Por Nicolas Arruda, estudante de jornalismo da UFMG
Atleta do Itabirito deixa frustrações no passado, assume novas funções no campo e usa os chutes de longa distância como maior trunfo.
“É papo de gol Puskás. É papo de anotar esse gol em uma placa. É papo de tirar uma foto e deixar enquadrado na sua sala”. Com essas palavras, o narrador da Federação Mineira de Futebol (FMF) se empolgou com o terceiro do Itabirito na vitória por 3 a 0 contra a União Desportiva Alagoana, pelo Brasileirão A2, na Arena Usina Esperança, em Itabirito, no dia 20 de maio deste ano. O golaço de falta saiu dos pés de Bruna Victória, meio-campista do Itabirito. “Foi uma felicidade que eu precisava. Eu precisava de um gol de falta”, relembra a jogadora ao destacar o momento mais memorável no clube mineiro.
A atleta de 22 anos é capixaba, nascida no dia 21 de maio de 2004, em Vitória, e é uma das peças mais importantes do Itabirito na temporada. A jogadora tem se destacado no meio campo da equipe ao lado de Laura De La Torre e Luana Rodrigues e pelas batidas de falta. “A bola sempre dá uma curvadinha e surpreende a goleira”, explica Bruna ao revelar que, nos treinos e nos jogos, gosta de chutar com muita força e sempre reto na direção do gol.
O aprimoramento nas cobranças de falta é um reflexo de uma rotina regrada de cuidados com o corpo e a mente. “Sempre penso lá na frente, em questão dos meus sonhos e do que eu quero. Eu me descreveria como focada sempre nos meus objetivos, em busca do melhor. Sempre busco alcançar novos objetivos”.
Início tardio e hiato
Bruna conta que iniciou a carreira, como a maior parte das jogadoras, nas ruas em brincadeiras com os meninos. Foi só aos 15 anos de idade, de forma tardia na visão da meio-campista, que ela começou a jogar pelo Vila Nova, do Espírito Santo. Como o clube capixaba não tinha equipes de base femininas, a garota atuava com as profissionais do Brasileirão A2. Ela conta que a experiência foi importante para o início de carreira, mas atrapalhou o desenvolvimento por não ter podido atuar com outras meninas da mesma idade e nem a jogar com constância.
Após a passagem de dez meses pelo Vila Nova, Bruna teve finalmente a oportunidade de jogar contra meninas da mesma idade, nas categorias de base do Minas Brasília. Na equipe brasiliense, a meia chegou a atuar por mais de um ano pelo sub-17 e em alguns jogos do sub-20, pelo qual conseguiu o acesso ao Brasileirão A3. No ano seguinte, em 2023, a jogadora foi integrada ao elenco profissional, mas não conseguiu se firmar e deixou o clube.
Após a passagem pelo Minas, Bruna conta que voltou para o Espírito Santo e se afastou dos gramados por um tempo, para cuidar da saúde mental. Esse hiato fez a atleta criar hábitos que leva consigo até hoje. Quando retornou ao futebol, teve a oportunidade que mudou o rumo da sua vida: a de jogar no Prosperidade (ES).


Muita história e gols
Bruna ficou no clube capixaba por três temporadas. Na primeira, em 2023, foi vice-campeã estadual pela equipe. No ano seguinte, o Prosperidade conseguiu conquistar o título do Capixabão e garantiu uma vaga inédita no Brasileirão A3. Bruna conseguiu encantar os torcedores do clube com as batidas de falta e os chutes de longe. “Uma história muito linda”, contou a atleta. Após a temporada regular, Bruna defendeu as cores do Valadares no Campeonato Mineiro. Por lá, conseguiu marcar apenas um gol, contra o Atlético Mineiro, em uma goleada sofrida por 7 a 1.


Em 2025, Bruna voltou ao Prosperidade e se frustrou com a queda precoce na primeira fase do Brasileirão A3. Porém, brilhou novamente no Estadual, com 23 gols (foi a artilheira da competição) e o bicampeonato. A boa fase e a artilharia não se limitaram ao Espírito Santo. Em Minas Gerais, novamente pelo Valadares, marcou cinco gols no Mineiro – quatro em uma mesma partida contra o Araguari. As boas atuações chamaram a atenção do Itabirito, que a contratou antes de o campeonato acabar – movimento que permitiu que ela jogasse as semifinais contra o Cruzeiro.
Passos para trás no campo e à frente na carreira
Na chegada ao Itabirito, sob o comando do técnico Hoffman Túlio, Bruna teve uma virada de chave na carreira: a jogadora que sempre atuou como meia-atacante teve que dar alguns passos para trás no campo para virar uma segunda volante. “Amo dar passe. Amo chutar para o gol. Amo estar com a bola. Amo estar de frente para o gol. Toda essa liberdade me dá mais disposição para jogar” comenta.
Os bons resultados do Itabirito no decorrer da temporada são frutos dos treinamentos orquestrados por Hoffman, que já surtiram efeito desde as primeiras sessões. “Na primeira semana do treino parecia que a gente jogava junto há muito tempo e eu fiquei ‘caramba, nunca tive isso em nenhum time’” conta.
O estilo de jogo do treinador, de manter a posse de bola e pressionar as adversárias, aliado às ótimas atuações individuais das jogadoras, levaram o Itabirito à segunda fase do Brasileirão A2 e a conseguir uma vaga inédita nas oitavas de final da Copa do Brasil. Bruna tem se destacado e soma nove gols na temporada – sete no Brasileiro e dois golaços no torneio mata-mata diante de Realidade Jovem e Ceará.
“Eu fico feliz demais por estar ajudando meu time de alguma forma dentro de campo fazendo ou não fazendo gol. jogando de volante, estou conseguindo achar alguns gols e estou feliz demais”, comemora.


Foco no futuro
Na Copa do Brasil, o Itabirito perdeu para o Bahia por 1 a 0 e foi eliminado. Já no Brasileirão A2, Bruna espera realizar o sonho do acesso para finalmente jogar no alto escalão brasileiro contra atletas que a inspiram, como a atacante palmeirense Bia Zaneratto. “Eu sempre falo para o meu treinador que quero chegar à A1 e pegar tipo o Corinthians, para saber em que nível que eu estou… Eu sempre tenho esse desejo de pegar o Corinthians, Palmeiras e São Paulo, que são times que estão em cima na tabela e eu sei que se a gente conseguir esse acesso, nós vamos ter essa oportunidade e vai ser muito importante para mim e para a minha carreira”, conta a jogadora.
Com o fruto de muito trabalho e esforço, o sonho de jogar na elite do futebol brasileiro e se destacar como uma das meio-campistas mais talentosas do Brasil parece estar cada vez mais próximo.
Expediente
Redação: Nicolas Arruda
Edição: João Vitor Marques e Rafaela Souza
Coordenação: Ana Carolina Vimieiro