Conheça David, chefe da Center Kart Competições e grande figura do automobilismo nacional
Por Gabriela Sousa

Se para alguns o barulho dos motores pode ser quase ensurdecedor, para David Simpatia a trilha sonora é um exercício diário para compreender e desvendar cada vez mais a fundo as minúcias do esporte a motor. Ao receber uma visita no box, o chefe de equipe se encanta ao ser questionado sobre seus carros, seus pilotos e sua trajetória. Não é à toa que o apelido “Simpatia”, agora praticamente um sobrenome, ecoa pelos corredores do kartódromo a todo momento.
Ao se sentar na cadeira giratória, em frente à mesa que enfeita a parte central do box, e após oferecer um cafézinho para iniciar bem o dia, David logo se dispõe a falar sobre a carreira da qual tanto se orgulha. São anos de dedicação e entrega, derramando nas pistas toda a paixão que só cresce ao longo do tempo. Nas minúcias das lembranças, é evidente o apego à cada década dedicada à profissão e a percepção aplicada ao funcionamento do mundo a motor, em especial o kartismo.
Como no Campeonato Brasileiro disputado em Florianópolis em 2000. Enquanto realizava a limpeza e manutenção do kart de Nelsinho Piquet, um suspiro quase imperceptível chamou a atenção de Simpatia. Entre novas conferências e repetição dos estalos, o problema central foi encontrado: a curva da descarga havia quebrado. A pole position e o título vencidos horas depois não vieram do “além”, mas foram resultado do trabalho de quem, como ele define, “namora” e sente cada detalhe da máquina antes de soltá-la no asfalto. Dedicação essa que rendeu títulos e que transformou David em uma das lendas do kartismo nacional.
Mas a atenção aos detalhes e o cuidado manual não nasceram nos boxes nem no kartódromo, e sim foram primeiro aprimorados nas bancadas de uma pizzaria onde ele trabalhava no preparo das massas. De ingrediente em ingrediente, ele construiu uma história que vai muito além das pistas. Simpatia costumava conferir o ponto da pizza com o mesmo rigor e dedicação que agora avalia a carenagem, freios e estrutura mecânica dos karts.

Um olhar que se materializa não só durante as competições, mas também nas conexões e encontros traçados no caminho. David fala sobre os pilotos, tanto os antigos quanto os atuais, com um carinho paternal, e mantém nas paredes dos boxes 15 e 16 quadros e troféus que organizam visualmente 40 anos de memórias. O chefe da equipe Center Kart Competições se emociona ao contemplar a imagem do Circuito Emerson Fittipaldi, o primeiro kartódromo que conheceu e onde iniciou sua carreira.
Com os olhos cheios de lágrimas, ele sente a nostalgia dos momentos ali vividos e reconhece o desejo de voltar a sentir a energia pulsante do kartismo no interior de Minas Gerais. Afinal, foi a intensidade raiz do esporte a motor que fez com que a vontade de se aprofundar na área só crescesse. A carreira de David possibilitou que ele conhecesse circuitos históricos, alguns dos quais já foram extintos, mas também permitiu que ele possa chamar de casa grandes templos do automobilismo mundial.
No circuito de Interlagos, um momento especial com o ex-piloto de Fórmula 1, Cristiano da Mata, permanece forte na memória de David. Dentre todos os títulos disputados por Simpatia e da Matta, o único não conquistado foi o Pan-Americano de 1992. Diante da decepção e do tom de lamentação frente à imprevisibilidade enfrentada há mais de 30 anos, Simpatia abre um sorriso sem graça ao retomar a lembrança. Ele se ajeita na cadeira, desconfortável, mas a história revela um grande grau de aprendizado decorrente da situação.
Na ocasião, a dupla conquistou a pole-position e bateu o recorde até então estabelecido no circuito, além de vencer quatro eliminatórias e a pré-final. Na final, entretanto, fizeram a volta de apresentação de pneu para pista seca e foram surpreendidos por uma chuva torrencial logo na primeira volta, fazendo com que Cristiano fosse o primeiro a rodar.
Em função da chuva, a bandeira vermelha foi acionada e a equipe teve a chance de fazer a troca de pneus. Na relargada, Da Matta conseguiu sair de oitavo para a segunda colocação, mas na disputa pelo primeiro lugar teve o pneu furado e acabou em décimo oitavo na soma final. David reconta o episódio com precisão e detalhes de quem revive o momento ali mesmo, na simples cadeira giratória, após mais de três décadas do ocorrido. Algo que só pode ser explicado por quem estava presente e sabe que, no automobilismo, a glória e o esquecimento moram na mesma curva.
“Só quem estava lá, viu e sentiu, sabe. É difícil até falar. É uma corrida que não tem como esquecer”, conta David. A história ecoa pela voz de Simpatia de uma maneira serena, mas com o peso de quem ainda sente um gosto amargo. Ele retoma passo a passo, nos mínimos detalhes, repassando os aprendizados da época e com um questionamento implícito em mente: e se fosse diferente?
Mas, para tudo que poderia ser de outra forma, existe também o equivalente para aquilo que não volta mais. Apesar de estar imerso no ambiente dos kartódromos, ele ainda retoma com nostalgia a adrenalina que corria nas veias juntamente com o perigo e precisão dos circuitos de rua de Belo Horizonte. As regras de segurança, muito mais estritas nos tempos atuais, não permitem que esse estilo de evento aconteça com frequência, até mesmo pela forma como a cidade cresceu e se desenvolveu nos últimos anos.
“Eu comecei no circuito do Mineirão, um circuito de rua muito bacana, de alta velocidade. Um prato cheio para quem gosta, assim como eu. Infelizmente, agora temos que ter paciência porque não vamos ter tão cedo”, lamenta o chefe de equipe.
Ele recorda a dinâmica das pistas no ambiente urbano, onde o grito e a emoção do público se misturavam ao ronco do motor, longe das dinâmicas fabricadas de vídeos para as redes sociais, ou da mídia excessiva dos tempos atuais.
A arquibancada se misturava aos espaços da capital. A Savassi não era só uma região boêmia, mas também uma das casas do kart mineiro. Hoje a modalidade fica restrita aos campos delimitados, em regiões vizinhas a Belo Horizonte e nem sempre de fácil acesso. O kartismo, para Simpatia, era um organismo vivo da cidade, perigoso na medida certa e, acima de tudo, democrático.
A memória mais pulsante do asfalto como traço cultural remonta a 1998, quando a corrida invadiu a Base Aérea de Belo Horizonte no Dia da Aviação. David recorda o evento com o brilho de quem viu algo que, hoje em dia, parece impensável: um circuito curto e muito desafiador, apelidado carinhosamente de Mônaco, onde o espetáculo dos motores no céu dividia a atenção com o acelerar no asfalto. O que mais ficou marcado, entretanto, foi a força do calor humano.
Um calor que não se encontra facilmente nas arquibancadas e boxes dos tempos atuais, segundo ele. Se na década de 80, a paixão ecoava naturalmente nas vozes tanto de quem torcia quanto de quem acelerava nas pistas, Simpatia agora observa um movimento de desgaste na sentimentalização. Ele nota que o kartismo atual sofre pela ausência de emoções espontâneas, pois os cliques permanecem acima das celebrações ou até mesmo das dores de uma derrota ou de uma decepção.
“Hoje o piloto não chora”, lamenta o chefe de equipe.
Em décadas passadas, quando um piloto não terminava uma prova ou até mesmo tomava alguns segundos na pista, as lágrimas eram o primeiro sinal de que algo estava desalinhado. Para Simpatia, as emoções eram a representação de que aquele momento importava. O desejo de andar melhor, mais rápido e, consequentemente, vencer estava evidente nos prantos e lástimas.
Hoje, ele se queixa da falta de emoções visíveis, um paralelo incômodo entre a superexposição e a carência de profundidade. A preocupação agora é outra: “estar na foto ao fim do dia”, uma crítica que vem acompanhada da frustração de querer compartilhar com outros a agitação e a intensidade das pistas. “Tem um bom tempo que eu não vejo um choro daquele piloto que quer, que está com raiva e depois transborda essa raiva em um resultado positivo”, explica David.
A paixão pela adrenalina, velocidade e tradição é compartilhada nos boxes da equipe liderada por Simpatia, a Center Kart Competições, sediada no Kartódromo RBC Racing e com extensa tradição no kartismo brasileiro. Lá, ele divide o espaço e a paixão por automobilismo com os três filhos: Geisson, Patrick e Leandro. Orgulhoso, o patriarca se emociona com a maneira como a família cresceu cercada pelo mundo a motor e se une não só pelo sangue, mas também pelo legado construído nas pistas.

No pós-corrida, o ambiente é, geralmente, descontraído: David e os filhos andam pelo kartódromo com a expressão de cansaço, mas orgulhosos do trabalho realizado e gratos pelo fim do expediente. Se cumprimentam, se abraçam, abrem uma cerveja e dão início a uma resenha que segue pelo anoitecer. Ainda há muitas histórias a serem divididas, perspectivas pendentes de análise e, claro, feitos a serem comemorados. O box com as luzes acesas e o rádio ligado se aproxima ainda mais de um segundo lar.
Durante as competições, as expressões são mais sérias e centradas. David e os filhos acompanham os pilotos em pista, fazendo os ajustes necessários e sempre atentos a qualquer necessidade. Ali, trabalham em sincronia, ainda que de maneira independente. Os movimentos, tão precisos quanto os de uma orquestra, são a essência de um trabalho passado de geração em geração e que segue sendo perpetuado. É quando o “Magic David” entra em ação e entrega resultados expressivos no quadro final, sempre muito bem acompanhado.
Simpatia e os filhos, além de compartilharem o espaço físico dos boxes, dividem aconselhamentos para aliviar o dia a dia. Especialmente no esporte a motor, saber equilibrar as emoções é uma virtude considerada um grande diferencial, além de representar confiança. Afinal, são muitas as dificuldades enfrentadas para se chegar ao topo e manter a excelência constante.
David relata que a resiliência é uma das principais características do cargo de chefe de equipe. Como um homem negro em posição de liderança, a técnica e a habilidade isoladas nem sempre foram suficientes. É preciso se provar dia após dia, além da constante pressão de conseguir resultados para se manter em evidência.

É necessário continuar demonstrando ser pertencente àquele espaço, mesmo quando a entrega, dedicação ao trabalho e títulos acumulados deveriam ser suficientes por si só. As referências de figuras externas com grande alcance midiático, como Barack Obama e Lewis Hamilton, ainda que em realidades um pouco distintas, foram extremamente importantes para o chefe de equipe. Ter em quem se espelhar é um diferencial que nem sempre foi possível.
Na perspectiva de David, em um universo que “vive de aparências”, quem consegue quebrar a barreira racial está no jogo. Esse é mais um feito do qual ele pode se orgulhar. “Só eu sei como comecei, tudo o que fiz e continuo fazendo. As barreiras existem e não adianta se fingir de cego”, comenta. Para ele, o mais importante é continuar na luta e manter-se firme, por maiores que sejam os obstáculos.
Independente das condições financeiras, potencial e apoio, o piloto de pele negra tem certa dificuldade. “Você é cobrado o tempo todo. Se vai bem, tem desconfiança. Se não faz algo bem, eles acham que você está no lugar certo”, afirma Simpatia. Segundo ele, o bom piloto precisa ainda, além do talento, saber ouvir, obedecer, reclamar quando necessário, mas também agradecer. São visões absorvidas ao longo de uma carreira longeva, mas que David agora busca disseminar quando possível e levando essa discussão para os boxes, na esperança de que um dia possa vivenciar o fluxo de maneira diferente e mais igualitária.
Ele entende, entretanto, que o movimento vai muito mais a fundo. É necessário uma mobilização coletiva diante das questões enfrentadas pelo kartismo, que vão desde obstáculos socioespaciais até desigualdades no acesso democrático à categoria. David avalia a falta de uma divulgação capaz de furar a bolha elitista do esporte.
Acostumado com outras formas de comunicação durante a carreira, atualmente sente falta de rádios, grandes reportagens, matérias escritas por jornais, e até mesmo canais abertos que divulguem a modalidade e auxiliem o crescimento. “Ficamos de pé e mão amarrados”, lamenta ao constatar que tanto o apoio midiático quanto de órgãos públicos ainda não são suficientes para fomentar o acesso ao kart.
Diante desse cenário, David Simpatia faz uma escolha diária de resistir e permanecer. Ele vê o projeto provar sua força mesmo diante das dificuldades, “fazendo história e formando campeões”, como diz o slogan de sua equipe. Mais do que projetar a presença da bandeira brasileira no topo do pódio nas competições internacionais (e de preferência algum piloto com quem já tenha trabalhado), David se ocupa em garantir que no agora, em seu box, o trabalho silencioso e nos detalhes continue impecável.
Entre o ronco dos motores, o rádio ligado e a presença dos filhos, ele repete os gestos que sustenta e aprimora há quarenta anos: a girada de eixo, a limpeza cuidadosa dos karts, a conversa paciente com os pilotos e a espera pelo próximo suspiro do motor. É nesse namoro atento com a máquina, longe dos grandes holofotes, que Magic David inicia seus truques e segue pelas pistas. Não é apenas uma sprint, mas sim uma daquelas corridas memoráveis, daquelas que não cansam de surpreender volta após volta.