O retorno das competições e do público às arquibancadas

Por Bruno Nogueira e Maria Izabel Clozato Santos

Em março de 2020 a Organização Mundial da Saúde declarou a pandemia de Covid-19 e o mundo teve que parar. Dois anos depois, quando Tedros Adhanom, diretor geral da OMS, veio a público fazer o comunicado, ainda sentimos o impacto do vírus na sociedade e, obviamente, nas competições esportivas.

Hoje parece que vivemos em um estado de tranquilidade, similar aos anos que antecederam o Coronavírus – e, talvez, só não é possível falar em normal devido a ondas causadas por novas variantes. Porém, o esporte funciona a todo vapor com a volta dos estádios lotados, sendo possível graças ao avanço da vacinação e aos protocolos de saúde e segurança.

No entanto, duas coisas chamaram a atenção: como os torcedores, que ficaram meses longe das arquibancadas, se comportam na volta às arenas; e, como as normas do “novo normal” incomodam os maiores atletas do planeta.

A volta da torcida e os velhos problemas

À medida em que a pandemia avançava e a situação epidemiológica foi sendo controlada, os adeptos voltaram a frequentar os jogos – nos Estados Unidos e no mundo todo. O que era para ser motivo de alegria, veio com alguns problemas e diversos tipos de agressões foram sendo registrados.

Ao final do jogo quatro da primeira rodada dos playoffs da NBA, entre Boston Celtics e Brooklyn Nets, Kyrie Irving, estrela da equipe Nova Iorquina, teve uma garrafa d’água atirada em sua direção. O torcedor foi preso e banido da arena pelo resto da vida, mas o caso não foi o único daquela temporada. Em Nova York um torcedor do Knicks cuspiu no armador do Atlanta Hawks, Trae Young, em pleno Madison Square Garden, e na Filadélfia um torcedor jogou pipoca em Russell Westbrook.

O astro do Nets e companheiro de Kyrie, Kevin Durant, comentou os casos dizendo que em algum ponto, o torcedor precisa amadurecer.

“Sei que ficar um ano e meio em casa por causa da pandemia, deixou muita gente no limite, estressada. Mas quando você vai aos jogos, precisa perceber: Esses atletas são humanos, não somos animais e não estamos no circo”.

Kevin Durant, JOGADOR DO BROOKLYN NETS

No Brasil, o retorno do público ao estádio de futebol trouxe velhos problemas, já conhecidos por quem frequenta as arquibancadas. 

Durante a corrida pelo título do Brasileirão e da Copa do Brasil, os jogos do Atlético-MG no Mineirão, em Belo Horizonte, tiveram o registro de diversos casos de algum tipo de violência. À época chegou ao conhecimento geral os casos de assédio de sexual sofrido pelas mulheres nas dependências do estádio, casos que, segundo as vítimas, foram tratados com descaso pelas autoridades locais.

Vale lembrar, também, quando um grupo de torcedores de uma organizada do Cruzeiro, emboscou um ônibus que carregava os adeptos do rival. Na ação violenta o veículo foi depredado e diversas pessoas ficaram feridas, sendo que um óbito foi registrado. Seis pessoas foram presas, e a organizada foi banida dos estádios por seis meses.

O Doutor em Estudos do Lazer pela Escola de Educação Física, Fisioterapia e Terapia Ocupacional (EEFFTO-UFMG) e pesquisador do Grupo de Estudos sobre Futebol e Torcidas (GEFuT), Thiago Carlos Costa, explica que sempre ocorreram atos violentos na vida coletiva, dentro e fora do âmbito esportivo, mas que nesse caminho é necessário pensar o esporte como mais um meio de interpretação das sociedades nas quais estão inseridas.

“Não podemos pensar o esporte de forma isolada ou como mera metáfora da vida cotidiana, mas como mais um espaço de disputas, tensões dentro do jogo de forças que é a sociedade. […] Agora, cabe a essas sociedades construírem limites para a harmonia da vida coletiva, seja dentro ou fora do esporte, pois não dá para dissociar uma coisa da outra”.

Thiago Costa, DOUTOR EM ESTUDOS DO LAZER PELA UFMG

Negacionismo das estrelas

No meio esportivo tem sido muito destacado o papel do atleta profissional para além de apenas um jogador, hoje eles se tornaram verdadeiras celebridades em que a voz ecoa em diversos cantos. No entanto, para que as competições sejam realizadas no mundo pandêmico, até mesmo as maiores estrelas precisam seguir as normas sanitárias.

No início de 2022 acompanhamos o caso de Novak Djokovic, tenista número 1 do mundo pelo ranking da ATP que foi impedido de competir no Australian Open, primeiro Grand Slam da temporada. Na ocasião o Sérvio não estava vacinado e chegou a ser deportado da Austrália, depois de ter travado uma queda de braço com o governo para poder competir sem estar imunizado. 

O tenista afirmou em uma entrevista para a BBC que está disposto a perder outras competições, em defesa da sua posição sobre a vacina. Djokovic virou uma espécie de ícone para o negacionismo, mesmo afirmando não estar ligado ao movimento anti-vacina, e que apenas apoia o direito de escolha do indivíduo. 

A pauta da liberdade individual é a mais utilizada pelos atletas que recusam a imunização. Para Thiago, a discussão quando colocada no âmbito da saúde pública é feita de maneira generalizada, com o objetivo de confundir a população.

“As questões individuais quando colocam em risco a coletividade acabam por atingir a sociedade em questão, e nada tem de “Liberdade de escolha”, e sim uma tentativa nebulosa de tirar o foco do debate em torno de escolhas que ferem a coletividade. […] Então, na minha análise, esse debate em torno de Liberdade é mais uma falácia do que uma busca por proteção de liberdades individuais”

Thiago Costa, DOUTOR EM ESTUDOS DO LAZER PELA UFMG

A posição de Djokovic em relação a vacina não é um caso isolado entre os grandes nomes do esporte. O maior Surfista da história, Kelly Slater, que ainda compete aos 50 anos de idade, chegou a negar a imunização e fazer campanha contra. Kelly não confirma se chegou a tomar suas doses, mas sua postura contrária ficou bem evidente nos últimos tempos. Campeão da etapa de Pipeline do mundial de Surfe (Havaí, EUA), a primeira do ano, o veterano pode chegar a perder outras etapas se não estiver vacinado.

O negacionismo vai ecoar até entre os atletas negros da NBA, que historicamente sempre estiveram engajados nos problemas e lutas sociais. Porém, aqui a recusa pode trazer à discussão um legado histórico da discriminação racial nos Estados Unidos.

Entre anos de 1932 e 1972, diversos homens negros com sífilis foram tratados pelo Centro de Controle de Doenças (CDC) de forma enganosa, com placebo ao inves de penicilina, em um episódio que ficou conhecido como experimentos de Tuskegee. Desde então se tem uma desconfiança dessa população sobre o sistema de saúde.

A maior figura que se recusa a vacinar é o próprio Kyrie Irving, que em seus discursos reforça o viés individual do processo de imunização. O fato é que o armador do Brooklyn Nets, não pode atuar nos jogos em casa, e no Canadá, isso porque as legislações locais não permitem que pessoas não vacinadas frequentem locais fechados. 

A NBA, como diversas outras ligas, não impede que os jogadores joguem sem a imunização, esse tipo de decisão deve ser tomada em acordo com o sindicato dos jogadores que fez um acordo para que apenas uma parte do salário seja perdido em caso de ausência nas partidas. No caso de Irving, o atleta perde cerca de US$ 381 mil por jogo, e deixando de atuar em 41 jogos em casa ele pode chegar a perder US$ 15 milhões no ano, ou seja, uma parte considerável de seu salário de quase US$ 35 milhões.

Kyrie chegou a ser afastado do elenco pela diretoria do seu time, que alegou não querer contar com o jogador parcialmente disponível, mas sua forte posição anti-vacina parece ter vencido o cabo de guerra e o jogador rapidamente foi reintegrado. Thiago explica que nesse processo as federações se tornam “reféns” dos atletas, pois economicamente dependem do engajamento que os mesmos geram com o público e com publicidade.

“Assim, o poder público com justamente legislativos, judiciários e executivos locais, são fundamentais para se fazer valer as leis contra os transgressores. Pois não faz o menor sentido se exigir do público vacinas e outros comprovantes, e em contrapartida não se impor o mesmo sobre os protagonistas do evento que são atletas”

Thiago Costa, DOUTOR EM ESTUDOS DO LAZER PELA UFMG

Essas estrelas, no entanto, parecem não compreender sua posição enquanto formadores de opinião. Muitos desses profissionais, mesmo negando a vacinação, reforçam que não fazem parte do movimento anti-vacina. 

Por outro lado, Thiago argumenta que esses atletas exercem forte apelo junto aos seus fãs e patrocinadores, e quando assumem essa posição contrária reforçam o discurso negacionista e as teorias conspiratórias. Para o doutor e pesquisador da UFMG, esse também é um reflexo da sociedade atual onde a informação passa por um intenso e constante processo de validação, e a facilidade com que as Fake News se misturam com notícias verdadeiras causam confusão na população geral.

“Então para a imagem dos atletas e das instituições e patrocinadores que eles representam, ao se negarem a tomar vacina acabam por desacreditar todo um processo de imunização já consagrado como salutar para a população em geral, porque estes são formadores de opinião”,

Thiago Costa, DOUTOR EM ESTUDOS DO LAZER PELA UFMG

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