O jornalismo esportivo precisa se reinventar

por Paola Laredo

Bem-vindos à Revista Marta. Como essa é a nossa primeira edição, optamos por, neste editorial, explicar a vocês os motivos que nos levaram a criar essa revista, nesse formato, dessa forma. 

O jornalismo esportivo praticado hoje pelos grandes veículos de mídia – o que nós chamamos de “jornalismo esportivo hegemônico” – possui um enquadramento predominantemente episódico, isto é, com foco absoluto no factual: na classificação do campeonato, no resultado da partida, nos atletas, nos aspectos técnicos e táticos das equipes. Ou seja, tudo aquilo que, na verdade, quem acompanha esporte já sabe relativamente bem por ver os jogos e as discussões nas redes sociais. Pensamos que, tendo em vista a velocidade da informação na era da internet, cada vez mais se faz necessário um tipo de jornalismo que vá além disso.

Outro problema desse tipo de enquadramento é que quando nos deparamos com racismo, sexismo, violência, corrupção ou qualquer outro tema mais amplo, podemos notar claramente a dificuldade que o jornalismo esportivo encontra ao tentar lidar com esses assuntos. Falta uma discussão crítica e social de um cenário mais amplo que envolve o esporte em relação à sociedade e ao ambiente em que ele está inserido. Afinal de contas, o esporte não é uma bolha isolada de tudo – por mais que muitas vezes seja, sim, tratado dessa maneira. Falta também ouvir fontes diferentes das que tradicionalmente são ouvidas, que acrescentem diferentes perspectivas e pontos de vista ao debate. Acreditamos que as análises serão sempre superficiais enquanto continuarmos a ouvir os mesmos jornalistas comentando sobre os mesmos atletas, treinadores e dirigentes.

Pensando nisso, como um Trabalho de Conclusão de Curso de Jornalismo, surgiu a Revista Marta. Nosso maior objetivo é fazer jornalismo esportivo com responsabilidade social. Queremos um produto que vá além do factual, que fale dos grandes temas e que ouça fontes diversas. Queremos dar espaço, voz e visibilidade a quem normalmente não aparece e problematizar questões que ainda não são amplamente discutidas como deveriam ser.

Para a nossa edição inaugural, decidimos trazer o tema Mulher e Esporte – nada mais justo para abrir uma revista com o nome da maior jogadora de futebol da história. Sabemos que o universo do esporte e o próprio jornalismo esportivo são fortemente marcados por questões de gênero, e isso impacta em vários aspectos.  As torcedoras são sempre questionadas sobre seu conhecimento e sobre a legitimidade ou motivação do seu amor pelo esporte; e as atletas, treinadoras e jornalistas são menosprezadas quanto à sua capacidade profissional pelo simples fato de serem mulheres no mundo esportivo.

Por isso, fomos atrás dessas mulheres. Em uma longa reportagem, ouvimos coletivos e torcedoras e revelamos um dado assustador: 99% de nossas entrevistadas já sofreram algum tipo de preconceito ou assédio. Trouxemos também o perfil de Tatiele Silveira, a primeira treinadora campeã da Série A1 do Brasileirão feminino. No MartaCast, cinco jornalistas incríveis contaram suas histórias e experiências ao longo dessa jornada de cobertura esportiva. Para finalizar, o Resenhando trouxe um documentário, um livro e uma série para quem quiser se aprofundar um pouco mais na discussão do tema. 

Estão esperando o que para conferir tudo o que a gente preparou nessa edição super especial? Divirtam-se e reflitam bastante!

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