos 14 títulos de Junior e Future –, mas o que viria a partir de 2020 tornaria tudo isso uma espécie de preâmbulo.

Com a pandemia, o circuito foi interrompido temporariamente – o que não impediu que de Groot terminasse o ano com títulos: venceu o US Open na chave de simples e, nas duplas, conquistou Roland Garros.

Domínio sem precedentes 

Em fevereiro de 2021, de Groot perdeu para Yui Kamiji no Series 3 de Melbourne. Uma derrota num torneio de circuito, no campeonato preparatório para o Australian Open, o tipo de coisa que acontece em qualquer carreira, independentemente do nível do tenista. Ninguém prestou atenção particular – talvez nem mesmo Diede e sua equipe. 

Mas ninguém esperava que seria a última derrota dela em mais de três anos.

A sequência de vitórias que Diede conquistou a partir daquele momento é facilmente um dos únicos fenômenos passíveis de atravessar qualquer tentativa de contextualização racional dentro do mundo do tênis. Ela ganhou o Australian Open de 2021 numa maratona de duas horas e vinte minutos contra Kamiji – 6/3, 6(4)/7 e 7/6(4). Ganhou Roland Garros eWimbledon, e só depois viajou para Tóquio, onde os Jogos Paralímpicos ocorriam sem público, num silêncio exagerado até para o mais exigente dos tenistas. 

Foto: ANP/Jogos Paralímpicos de Tóquio 2020 

No dia 3 de setembro de 2021, ela enfrentou Kamiji na final do simples, uma revanche da medalha de bronze do Rio 2016. Dessa vez, venceu por 6/3 e 7/6(4) – ainda a tempo de voltar para Nova York e levar o US Open.

Diede de Groot, depois de vencer Kamiji mais uma vez nos Estados Unidos em 12 de setembro – apenas um dia depois de vencer o mesmo título nas duplas –, conquistou o último pedaço que faltava para se igualar a Steffi Graf e conquistar apenas o segundo Golden Slam da história do tênis olímpico até então. Graf havia feito isso em 1988, no mesmo ano em que o tênis em cadeira de rodas havia conquistado sua própria federação, a IWTF.

Mas, para uma personalidade como Diede, que ainda estava no primeiro ano de invencibilidade, aquilo não estava perto de ser o suficiente. 

No mesmo ano, conquistou ainda o título do Wheelchair Tennis Masters e se tornou a primeira tenista de qualquer modalidade – cadeira de rodas, homens, mulheres, juvenis, qualquer disciplina que você possa cogitar – a conquistar o que passou a ser chamado de Super Slam. 

Os quatro Grand Slams, o ouro paralímpico e o Masters, tudo no mesmo ano, com apenas 24 anos. 

Quando foi perguntada sobre o que mais estava esperando ao final do US Open 2021, depois de completar a sequência, ela respondeu com o cansaço visível de quem passou meses em modo de batalha: “Não fazer absolutamente nada. Foi uma viagem muito dura, também por causa da pressão que senti, sendo a número um e prestes a conquistar o Golden Slam. Mas não deixei que a pressão me afetasse”, disse. “Logo após o último ponto, me senti aliviada, e um pouco depois veio a alegria. Eu queria tanto isso. Estou ansiosa para aproveitar um pouco mais o resto da temporada e jogar com um pouco menos de pressão.” 

Um ano depois de conquistar o Super Slam, Diede pontuou novamente a pressão pelos resultados: “Tudo estava indo bem, mas havia uma enorme pressão por causa do fato de que [todos achavam que] eu era a pessoa que iria conseguir, mas eu não sabia se seria capaz de fazer isso”

Kamiji, do outro lado da rede em três das quatro finais daquele ano e também na final de Tóquio, teve a grandeza de reconhecer que havia sido derrotada: “Você é uma jogadora tão boa. Uma adversária realmente muito difícil”.

O que torna esse tipo de dominância ainda mais difícil de compreender é que o circuito de tênis em cadeira de rodas não é um ambiente de adversárias fracas. Kamiji é, por si só, uma das grandes jogadoras da história da modalidade. Aniek van Koot ganhou Grands Slams e medalhas paralímpicas. Kgothatso Montjane, da África do Sul, é uma finalista recorrente de altíssimo nível.

Como explicar de Groot? 

O fato de de Groot ter passado por todas elas durante anos, repetidamente, numa sequência que chegou a 145 partidas consecutivas sem derrota, aponta para algo que vai além do talento puro.

Parte dessa resposta pode ser encontrada no sistema em que Diede cresceu. Os Países Baixos têm uma das poucas federações que realmente abraçam o tênis em cadeiras de roda e integram a modalidade desde as categorias de base, no mesmo espaço nos centros de treinamento: “Somos totalmente integrados ao programa da Associação Real Neerlandesa de Tênis (KNLTB).Ter a sensação de que eu podia jogar igual às outras crianças – isso foi muito especial”, pontuou de Groot. 

Essa integração significa que, desde criança, ela treinou ao lado de tenistas sem deficiência, em um ambiente de exigência técnica e física diferente de uma bolha exclusivamente paralímpica. Tanto ela quanto Vergeer citam isso como central para o desenvolvimento.

Foto: Facebook/Diede de Groot

Outra parte da resposta está na mentalidade. Quem acompanhou a carreira da atleta de perto durante o período de domínio absoluto descreve uma jogadora que não parece carregar o peso dos outros títulos, ou a própria grandeza para o esporte, em cada partida.

“Eu tento esquecer tudo isso e simplesmente jogar tênis”, ela disse à CNN antes de Roland Garros 2024, quando a sequência de vitórias a seguia por toda parte. “Elas não jogam com pressão nenhuma quando me enfrentam. Eu tenho toda a pressão, porque existe essa sequência enorme me seguindo em todo lugar.”

Para Billie Jean King, uma das grandes tenistas da história, a pressão é um privilégio – e de Groot citou essa frase numa entrevista antes dos Jogos de Paris: “Acho verdade. Qualquer pessoa gostaria de ser a favorita. É positivo, mas também traz muita tensão e às vezes ansiedade, porque você sabe que tem um alvo muito grande nas costas. Você sabe que todo mundo está olhando para você.”

Em 2022, ela disputou a temporada inteira em simples sem perder uma única partida – foram 38 vitórias consecutivas, com a conquista dos quatro Grand Slams pelo segundo ano consecutivo, algo que não havia sido feito por ninguém em nenhuma modalidade de tênis. Na final do US Open daquele ano, de Groot virou o jogo contra Kamiji depois de perder o primeiro set (3/6, 6/1 e 6/1), para tornar-se a primeira jogadora de qualquer disciplina do tênis a vencer cinco títulos consecutivos em Flushing Meadows.

Em 2023, venceu os quatro Grand Slams de novo. No início de Roland Garros, na primeira rodada contra a francesa Emmanuelle Mörch, a vitória de de Groot foi a centésima consecutiva em simples. Cem partidas sem derrota. Na final daquele torneio, ela – mais uma vez – derrotou Kamiji, dessa vez por 6/2 e 6/0, e conquistou o décimo Grand Slam seguido. Com o título, de Groot completou o quadruple Career Grand Slam: foram quatro vezes cada um dos quatro Grands Slams em simples – mais uma marca que ninguém havia alcançado. 

No início de 2024, Diede recebeu o chamado “Oscar do esporte”, o Troféu Laureus, que reconhece os melhores atletas, equipes e performances do mundo. De Groot recebeu o prêmio na categoria Atleta com Deficiência do Ano. Por seu país, ela já havia conquistado diversas honras, como Mulher Paraesportista do Ano nos anos de 2022 e 2023. ‘

Foto: Reprodução/Yellow Break

Em Roland Garros 2024, veio o quintuple. A final contra a chinesa Zhu Zhenzhen foi a mais difícil dos anos recentes: ela perdeu o primeiro set por 4 a 6, virou no segundo por 6 a 2 e fechou no terceiro por 6 a 3. Era o 14º Grand Slam consecutivo, o 22º da carreira de simples, e a marca que ela havia perseguido sem nunca reconhecer publicamente: ultrapassar os 21 títulos em simples de Esther Vergeer, a maior referência histórica do tênis feminino em cadeira de rodas.

“É claro que estou muito orgulhosa de ter esse recorde agora”, disse ela depois da partida. “Mas ao mesmo tempo, eu conheço as condições em que Esther jogou.”

Três semanas depois, em Wimbledon, ela ganhou o 15º Grand Slam consecutivo, ao derrotar van Koot na final por duplo 6/4.

A inspiração na compatriota Vergeer

De Groot cresceu assistindo a Esther Vergeer jogar. Quando criança em Oudewater, a alguns quilômetros de Woerden, onde Esther nasceu, ela acompanhava cada torneio: “Desde que eu era muito pequena, acompanhei cada passo dela”, disse em 2023, quando Vergeer estava sendo introduzida ao Tennis Hall of Fame. “Tantas pessoas, incluindo eu, viram ela fazer todas as coisas com as quais só sonhávamos. Ela foi uma grande influência.”

Vergeer foi, por mais de uma década, a figura mais dominante já vista em qualquer modalidade de tênis. De 2003 até a aposentadoria em 2013, ela não perdeu um único jogo em simples – 470 partidas consecutivas, dez anos de invencibilidade absoluta. Nesse meio tempo, ganhou sete ouros paralímpicos e terminou a carreira com 43 títulos de Grand Slam entre simples e duplas. 

Ao se aposentar, a pergunta nunca foi relacionada a quando alguém conseguiria igualar as marcas de Vergeer, mas se. A carreira de Esther Vergeer é, sem dúvidas, uma das mais vitoriosas da história do esporte, e pouco se esperava que alguém, cerca de uma década depois, pudesse chegar perto. 

Vergeer, por sua vez, usou palavras que soam como a maior espécie de honra que um campeão pode receber de outro: “Se eu posso ser um modelo para jogadoras da próxima geração, é um grande elogio. Eu gostaria de ter tido isso quando comecei a jogar”. E reconheceu que de Groot talvez seja agora o que ela própria foi: “Talvez as iniciantes hoje olhem para jogadoras como de Groot da mesma forma que eu inspirei outras.”

Foto: Esther Vergeer Foundation

Em Wimbledon 2023, antes de ganhar o 11º Grand Slam consecutivo, de Groot falou com admiração genuína sobre a compatriota: “Estar na posição em que estou agora – com uma sequência muito longa, mas ainda longe de estar próxima da sequência dela –, meu respeito só cresce. Que ela tenha sido capaz de dez anos seguidos de domínio absoluto é, para mim, um pouco louco de imaginar.”

Mas havia, sob toda aquela dominância, algo que de Groot não tinha comunicado publicamente com clareza:

“Notei, alguns meses antes dos Jogos Paralímpicos, que tinha perdido muito da minha alegria ou dos meus objetivos muito precisos. Perdi a visão do conjunto”, comentou em uma entrevista à ITF em julho de 2025. Na mesma entrevista, ela descreveu o período anterior a Paris 2024: “Antes eu simplesmente ia, ia, ia. Não havia pausa para olhar para trás e aproveitar. Se eu jogava muito bem em Roland Garros, por exemplo, não tinha tempo de aproveitar porque vinha Wimbledon. Depois, o verão, e eu precisava treinar, treinar, treinar.”

Em uma das publicações em seu site pessoal, que reúne textos escritos em primeira pessoa num grau de abertura incomum para atletas de elite, ela foi mais direta sobre o período que antecedeu Paris: “Na preparação para os Jogos Paralímpicos em Paris, enfrentei meu teste mais duro até agora. Física e mentalmente, tive que encarar a realidade: algo precisava mudar.”

Em Paris, ela perdeu de virada nos dois jogos. A final em simples contra Kamiji terminou com a conquista do ouro pela japonesa, no terceiro encontro das duas em Jogos Olímpicos. Em duplas, também veio a derrota para a dupla japonesa Kamiji e Tanaka. Dois pódios de prata quando havia esperado defender dois ouros, e, mesmo assim, de Groot esteve ao lado do ciclista Tristan Bangma como porta-bandeiras da delegação holandesa na cerimônia de encerramento dos Jogos, uma honra que dividiu com a amargura das derrotas. 

Semanas depois, ela foi submetida a uma cirurgia no quadril – o mesmo local que havia demandado intervenções desde a infância, e que ela havia escolhido ignorar durante meses. Em uma publicação, admitiu: “Por um ano antes dos Jogos Paralímpicos, pensei: consigo aguentar a dor por mais um ano. Vou dar tudo pelo ouro, e depois terei tempo para cuidar do meu corpo.”

A cirurgia a afastou do circuito por meses pela primeira vez desde a adolescência – no período, aproveitou para tomar decisões que teriam parecido improváveis poucos anos antes. Durante a recuperação, Diede surfou e praticou snowboarding, além de fazer trabalho voluntário – coisas que a fizeram perceber que “existe mais na vida do que apenas o tênis.” 

Nesse período, ela também trocou de técnica: depois de dez anos com Amanda Hopmans, passou a ser treinada exclusivamente por Dennis Sporrel. O retorno ao circuito começou no World Team Cup de maio de 2025, na Turquia. Em Roland Garros 2025, no volta aos Grand Slams após a cirurgia, ela foi eliminada na primeira rodada pela chinesa Li Xiaohui – justamente a tenista que havia encerrado a sequência de 145 vitórias, no World Team Cup de 2024. Era a primeira derrota em um Grand Slam desde Roland Garros de 2020 – e foram 52 jogos em Grand Slams vencidos consecutivamente depois dessa marca.

Em julho de 2025, em Wimbledon – sexto torneio desde o retorno –, ela venceu aprimeira partida em Grand Slams depois da cirurgia, contra Lucy Shuker por duplo 6/1, para defender o título do ano anterior. Entretanto, Xiaohui voltou a ser a pedra no sapato da neerlandesa e venceu por 7/6(6) e 6/4 nas quartas de final.

“Foi realmente especial estar de volta, embora definitivamente tenha sentido nervosismo extra”, disse, depois da partida.

A final naquele Wimbledon foi para Yui Kamiji, que havia assumido a liderança no circuito na ausência de de Groot.

Era claro para todos que a narrativa de domínio absoluto havia chegado ao fim – mas isso não significava de forma alguma que De Goot deixaria de ser a tenista que é. Nos meses seguintes, ainda em 2025, retornou às finais de Grand Slam. No US Open, conseguiu alcançar a decisão após derrotar a forte dupla formada por Yui Kamiji e Kgothatso Montjane na semifinal por duplo 7/5, mas foi derrotada na final para as chinesas de Xiaohui Li e Ziying Wang.

Mesmo no retorno de uma grande cirurgia, de Groot venceu cinco torneios na chave de simples e dois na de duplas naquele ano. 

Com o retorno integral em 2026, de Diede trilhou uma campanha promissora no Australian Open– antes de encontrar, mais uma vez, Xiaohui Li, que a venceu na grande final. Nas duplas, com Aniek Van Koot, foi eliminada por Yui Kamiji Zhenzhen Zhu nas semifinais. 

Em Roland Garros 2026, de Groot retornou à final. E, em defesa ao legado que construiu, conquistou o título com apenas um game perdido na final.

A vitória foi sobre a francesa Ksenia Chasteau, que disputava uma final dessa magnitude pela primeira vez, por 6/1 e 6/0. Com o triunfo, de Groot alcançou o 24º título de Grand Slam em simples da carreira – o primeiro em quase dois anos, desde Wimbledon 2024. 

“Acho que minha mente foi até o pensamento: o que estou tentando provar? O que estou tentando acrescentar à minha carreira? Porque ela já foi tão boa. Como posso superar isso? Ou como posso talvez sentir que estou acrescentando em vez de simplesmente desmoronando. Foi um pouco assim que me senti no último ano”, contou, após receber o troféu. A vitória de Roland Garros 2026 foi descrita, por ela mesma, como uma espécie de terapia.

Paralelamente à carreira, de Groot criou a Diede de Groot Academy – um projeto para jovens jogadores de tênis em cadeira de rodas ao redor do mundo, voltado tanto para o desenvolvimento atlético, quanto pessoal. Ela também atua como embaixadora da Fundação Esther Vergeer, do Fundo Esportivo para Pessoas com Deficiência e da KNLTB. 

A academia é a forma que ela encontrou de traduzir em ação aquilo que aprendeu com gerações anteriores – Vergeer, Griffioen, van Koot – e que recebeu sem ter pedido, por ter nascido no lugar certo, na hora certa e ter escolhido a cadeira de rodas aos sete anos.

Apesar de não compartilhar muito da vida pessoal nas redes, Diede de Groot é uma das poucas tenistas abertamente lésbicas do circuito. Ela  integrou o “Team LGBTQ” – o quadro de medalhas paralímpicas que tem como objetivo divulgar os atletas que fazem parte da comunidade LGBTQIA+, criado pela OutSpots. 

Foto: Reprodução/Diede de Groot

Na tarde em que venceu Chasteau em Roland Garros 2026 e levantou o troféu pela quinta vez na Philippe Chatrier, Diede de Groot tinha 29 anos, um quadril operado havia menos de dois anos, um novo treinador e 24 títulos de Grand Slam em simples. 

Nas mesmas condições, de Groot chegou a Wimbledon, após ter ganhadoo WC500 de Eastbourne. Foi vice-campeã na grama sagrada de Londres e agora passa a se preparar para o retorno da gira de quadras duras na América do Norte. 

O circuito de tênis em cadeira de rodas agora conta com jogadoras jovens que cresceram assistindo a de Groot dominar, da mesma maneira que Diede cresceu acompanhando Vergeer. Li Xiaohui tem 28 anos e Kamiji, que vinha do ouro Paralímpico em Paris, conquistou o Career Golden Slam ao vencer de Groot na final de Wimbledon 2026. O nível, que de Groot ajudou a elevar durante anos, está mais alto do que quando ela começou – o que, inevitavelmente, complica o caminho da neerlandesa até o topo invicto – e ela claramente sabe disso, provavelmente até melhor do que qualquer pessoa de fora consegue mensurar. 

A incógnita de de Groot nunca mais vai ser sobre o nível de tênis que ela pode jogar, ou sobre a grandeza e a honra que carrega consigo, mas ela não é mais a mesma atleta que ganhou 15 Grand Slams seguidos sem parar para respirar. 

Se é uma versão melhor ou pior, depende do que se entende por melhor – e essa é uma resposta que só o tempo, e que talvez apenas US e Australian Open, Roland Garros e Los Angeles possam dar daqui para frente.

Foto: Reprodução/Instagram (@diededegroot) 

Expediente

Redação: Vivian Martinho

Edição: João Vitor Marques e Rafaela Souza

Coordenação: Ana Carolina Vimieiro

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