Estudante de educação física, vegetariana e com apenas 1,66m, Marcelle Freitas foi destaque no acesso do Itabirito para a primeira divisão nacional

Por Nicolas Arruda, estudante de jornalismo da UFMG
Quando pensamos em goleiras, logo imaginamos as jogadoras mais altas em campo. As principais porteiras do futebol mundial, como Ann-Katrin Berger, Cata Coll e Hannah Hampton, têm mais de 1,70m – algumas, como Lorena, chegam a 1,84m. Por isso, uma arqueira com pouco mais de 1,60m é algo praticamente inimaginável. Mas não para Marcelle.
Paulistana nascida em 27 de dezembro de 2002, a arqueira de 24 anos é destaque do Itabirito, equipe que conseguiu a promoção para o Campeonato Brasileiro A1. Com apenas 1,66m, Marcelle sofreu apenas sete gols em 12 partidas da competição – em quatro, não foi vazada.
O acesso para a primeira divisão foi a segunda promoção seguida do Itabirito e da goleira, titular na campanha de 2025, que levou o time mineiro à Série A2. O destaque em anos consecutivos é fruto do encaixe do estilo de jogo do ex-treinador da equipe, Hoffman Túlio, e a técnica desenvolvida desde o início da carreira no Centro Olímpico.
Começo da carreira
Marcelle Freitas Joaquim iniciou a trajetória ainda na infância, quando, graças à insistência de um professor de educação física, foi colocada em uma escolinha. O pai dela, que inicialmente não gostava da ideia de a filha jogar futebol, resolveu testá-la em um ambiente competitivo, imaginando que a filha logo desistiria. Porém, ela persistiu e continuou treinando até que, aos 12 anos, entrou para as categorias de base do Centro Olímpico (SP).
Na equipe paulista, Marcelle conta que foi obrigada a amadurecer rapidamente e que isso moldou totalmente a forma de enxergar a vida e o futebol profissional:
“A Marcelle de 13 anos foi uma, Marcelle de 20 anos… O que construiu a minha personalidade foi no Centro Olímpico com o Thiago Viana (ex-treinador do clube e atual treinador do São Paulo). Eles (profissionais do clube) trouxeram essa característica minha de acreditar e trabalhar”.
As convocações para a Seleção Brasileira também a moldaram profissionalmente. A primeira veio em janeiro de 2018, quando, aos 15 anos, foi chamada para a equipe sub-17. Aos 18, já com a camisa do São Paulo, passou a ter oportunidades de representar o Brasil sub-20.

A passagem pelo Tricolor também foi importante para aprimorar o estilo de jogo e a parte técnica. Lá, passou a trabalhar com mais afinco a saída de bola, característica que a auxiliaria a se adaptar rapidamente ao esquema tático de Hoffman Túlio. “Desde o Centro Olímpico, eu participei de modelos de jogo em que os profissionais incentivavam a goleira a participar. No Centro Olímpico, com o Thiago Viana, no São Paulo, com o Lucas Piccinato e com o Viana”, relembra.
Mudança para Minas Gerais

Após sete anos no São Paulo, em 2023, Marcelle mudou de clube e de estado. A goleira se mudou para Minas Gerais em busca de um novo time e, inicialmente, encontrou dificuldade em ser contratada por conta da estatura:
“As pessoas sempre pautavam a questão da altura e eu ficava: ‘Cara, deixa eu ir aí. Me contrata, vê se eu sou boa e ou não e, se não gostar, me manda embora’. Dá para ajustar essas questões que dão desvantagem para as jogadoras baixas, mas é muito mais confortável você descartar do que construir uma pessoa que não segue os moldes padrões”, rememora a guarda-redes.
Apesar da desconfiança inicial, uma indicação do treinador de goleiras Ricardo Xavier a levou ao Atlético Mineiro, clube que defendeu até o fim da temporada 2024. Os dois anos nas Vingadoras foram conturbados por problemas extracampo. Na época, o time feminino sofria com o baixo investimento e o descaso da diretoria, denunciados em reportagem do Globo Esporte em dezembro de 2023 – situação que acarretou o rebaixamento no Brasileiro no ano seguinte. No ano seguinte, a goleira se transferiu para o Itabirito e passou a viver o que ela mesmo diz ser um dos melhores momentos da carreira.
Na equipe do interior de Minas Gerais, em 2025, Marcelle foi titular e decisiva para o acesso do clube da Série A3 para a A2 do campeonato nacional. Na partida de volta das quartas de final do Brasileirão A3, contra o Pérolas Negras, no dia 15 de junho de 2025, foi titular, fez defesas importantes e pegou o pênalti que garantiu a vaga do Itabirito nas semifinais da competição e na segunda divisão do Brasileiro. Esse momento, nas palavras da jogadora, foi o melhor de toda a carreira:
“Eu fiquei muito feliz. Foi o primeiro acesso que eu tive e a sensação é única. Parece que o mundo para ali, você conquista a cidade, a torcida… E eu escrever meu nome na história desse clube é um privilégio, uma alegria imensa”, celebra a goleira.
Na temporada atual, passou a dividir a titularidade com Karen Hipólito, goleira com passagem pela Seleção Brasileira em 2021, e conquistou mais um acesso, agora para o Brasileirão A1. Marcelle conta que não se aguentou de emoção pela nova promoção, conquistada diante do Sport, nas quartas de final da A2.
“É um momento muito importante para o clube e para a minha carreira. Eu senti de tudo! Emoção de olhar para arquibancada e ver minha esposa e pessoas queridas torcendo por mim, alegria de ver a festa que cada um fez ali e uma sensação de dever cumprido, sabe? Quando iniciamos em janeiro, nossa meta sempre foi o acesso e teve muita luta durante esse processo, mas a conquista sempre faz valer a pena toda batalha que passamos.”
Dentro x fora de campo
Apesar de, nas palavras de Marcelle, ela ser uma pessoa diferente dentro e fora de campo, a relação entre os dois espaços é enorme. Nas quatro linhas, ela fica séria, mais irritada e se mantém na persona de “goleira de cara fechada”. Fora delas, a guarda-redes conta que é tranquila, conversadora e um “amorzinho”. Entretanto, há coisas que não se restringem a ambientes específicos.

Marcelle lida com ansiedade e buscou ajuda na terapia para conseguir se estabilizar dentro e fora das partidas. “Antes de eu começar a fazer terapia, eu já pesquisava um pouco a respeito, depois eu comecei a aplicar a terapia na minha vida”, conta a goleira. Com técnicas de mentalização e respiração, ela consegue ficar mais tranquila, sem ceder para os gatilhos dos ambientes e do momento. Além da psicologia, busca auxílio em treinamentos físicos e técnicos individuais.
“Os clubes, no geral, têm quase 30 atletas, então os treinamentos dificilmente vão ser exatamente o que você, como indivíduo, precisa. Isso não é culpa do clube e nem de ninguém, pois é assim que é na Europa, no Brasil e em qualquer lugar. Por isso, eu acho que os atletas têm que correr por fora também para evitar lesões, para melhorar performance, além do fato de você ter que se cuidar dentro da sua própria casa”.
Essa mentalidade e a curiosidade sobre métodos de treino levaram Marcelle à faculdade de Educação Física. Além dos estudos universitários, Marcelle se interessa por aprender mais coisas na Psicologia e na Nutrição. Quer, ainda, fazer uma pós-graduação em Neurociência do Esporte.
O interesse na alimentação é de longa data. Marcelle é vegetariana desde 2023 e considera que a decisão teve reflexos positivos na saúde e na performance. “Além dos fatores pessoais, há estudos que mostram que atletas vegetarianos têm uma recuperação melhor e menos ganho de gordura. Eu sempre fui uma atleta com dificuldade para ganhar massa, por mais que eu treinasse por fora, mas depois que eu virei vegetariana, eu consegui ganhar bastante massa, pouca gordura, não tive lesões. Aí eu falo ‘funciona para qualquer um?’ Não. Tem individualidades, mas para mim deu certo. Em três anos, eu ganhei sete quilos de massa magra”, explica Marcelle.
Vida pessoal e paixões
A disputa pela titularidade entre jogadoras da mesma posição pode ser cercada de atritos e desavenças. No entanto, nos clubes que passou, Marcelle sempre teve boa relação com as companheiras de trave. Essa proximidade com as outras goleiras gerou diversas amizades, como as que ela tem com Karen Hipólito e Kayla, do Itabirito, e até o noivado com a ex-goleira Luana Guitarrari.

Marcelle e Luana se conheceram em 2021, nas categorias de base do São Paulo, e mantêm uma relação amorosa desde então. As duas disputaram a titularidade no Tricolor e no Itabirito, quando já estavam mais maduras:
“Foi super legal viver assim com ela (atuando no mesmo clube em 2025). Porque eu via que ela estava realmente feliz por mim, ela não estava chateada de não jogar. Ela sabia que fazia parte do processo e eu estava super feliz de estar vivenciando um novo clube com ela ao meu lado. Então, foi uma experiência totalmente diferente do que foi no São Paulo. O pessoal super acolheu e a gente foi muito elogiada pelo nosso profissionalismo, porque dentro de campo a gente se trata como colegas de clube”, conta com felicidade a atleta.
Desde que as duas passaram a morar juntas, Marcelle tem o hábito de, no tempo livre, assistir a filmes e séries, mas apenas quando está entediada e acompanhada da noiva. A goleira prefere aproveitar os momentos de lazer para ouvir podcasts, como o Lutz Podcast, Sem Groselha Podcast, Eslen Podcast, Tomioka Health Podcast e outros programas relacionados com a área da saúde e dos estudos.
Porém, nos momentos de leitura, cansada dos textos acadêmicos, Marcelle opta por consumir livros de autoajuda, filosóficos e que abordam histórias mitológicas. A goleira também gosta de ouvir música e é fã de Racionais, Djonga e MC Neguinho do Kaxeta. Ela carrega esses hobbies aos momentos pré-jogo, como forma de diminuir a ansiedade, com uma rotina de desaceleração da mente.
A arqueira agora se prepara para um salto de volta à elite do futebol feminino brasileiro, no ano mais importante da história do clube que a concedeu um recomeço com glórias e comemorações no esporte. A pequena gigante segue firme sem perder a essência, o planejamento fora do campo e a paixão pela profissão.
Expediente
Redação: Nicolas Arruda
Edição: João Vitor Marques e Rafaela Souza
Coordenação: Ana Carolina Vimieiro