
Por Francyelle Messias, estudante de jornalismo da UFMG
A Confederação Brasileira de Vôlei (CBV) anunciou no dia 14 de agosto que vai aderir à política do Comitê Olímpico Internacional (COI) sobre a elegibilidade de atletas na categoria feminina. Desse modo, todas as atletas devem apresentar teste genético negativo para o gene SRY (Sex-determining Region Y), responsável pelo desenvolvimento masculino no corpo humano. A medida já estará em vigor na temporada 26/27 da superliga A e B, Supercopa 2026, Copa do Brasil 2027, Circuito Brasileiro de Vôlei de Praia 2027 e CBVP Challenger.
Com a implementação desta nova diretriz, a atuação da atleta Tiffany do Osasco vira dúvida para a continuidade da temporada. A oposta do clube paulista é a primeira atleta transgênero a disputar competições de elite no vôlei nacional. Ela estreou na superliga feminina em 2017 pelo Sesi Bauru e desde 2021 defende o Osasco.
Nesta temporada o Osasco fez sua estreia no campeonato paulista no dia 15 de agosto, um dia após a CBV anunciar a nova regra. A atleta participou normalmente da partida, pois o campeonato começou dia 13, antes da decisão da CBV e as regras da competição são as que já estavam vigentes. Durante o jogo a jogadora recebeu muito apoio da torcida e das companheiras de time, em vários momentos da partida os torcedores gritaram seu nome.
Depois do jogo, Tiffany falou com a imprensa e deixou claro todo seu descontentamento: “O voleibol é minha vida, meu trabalho. A CBV está tirando de mim tudo o que eu tenho, que é o amor pelo voleibol e a profissão que venho exercendo todos esses anos. É um enorme retrocesso na luta pelo reconhecimento e inclusão de todas as pessoas no esporte. Voltamos para uma forma vexatória, como se testavam as atletas nos anos 60 e 70. Estamos em 2026. Não podemos ter esse retrocesso jamais. Não vou me calar. E vou tomar todas as medidas possíveis para que minha luta pelo direito, visibilidade, inclusão e prática do esporte não tenham sido em vão”.
Para o antropólogo e pesquisador Wagner Camargo, a decisão da CBV tem um impacto negativo do ponto de vista social: “Tudo que é decidido no âmbito do esporte ou reflete a sociedade ou de de certa forma está em sintonia com ela. É uma relação de causa e efeito, e é muito prejudicial, muito deletério para a sociedade. Isso reforça ainda mais que esses corpos não são bem-vindos nos lugares esportivos e também não são na sociedade, porque esses corpos eles apresentam visivelmente uma outra possibilidade que não o binarismo feminino e masculino”.
Nas redes sociais, o Osasco publicou uma nota reforçando seu apoio a Tiffany e relatou que o departamento jurídico do clube está avaliando a nova regra. Alguns atletas manifestaram publicamente seu apoio à jogadora, como Gabi Guimarães, Rosamaria e Douglas Souza, além da ex-jogadora Sheilla Castro.
Expediente
Redação: Francyelle Messias
Edição: Rafaela Souza
Coordenação: Ana Carolina Vimieiro