Estrelas da ATP e da WTA cogitam boicote a Roland Garros por questões financeiras

Foto: FITP

Por Vivian Martinho, estudante de jornalismo da UFMG

A poucas semanas do início de Roland Garros, o tênis mundial vive uma das maiores tensões da Era Aberta. Para além da disputa para igualar a premiação entre os campeões de torneios da ATP e da WTA, tenistas ameaçam boicotar o Aberto da França, amplamente conhecido como Roland Garros, por reivindicações ligadas à porcentagem do lucro do torneio e ao quanto é repassado aos atletas. 

O estopim da crise veio após a divulgação da premiação oficial do torneio para 2026. Apesar da Federação Francesa de Tênis ter anunciado um aumento de 9,5% na premiação em dinheiro, totalizando 61,7 milhões de euros (356 milhões de reais), atletas afirmam que a porcentagem destinada aos jogadores continua distante do que consideram justo. Segundo representantes dos tenistas, a fatia recebida pelos atletas deve permanecer abaixo de 15% da receita total do torneio, enquanto o exigido teria sido cerca de 22%, visando igualar a receita combinada dos mil eventos da ATP e da WTA. 

Desde 2025, jogadores dos dois circuitos vêm discutindo formas de pressionar os organizadores dos quatro Grand Slams por mudanças estruturais no modelo financeiro do esporte. Uma carta assinada por alguns dos principais nomes da modalidade foi enviada às entidades responsáveis pelos maiores torneios do calendário, cobrando maior participação nas receitas, melhorias nas condições oferecidas aos atletas e maior representação política dentro do tênis profissional.

Nos últimos dias, os tenistas começaram a se pronunciar sobre o caso. Aryna Sabalenka, atual número 1 do ranking oficial da WTA, admitiu que um possível boicote deixou de estar fora das possibilidades. 

“Acho que, em algum momento, vamos boicotar [o torneio], sim. Sinto que essa vai ser a única maneira de lutar pelos nossos direitos,” comentou a bielorussa em entrevista durante o WTA 1000 de Roma. 

“Quando você vê os números e vê o valor que as jogadoras estão recebendo… Sinto que o espetáculo depende de nós. Sinto que, sem nós, não haveria torneio e não haveria esse entretenimento”, acrescentou Sabalenka.

Número quatro do mundo, Coco Gauf, disse que “com certeza” as jogadoras poderiam boicotar um torneio de Grand Slam caso essa fosse a decisão tomada em conjunto entre as atletas. 

“Não se trata de mim. Trata-se do futuro do nosso esporte e também das jogadoras atuais que não estão recebendo tantos benefícios, talvez, quanto até mesmo algumas das melhores jogadoras recebem quando se trata de patrocínios e coisas do tipo. […] Quando você olha para as jogadoras classificadas entre a 50ª e a 100ª, e entre a 50ª e a 200ª, e vê quanto dinheiro cada Slam rende, é um pouco lamentável que as 200 melhores tenistas estejam vivendo de salário em salário.”

Gauff também sugeriu que as jogadoras deveriam formar um sindicato, mencionando como exemplo o caso do sindicato das jogadoras de basquete da WNBA, que chegou a um acordo provisório sobre uma convenção coletiva no início deste ano, após quase 17 meses de negociações.

“Basta olhar para o que a WNBA conquistou. Elas também têm um sindicato, então acho que isso ajuda. Pelo que tenho visto em outros esportes, geralmente, para se alcançar um progresso significativo e coisas do tipo, é preciso um sindicato”, comentou Gauff a respeito do caso envolvendo quase dezessete meses de negociações entre a organização e as jogadoras da Liga Nacional de Basquete Feminino dos Estados Unidos. 

A discussão também reacendeu o debate sobre a Professional Tennis Players Association (PTPA), entidade criada em 2020 por Novak Djokovic e outros jogadores com a proposta de ampliar a representação dos atletas e facilitar o diálogo com as federações e as organizações. Embora a associação ainda enfrente resistência institucional e não tenha o mesmo reconhecimento das estruturas tradicionais do tênis, a crise em Roland Garros fortaleceu o discurso inicial. Em nota recente, a PTPA afirmou que o impasse relacionado ao segundo Grand Slam do ano comprova a necessidade de reformas profundas na governança do esporte.

Do lado dos organizadores franceses, a posição oficial tem sido mais cautelosa. Roland Garros argumenta que houve aumento significativo na premiação total e afirma que parte importante dos recursos adicionais será direcionada especialmente aos atletas das primeiras rodadas e do qualifying, grupo que costuma sofrer mais financeiramente. Ainda assim, a resposta não reduziu a pressão pública exercida pelos jogadores.

Em comparação com os outros Grand Slams do circuito, a situação tende a favorecer os atletas. Em 2026, o Australian Open distribuiu premiação recorde, enquanto US Open e Wimbledon seguem oferecendo cifras superiores às do torneio parisiense, o que alimenta a percepção entre os atletas de que Roland Garros permanece atrás de seus concorrentes tanto em premiação absoluta quanto em divisão proporcional das receitas.

Apesar das ameaças, um boicote ainda parece improvável no curto prazo. A logística de uma paralisação em um Grand Slam envolveria dezenas de jogadores do topo do ranking, negociações coletivas complexas e impactos financeiros significativos para atletas, patrocinadores e transmissoras. Além disso, há divergências internas sobre até onde o movimento deve ir. Iga Swiatek, número 3 do mundo, por exemplo, demonstrou preferência pelo diálogo em vez de medidas extremas.

O calendário de Roland Garros segue inalterado. A fase de qualificação começará na próxima segunda-feira, 18 de maio, enquanto o início oficial da chave principal com todas as vagas preenchidas será no dia 24 de maio.

Expediente

Redação: Vivian Martinho

Edição: André Quintão

Coordenação: Ana Carolina Vimieiro

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