Os desafios da cobertura jornalística em Jogos Paralímpicos

por João Júnior e Wander Soares

Originados em 1940, na Inglaterra, a partir de exercícios para reabilitação de militares feridos da Segunda Grande Guerra, os esportes praticados por pessoas com alguma deficiência só ganharam espaço vinte anos mais tarde: foi em Roma, na Itália, em que a primeira edição oficial dos Jogos Paralímpicos foi disputada, sendo repetida de quatro em quatro anos. Foram 55 eventos diluídos em oito modalidades distintas e cerca de 400 atletas envolvidos.

Com o passar dos anos, os Jogos Paralímpicos de Verão se consolidaram como o segundo maior evento esportivo do mundo – atrás apenas do Jogos Olímpicos de Verão – e isso se comprova pelos números da última edição, disputada no Rio de Janeiro, em 2016: 528 eventos, 23 modalidades diferentes e cerca de 4.500 atletas, uma quantidade mais de dez vezes maior em comparação com os jogos de Roma.

Entretanto, ainda que todos esses números superlativos demonstrem a importância de um evento que está muito longe de ser apenas esportivo – é também social e possui caráter inclusivo – o fato é que os Jogos Paralímpicos ainda são deixados em segundo plano pela cobertura midiática.

Os próprios veículos de imprensa, sobretudo no Brasil, corroboram essa constatação. A Rede Globo, emissora detentora dos direitos de transmissão no país, utilizava seus canais de TV por assinatura para transmitir os eventos. Na TV aberta, no entanto, o espaço era bastante limitado. Nas Paralimpíadas de 2016, por exemplo, após o Jornal da Globo, exibido na madrugada, a emissora carioca colocava no ar um programa diário que resumia brevemente os acontecimentos relacionados ao evento, além de algumas entradas ao vivo ao longo das programações esportivas, sobretudo no Esporte Espetacular, nas manhãs de domingo.

A TV Brasil e a TV Cultura, ambas emissoras públicas, também transmitiram alguns lances após entrarem em acordo com a Globo. As demais emissoras de televisão aberta, entretanto, fizeram uma cobertura bastante discreta do evento.

Para Jairo Marques, jornalista pós-graduado em Jornalismo Social e repórter da Folha de São Paulo que participou ativamente da cobertura dos dois últimos jogos – em Londres (2012) e no Rio (2016) – existe um grande desafio prático em se cobrir um evento como os Jogos Paralímpicos.

“Primeiro: as equipes são pequenas, os meios de comunicação investem muito mais no evento anterior, que é o evento olímpico. Então você precisa ter um baita preparo para conseguir localizar onde é que estão as coisas mais interessantes e noticiosas. É bastante trabalhoso, você precisa ser bastante ágil, precisa estar ligado para que consiga não perder grandes coisas também que vão acontecer. Eu cobri duas [paralimpíadas] e o que a gente fez foi estabelecer um objetivo no dia e oferecer uma grande reportagem naquele dia, porque não dá para a cobertura ser noticiosa como é a cobertura olímpica. É uma noção estratégica e de logística.”

Jairo Marques, repórter da folha de São Paulo com experiência nas paralimpíadas do rio e de londres
Reprodução – Facebook oficial Jairo Marques

Para além da logística e da técnica, a empatia

O fazer jornalístico inserido em um contexto paralímpico requer, além de uma equipe numericamente capaz de cobrir os acontecimentos, uma capacidade sensível dos profissionais que, talvez, outras competições não necessitem tanto. Este é mais um dos problemas apontados por Marques. O jornalista afirma que apenas o conhecimento técnico das modalidades não é suficiente para que a cobertura seja contemplada em todas as esferas necessárias:

“Embora seja um evento esportivo e, embora os próprios atletas queiram se dissociar muito da questão da deficiência, se você não tiver um olhar para as questões de inclusão, para as questões de diversidade, se você não entender os vários aspectos do ser humano, você vai fazer uma cobertura enviesada, com vícios. Então não adianta você só ter o conhecimento esportivo.”

Jairo Marques, repórter da folha de São Paulo com experiência nas paralimpíadas do rio e de londres

No jornalismo esportivo, é muito comum a produção de matérias nas quais são ressaltados aspectos emocionais, cativantes, advindos da vivência de atletas, seja por uma ascensão social pelas vias do esporte, pelo enfrentamento a uma lesão grave ou até a sobrevivência a um acidente.

No recorte dos atletas que possuem deficiência física/motora, essa questão é ainda mais acentuada. Tem quem goste e também quem não goste. Certa vez, a corredora paralímpica Verônica Hipólito, em entrevista ao portal UOL, disse que ficava brava por ser retratada na maioria das vezes pelos veículos de imprensa como a “menina dos 200 tumores”. Isso porque, no senso comum, associa-se muito o termo “tumor” ao câncer e não se trata disso. Casos como esse abrem precedentes para uma discussão de ética jornalística, ainda que este não seja exatamente o objetivo aqui.

Jairo Marques também se posiciona sobre o assunto:

“Eu acho um mal necessário. (…) A gente ainda erra muito e erra por desconhecimento. Histórias humanas bem contadas também são noticiosas, também fazem parte do jornalismo. Eu acho que a gente perde na ‘quantidade de sal’ que a gente coloca na história.”

Voltemos ao caso da paratleta Verônica. Naquela mesma oportunidade, ela também disse querer inspirar e ajudar pessoas. Esse desejo é algo comum entre os atletas paralímpicos. Susana Schnarndorf, 53 anos, sempre foi apaixonada por esporte e iniciou sua trajetória pela natação convencional, embora também gostasse de correr e de pedalar.

No Triatlo, modalidade que coloca essas ações como etapas de uma competição, Susana reinou em solo e mar: foi pentacampeã brasileira. Em 2005, aos 37 anos, começou a ficar doente até descobrir que era portadora de Atrofia Multissistêmica (AMS), um distúrbio neurológico degenerativo que afeta o sistema nervoso e que compromete a movimentação. Segundo a paratleta gaúcha, foi difícil se acostumar com o fato de os movimentos ficarem limitados, visto que era uma pessoa que estava em constante movimento. 

O esporte paralímpico, então, foi um caminho. De volta às origens, começou a treinar na natação e, em 2010, iniciou oficialmente a sua nova carreira. De lá para cá, participou de três Parapans, duas Paralimpíadas e muitas medalhas no peito. Uma delas é lembrada com muito carinho, conquistada em casa – Rio 2016 – e ao lado de pessoas consideradas por ela como “ídolos”, no revezamento 4×50 livre misto: Clodoaldo Silva, Daniel Dias e Joana Silva.

Susana Schnarndorf, nadadora paralímpica – Reprodução Instagram

Apesar do contexto pandêmico que nos acomete, Susana mantém-se focada no seu objetivo: disputar os próximos jogos. Mesmo aos 53 anos e lidando com uma difícil doença não pensa em aposentadoria e brinca, com bastante humor, que “panela velha é que faz comida boa”. 

A nadadora cita também a obra biográfica de Dara Torres, em parceria com Elizabeth Well, intitulada Age is just a number: achieve your dreams at any stage of your life – ou em bom português, “A idade é só um número” – para demonstrar que segue na luta para voltar de Tóquio com a mala pesada de medalhas. 

Susana é uma personagem para a qual a luz da narrativa jornalística esportiva gosta de olhar. E é fácil de entender o porquê. A despeito de ter de conviver com as sequelas de uma grave doença para a qual ainda não se tem a cura, ela projeta o seu papel de inspiração para as pessoas, transmitindo o sentimento de que “o impossível não existe”. Uma das protagonistas do documentário “Paratodos”, do produtor e diretor Marcelo Mesquita, a nadadora abraça o rótulo de heroína, valorizando o aspecto humano das questões que envolvem o esporte paralímpico ao afirmar que ser uma referência é mais valoroso do que qualquer medalha conquistada.

“Acho que esse é o legado que eu vou deixar: o impossível não existe. Eu tive um monte de diagnóstico de pouco tempo de vida, de seis meses, de dois anos, e isso vai fazer 16 anos. Então acho que tenho um propósito e meu propósito é tentar inspirar as pessoas, tentar mudar a vida delas e é muito bacana isso pra mim, acho que vale mais que qualquer medalha que eu ganhe. Ajudar uma vida, ajudar uma pessoa a não desistir(…) o esporte paralímpico mudou muito a minha vida. Primeiro ele fez eu me aceitar. Eu era uma pessoa, entre aspas, perfeita fisicamente: corria, nadava e pedalava o dia inteiro e daqui a pouquinho não conseguia nem escovar meu dente. É um baque pra gente e o esporte paralímpico me ensinou muito (…).”

Susana Schnarndorf, nadadora paralímpica

O espelho londrino

Marques, quando questionado sobre o que considera faltar para que os Jogos Paralímpicos conquistem mais espaço nas mídias de massa – TV, rádio, internet, etc. -, sustenta que é basicamente o conhecimento genuíno sobre o evento por parte dos profissionais desses meios massivos,  como apresentadores e jornalistas. “O que impera hoje é o preconceito, o capacitismo, o desconhecimento. Eu acho que quando você, de fato, mergulha no universo e você dá uma oportunidade para entender e ver o potencial daquilo, a notícia é óbvia, a notícia vem.”

O jornalista da Folha de S. Paulo, a título de exemplo, cita o caso envolvendo a Seleção de Futebol de Cinco Masculino, que atraiu a atenção de inúmeros torcedores que lotaram as arquibancadas durante as partidas nas Paralimpíadas do Rio (2016). É bem verdade que os ingressos dos Jogos Paralímpicos, naquele ano, foram vendidos a preços bem camaradas, mas não é possível determinar que esse foi o fator principal para as quadras lotadas.

 “Na final, no Rio, era um mega evento e poderia ter sido feito um escarcéu com aquilo e meio que foi uma coisa okay [para a mídia]. Era uma seleção que quebrava todos os recordes, um evento legal, era muito noticioso, mas é difícil colocar aqui no mainstream.”

Jairo Marques, repórter da folha de São Paulo com experiência nas paralimpíadas do rio e de londres
Seleção Brasileira de Futebol de 5 em vitória contra o Irã pela final dos Jogos Paralímpicos de 2016 – Foto: Ministério do Esporte

Ora, se há o interesse do público pelo evento, por que a TV brasileira e demais meios não o convertem em transmissão em horário capaz de alcançar a maior quantidade de espectadores possível? Por que não dar visibilidade ao evento que também faz parte do ciclo olímpico e que reúne atletas que, para além das superações pessoais, possuem alto rendimento nas competições em que participam?

Talvez as emissoras precisem de um exemplo para provar que é um evento rentável, midiático e que engaja. Quando fala sobre os Jogos de Londres, Marques mostra empolgação com o que vivenciou ao descrever cenários que considera servirem de referência para o resto do mundo. “Um fenômeno, não canso de repetir”, afirma. Estádios lotados e torcida vibrante até mesmo para modalidades que nunca estiveram entre as mais populares fizeram os ingleses entenderem a dimensão do que estava sendo cultivado. 

Muito impulsionadas pelo grande sucesso dos Jogos Olímpicos, as Paralimpíadas de Londres, que se desenrolaram logo em seguida, é considerada a maior da história em público e em audiência – em 2012, nunca houve tantos países recebendo os sinais da transmissão dos jogos. Ao todo, foram 164 países participantes, mais de 4.200 paratletas, 3.500 treinadores e 1.200 árbitros, num total de 503 competições (número superior ao das Olimpíadas do mesmo ano), sendo que o Brasil enviou uma delegação de paratletas composta por 182 pessoas – 115 homens e 67 mulheres. O número de ingressos vendidos também reverberam o triunfo do evento. Segundo os organizadores, foram mais de 2,3 milhões de ingressos comprados pelo público (cerca de 2 milhões antecipadamente).

A comparação entre o acompanhamento in loco dos ingleses e dos brasileiros foi inevitável. O jornalista ainda conta que a super cobertura feita pelos colegas da terra da Rainha reverberou no evento seguinte, em solo tupiniquim. 

“Mandaram equipes imensas pro Brasil porque deu certo pra eles! Existia uma programação 24 horas: programa de humor, programa de recorde, programa de tudo. Eles conseguiram tirar toda a tampa do estereótipo e mostrar aquilo pra sociedade. Foi muito emocionante o que aconteceu lá, muito, muito. E mais: eles viram potencial de grana. Ninguém rasga dinheiro.”

Jairo Marques, repórter da folha de São Paulo com experiência nas paralimpíadas do rio e de londres

A crítica à dita grande mídia brasileira prossegue quando aponta o despreparo em vista da boa adesão que os Jogos na Cidade Maravilhosa tiveram.

“O que rolou no Rio foi que a mídia tomou um capote. Os eventos foram lotando, lotando, lotando e quando a mídia viu: ‘caraca, o que tá acontecendo aqui?’ Começaram a mandar os repórteres mais ‘especiais’ para fazer matéria e na correria.”

Jairo Marques, repórter da folha de São Paulo com experiência nas paralimpíadas do rio e de londres

Perguntado sobre as expectativas para os Jogos de Tóquio – o Comitê Paralímpico Internacional anunciou recentemente que cerca de 62% das vagas já haviam sido preenchidas – previstos para acontecer entre agosto e setembro de 2021, Marques acredita que é difícil fazer qualquer prognóstico em razão de diversos fatores. O principal deles é a dura realidade pandêmica que nos é escancarada diariamente a qual põe em xeque até mesmo a realização dos jogos de fato.

Isso impacta em todas as esferas, desde o desempenho técnico dos atletas que seguem treinando, embora as competições entre federações paralímpicas estejam paralisadas, até a cobertura jornalística de fato. As equipes destinadas que já eram reduzidas em comparação com o evento olímpico tendem a ser ainda menores nesse cenário no qual o distanciamento social é uma das únicas alternativas para evitar a propagação do novo coronavírus.

O Grupo Globo, uma das detentoras dos direitos de transmissão para o Brasil, enviará ao Japão equipes compostas apenas por repórteres e produtores, e sem narradores e apresentadores; a informação é do portal UOL. 

Os Jogos Paralímpicos e o legado intangível

Apesar de pouca visibilidade no país, os Jogos Paralímpicos garantem ao Brasil resultados mais expressivos quando comparados às Olimpíadas. Em 2012, nas Paralimpíadas de Londres, o Brasil alcançou a sétima colocação no quadro de medalhas. Nas Paralimpíadas de 2016, no Rio, figurou na oitava posição, tendo obtido 72 medalhas, sendo 14 de ouro, 29 de prata e 29 de bronze.

Além do mais, o Brasil é considerado potência paralímpica nas Américas, uma vez que nos Jogos Parapan-Americanos de Lima, em 2019, o país logrou o primeiro lugar disparado – estando muito à frente do segundo colocado, os EUA -, tendo obtido um total de 308 medalhas, sendo 124 de ouro, 99 de prata e 85 de bronze. Nos Jogos Parapan-Americanos de Toronto (2015), por sua vez, o Brasil conquistou menos medalhas comparadamente ao Parapan de 2019, mas, ainda assim, liderou o quadro de medalhas muito a frente dos Estados Unidos, também o segundo colocado naquela oportunidade.

Ainda assim, o orçamento dispensado ao Comitê Paralímpico Brasileiro (CPB) foi equivalente à metade do ofertado ao Comitê Olímpico Brasileiro (COB) em 2016.

Entretanto, para além de toda a estrutura física criada na cidade que sedia os Jogos Paralímpicos e os milhares de empregos gerados para a realização do evento esportivo, o legado mais importante deixado é a inclusão de diversas pessoas que costumam ser invisibilizadas pela sociedade e que, portanto, passam a se sentir como pertencentes a essa mesma sociedade.

Outra herança deixada pelas Paralimpíadas é a geração de uma consciência coletiva acerca da importância da acessibilidade, o que acarreta mudanças de agentes governamentais à sociedade civil. Por exemplo, bolsas são criadas para financiar a prática esportiva e os treinamentos de pessoas com deficiência, fatias do orçamento das cidades são destinadas à adequação de pavimentos e edificações para a livre circulação – com segurança – de pessoas, há melhorias no sistema de transporte público, etc.

Com isso, o art. 5°, inciso XV, da Constituição Federal (1988) deixa de ser letra morta e se materializa no cotidiano de diversos outros indivíduos, igualmente brasileiros, igualmente detentores de direito.

XV – é livre a locomoção no território nacional em tempo de paz, podendo qualquer pessoa, nos termos da lei, nele entrar, permanecer ou dele sair com seus bens

A evolução e o futuro da cobertura jornalística no esporte paralímpico

Ainda que o jornalismo – e, por consequência, as pessoas que o fazem – precise melhorar muito para tratar o amplo universo das diversidades humanas com o respeito que cada particularidade merece, tanto Marques quanto Schnarndorf não hesitam em afirmar que a evolução na abordagem das pessoas com deficiência é evidente. Para a nadadora gaúcha, não existe mais a história do “coitadinho” e sim de atletas de alto rendimento, que treinam e obedecem rotinas desafiadoras com o intuito de maximizar a performance competitiva. 

Além dessa aprovação, o colunista sempre ressalta que a informação e o conhecimento das causas humanas são as melhores maneiras de se fazer uma cobertura jornalística mais inclusiva, correta e respeitosa. A fórmula está aí: um investimento justo por parte das empresas televisivas, know-how esportivo e nas questões sensíveis às pessoas ali envolvidas, bem como a noção de que o mundo e as pessoas evoluem. 

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