De Mandela a Bolsonaro: o que diferencia os diversos usos do esporte por figuras políticas?

por Nathália Araujo

 Em 1936, a Alemanha Nazista, comandada por Adolf Hitler, sediava os Jogos Olímpicos em Berlim para promover a “superioridade ariana”. Durante a Guerra Fria, os Estados Unidos boicotaram as olimpíadas de Moscou por se posicionarem contra a invasão do Afeganistão por tropas soviéticas. Em 1922, o presidente Epitácio Pessoa, proibiu jogadores negros de jogar na seleção brasileira de futebol, na Copa América, pois passaria uma “imagem ruim do país”. Mandela usou o Rugby como forma de aproximação entre negros e brancos e, em 1995, o time da África do Sul foi campeão mundial contra a Nova Zelândia. Em 1971, a China convida a equipe olímpica dos EUA para uma partida de tênis de mesa na Muralha da China, evento que pavimentou uma reaproximação entre as nações. Citando um exemplo mais recente, Bolsonaro já usou camisas de 81 times de futebol em suas aparições públicas durante o mandato. 

Mandela entregar a taça do Mundial de Rugby ao capitão sul-africano François Pienaara. Foto: World Rugby

Esses são só alguns exemplos de situações em que a política e o esporte se entrelaçaram. A questão é: por que certos episódios dessa mescla nos incomodam e nos parecem impróprios, ao passo que outros são positivos e apoiados?

Para entendermos um pouco mais sobre essa relação esporte x figuras políticas conversamos com os jornalistas Carlos Massari e Aurélio Araújo, editores do podcast Copa Além da Copa que aborda histórias, política e cultura no mundo dos esportes. Também colhemos o depoimento da psicóloga, pesquisadora e doutora em ciências sociais, Marina Mattos. 

Uma relação indissociável 

Em primeiro lugar, Carlos e Aurélio deixam claro que a relação esporte e política tem caráter indissociável, por isso apoiamos certas manifestações e rejeitamos outras, ou seja, na verdade estamos mostrando nossas reações apenas à face política do que vemos.

“Durante todo o século XX, não existe governo que não o tenha usado como ferramenta – seja para aumentar sua popularidade interna, seja para fazer propaganda internacional, seja para demonstrar a superioridade de uma ideia ou até de uma raça.”

Os jornalistas, defensores da máxima “até o que você come no café da manhã é político”, acreditam que o que precisamos é entender as intenções reais de cada figura política ao se relacionar com o esporte e não desejar uma dissociação desses campos. É preciso entender que, uma vez que o esporte tem origens políticas (e é político até a sua raiz) seria impossível fazer essa separação.

O que se torna necessário então, de acordo com os entrevistados, é: “entender as ideias e o que está por trás do uso do esporte por cada governo [e como isso] nos ajuda a ter um posicionamento em relação ao que é feito, uma vez que o esporte sempre estará presente na pauta de qualquer político minimamente hábil em lidar com o sentimento do povo”. 

Marina Mattos acrescenta que até certo ponto, o que podemos separar do esporte é a política partidária, mas que é importante pensar que determinados modos de fazer a política institucional implicam em modos de se fazer política que afetam os esportes.

“Quanto mais amplo for o entendimento sobre o que é política, mais inseparável ela se torna dos esportes como uma manifestação humana cultural”.

Marina Mattos, psicóloga e doutora em ciências sociais

O conflito moral e seus porquês

Para a pesquisadora Marina, o nosso sentimento em relação a determinada ação de políticos e governos está ligada aos nossos valores morais e éticos, por isso as pessoas reagem de formas diferentes a determinados usos do esporte. Por exemplo, um defensor de valores democráticos obviamente não aprovará uma ação de cunho fascista ou nazista.

Mesmo sendo uma tática já conhecida, os motivos são diversos, mas sabemos que a aproximação de políticos e esportes se dá muitas vezes em busca de capturar as paixões envolvidas com a atividade. Um assunto popular e que envolve sentimento é um prato cheio para governantes ao tentar conquistar simpatia e uma imagem de proximidade com a sociedade.

Para ilustrar esses mais diversos usos, Carlos e Aurélio exemplificam: “Hitler queria provar a superioridade da raça ariana, o que é condenável por si só, a União Soviética visava promover a ideia de que coletivismo e comunismo formavam pessoas mais completas, o que já demonstra uma finalidade diferente (não são nascidos de maneira superior, mas se trabalharem coletivamente, podem vencer os demais). No caso de Bolsonaro, há um mero populismo barato.”

O caminho contrário: quando a política vem do esporte 

Mas e quando o que acontece é um caminho contrário? Qual a motivação para figuras do esporte se candidatarem a cargos políticos? Os editores Carlos Massari e Aurélio Araújo acreditam que essas figuras na verdade somente visam aproveitar a popularidade adquirida no esporte para conseguirem emplacar em uma nova posição.

Ainda defendem que esse é um fenômeno mundial como podemos notar George Weah, presidente da Libéria, Chilavert, candidato no Paraguai, e o prefeito de Belo Horizonte, Alexandre Kalil. 

Alexandre Kalil, ex-presidente do do Clube Atlético Mineiro e atual prefeito de Belo Horizonte, durante campanha em 2016.
Foto: Reprodução Instagram

Compartilhando uma visão semelhante, Marina Mattos ainda destaca a possibilidade de conversão do público dessas figuras em votos, porém acredita que alguns ex-atletas e dirigentes de esportes também veem na vida política uma possibilidade de contribuir com as transformações e continuidades políticas que desejam.

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