O berço do esporte a motor 

Kartódromo RBC Racing é reflexo da maneira como o automobilismo de base é desenvolvido 

Por Gabriela Sousa e Hellen Cordeiro

Kartismo mineiro é referência no desenvolvimento de pilotos. Foto: Gabriela Sousa

Ao adentrar o kartódromo RBC Racing, a primeira recepção vem logo do ronco dos motores. Um contraste interessante com o espaço arborizado nos arredores e com os sons característicos da região de mata que rodeia o circuito em Vespasiano, na região metropolitana de Belo Horizonte. A etapa de estreia do Campeonato Mineiro de Kart foi um convite para ir mais a fundo e descobrir os bastidores da adrenalina e da velocidade que fazem parte da rotina de pilotos, chefes de equipe e funcionários do kartódromo, além de outros convidados presentes. Junto ao Kartódromo Internacional de Betim, fundado em 1996, o RBC Racing foi peça-chave para consolidar e impulsionar o kartismo em Minas Gerais. Localizado às margens da rodovia MG-424, o novo kartódromo foi inaugurado em 2010, com vistas à substituir o antigo Kartódromo Serra Verde, desapropriado em 2007 para a construção da Cidade Administrativa de Minas Gerais. 

A história do RBC Racing, no entanto, começa com a RBC Preparações de Motores, fundada em 1984 por Rafael Botelho Cançado, daí o nome RBC. Antes da desapropriação do terreno, a preparadora arrendava a pista do bairro Serra Verde, na capital mineira, além de desenvolver seus equipamentos e realizar competições oficiais e amadoras de kart outdoor. Em 1995, lançou a categoria de motores sorteados em Belo Horizonte, caracterizada pela maior competitividade e pelo baixo custo, que se estendeu a outros estados do país. Hoje, além dos serviços de venda e manutenção, a RBC também oferece locação de motores e carburadores de dois e quatro tempos.

Atualmente, o RBC Racing conta com três principais frentes: aluguel, competitivo federativo e competitivo amador. Os karts para a modalidade de aluguel  são divididos em dois tipos, individuais e em grupo, sendo considerados opções de lazer recreativo e comemorativo. O competitivo federativo é dividido em etapas organizadas pela Federação Mineira de Automobilismo e conta com regulamentos mais técnicos e a obrigatoriedade na federação dos pilotos envolvidos. Já o amador competitivo é voltado para pilotos não profissionalizados, que, ainda assim, gostam da disputa e do espírito esportivo.

Pista do RBC Racing recebe pilotos de diferentes frentes para a disputa de kart. Foto: Gabriela Sousa

KARTISMO EM MINAS

Criado nos Estados Unidos em 1956, o kart chegou ao Brasil no início dos anos 1960, estreando em um loteamento em São Paulo em agosto do mesmo ano. Inicialmente artesanais, feitos com motores de cortador de grama, os karts ganharam popularidade rapidamente, tornando-se, posteriormente, a base de formação para grandes ídolos do automobilismo brasileiro de várias gerações, como Emerson Fittipaldi, Ayrton Senna, Rubens Barrichello até Gabriel Bortoletto.

Em mais de 65 anos, o esporte evoluiu das corridas de rua aos kartódromos profissionais. O cenário em Minas se assemelha ao nacional. A história do kartismo mineiro teve início em 1965, quando um grupo de jovens aventureiros formado por nomes como Toninho da Matta e Emerson Fittipaldi decidiu introduzir o esporte no estado. Belo Horizonte sediou suas corridas em pistas de rua até o final da década de 1970, quando foi inaugurado o kartódromo Rio Verde, na região de Nova Lima. Naquela época, Poços de Caldas e Uberlândia,  o primeiro do estado, já tinham seus próprios kartódromos. Anos mais tarde, Ipatinga, Juiz de Fora e, novamente, Belo Horizonte, com o Kartódromo Serra Verde, inauguraram novas pistas.

Segundo Rafael Cançado, desde 2021, o kartismo amador vem crescendo não só em Minas, mas em todo o país, principalmente em função da divulgação nas redes sociais que permite que cada vez mais pessoas conheçam o esporte. “São vários grupos de pilotos que vêm para conhecer. Tanto em grupos de amigos quanto em empresas que vêm usando o esporte, o kartismo, como forma de integração entre as pessoas”, afirma. 

Em relação ao kart federado, a base do automobilismo, esse crescimento se manifesta de forma diferente. Se antigamente as categorias eram ligadas a um kart de alta performance com motor de dois tempos, nos anos recentes o motor de quatro tempos trouxe maior acessibilidade e, consequentemente, permitiu que mais pessoas ingressassem na categoria. O modelo de quatro tempos, além de ter maior facilidade de manutenção, tem também um custo anual menor. 

Esse crescimento da categoria tem facilitado também a aquisição de apoio financeiro, como explica Rafael. “Se o esporte está crescendo, temos uma divulgação maior e, automaticamente, as empresas vão se interessando mais. Da mesma forma, temos uma Lei de Incentivo ao Esporte que tem ajudado a promover não só a base, como também outras categorias”, conclui. A iniciativa auxilia na continuidade dos projetos que envolvem o kartismo, fator essencial no crescimento espacial do esporte, ainda que a oferta para participação na modalidade ainda seja um pouco limitada. 

Isso porque a divulgação do esporte a motor no estado ainda se restringe às páginas dos próprios kartódromos, o que favorece uma segregação que se limita àqueles que de alguma forma já foram introduzidos ao kartismo, seja por meio de incentivo familiar ou através de outras indicações. Para quem ainda não conhece a base do esporte a motor, as informações são pouco difundidas e a cobertura da modalidade carece de profundidade. 

Atualmente, grande parte das divulgações de kart são feitas apenas pela Federação Mineira de Automobilismo ou pelos próprios kartódromos. Foto: Gabriela Sousa

Na visão do chefe da Center Kart Competições, equipe baseada no RBC Racing, falta diversidade na divulgação do esporte a motor. Segundo David Simpatia, preparador de karts há cerca de 40 anos, existem boas histórias a serem exploradas, mas poucas oportunidades e pouca iniciativa da mídia tradicional. Tanto o rádio quanto a televisão poderiam ser aliados, mas ainda se distanciam das pautas da área profissional.

“Os karts de aluguel são muito divulgados em nível nacional, então, vez ou outra, os eventos dessa categoria se tornam até maiores do que um evento oficial da Confederação Brasileira de Automobilismo”, explica David. No kart a lazer, a repercussão nas redes sociais atinge níveis maiores de acesso e divulgação, tanto pelo menor investimento financeiro quanto pelo apelo social relacionado à diversão. Para grande parte do público fã de automobilismo, a pilotagem profissional não é uma possibilidade devido aos custos e à disponibilidade. Por isso, no cenário mineiro, a popularidade dos karts de aluguel favorece a categoria em relação ao estilo competitivo. 

O KART COMO BERÇO DO AUTOMOBILISMO

É no kart que uma nova geração dá os primeiros passos no automobilismo, tanto para os que competem por diversão como para aqueles que almejam construir uma carreira. Guiando o kart número 799, Gustavo Alves de Brito Gonçalves, de 8 anos, venceu as duas primeiras corridas da categoria mirim na etapa inicial do Campeonato Mineiro, largando da pole position na corrida 1 e liderando de ponta a ponta. Essa foi a primeira corrida dele em solo mineiro e a segunda etapa disputada desde o início no kart.

Se perguntado sobre o que o jovem quer ser quando crescer, não há outra resposta: “ele quer ser piloto”, afirmou a avó de Gustavo, Antônia Maciel, que, ao lado do esposo, acompanhou o neto desde os treinos até as corridas de sábado. Foi no kart que a família encontrou o caminho ideal para o início dessa trajetória e para apoiar o sonho de Gustavo, como explica a avó: “Aqui ele pode começar a trilhar essa carreira que ele quer seguir. É o melhor que nós temos para uma criança da idade dele. Então, é aqui que ele quer ficar, é aqui que ele se encontra, que é feliz e se diverte. Porque, para ele, é antes de mais nada uma diversão também”.

Antônia auxilia Gustavo na preparação para a próxima corrida. Foto: Gabriela Sousa

O kartódromo se apresenta aos participantes como um espaço de desenvolvimento e preparação, mas também de descobertas. Segundo organizadores, muitos pilotos competem por hobby e não seguem carreira profissional, que exige maior dedicação de tempo e recursos. Nesse contexto, o kart oferece a oportunidade de conhecer o esporte e avaliar se o automobilismo é, de fato, o caminho a seguir.

Ainda no início da jornada, Gustavo dá os primeiros passos na modalidade. “Ele está começando, só tem 8 anos. Vamos com uma coisa de cada vez, desenvolver. Aqui ele vai receber as melhores orientações possíveis e o futuro é futuro”, concluiu a avó.

Por ser um esporte ainda muito elitizado, os custos para competir no kart são altos, o que acaba por limitar a participação de muitos que sonham com a carreira no automobilismo. Para dar oportunidade às crianças que não possuem recursos, o RBC Racing mantém o Projeto Piloto do Futuro, iniciativa gratuita de iniciação ao kartismo, com aulas teóricas e práticas para jovens pilotos. Considerado a paixão do kartódromo, o projeto convida crianças de 7 a 12 anos, em que se percebem um grande interesse por esporte e que passam a frequentar o kart.

“No dia da nossa prova do Campeonato Mineiro, a gente também oferece uma prova gratuita com troféu para essas crianças, onde elas têm a oportunidade de conviverem com pilotos de outras categorias que já estão num grau mais desenvolvido no esporte, para elas sentirem esse ambiente da competição do esporte como ele é. Isso tem trazido um resultado muito bacana de pessoas novas ingressando, de crianças ingressando no esporte”, explicou o diretor da RBC, Rafael Cançado.

O Piloto do Futuro não conta com leis de incentivo ao esporte nem patrocínio, sendo totalmente mantido pelo kartódromo. A iniciativa pode ser a porta de entrada no universo do automobilismo, oferecendo formação inicial e o primeiro contato com a competição. Alguns conseguem um pouco mais de recurso e, de fato, ingressam no esporte, a exemplo de Lucas Staico, tricampeão da Taça Minas Gerais e da Copa Brasil de Kart e bicampeão sul-americano; e, Lucas Moura, bicampeão da Taça Minas Gerais, campeão mineiro e vice paulista na categoria cadete. Staico também sagrou-se vice-campeão da temporada inaugural da F4 Brasil com a equipe TMG Racing, enquanto Moura atualmente compete pela equipe W2 Racing ProGP na Stock Light.

Também pensando em formas de enfrentar as barreiras da vulnerabilidade social na cidade de Vespasiano, Sérgio Sette Câmara idealizou o Projeto Automobilismo Educacional. Ele, que iniciou a carreira nas pistas da região metropolitana de Belo Horizonte, se questionava por que o automobilismo, com tanto glamour acerca de seus ídolos e eventos, não oferecia suporte à iniciação no esporte.

Duas vezes por semana, cada aluno tem cinco horas semanais de atividades regulares de kart, sendo duas horas de aula prática e atendimento psicossocial, outras duas de aula teórica, além de uma hora de lanche. As atividades ocorrem no próprio RBC Racing, que oferece luvas, protetores de pescoço e balaclavas descartáveis a cada jovem piloto, além do kit com macacão, capacete e sapatilhas.

Realizado pelo Instituto Sérgio Sette Câmara, o projeto conta com o apoio da Lei Federal de Incentivo ao Esporte e de marcas parceiras que auxiliam na continuidade da iniciativa. 

LEGADO FAMILIAR

Com o passar dos anos, o kart em Minas cresceu, se transformou e atraiu novos públicos, impulsionado também pelos novos meios de comunicação, que ampliaram seu alcance. No entanto, o ambiente ainda mantém sua essência familiar. Seja nas pistas ou no trabalho por detrás delas, nos boxes, é perceptível que a paixão pelo kartismo vem sendo transmitida de pais para filhos.

Dos boxes, Antônia Maciel acompanhava atentamente cada passo dado pelo neto Gustavo, enquanto registrava cada instante das corridas com o celular. Ela, que já acompanhou a neta mais velha seguindo os passos da avó no hipismo, agora acompanha o caçula iniciando no automobilismo. Sobre a sensação de acompanhar os netos no esporte, dona Antônia compartilha: “É muito gratificante! Eu já acompanhei a carreira da irmã dele no hipismo na categoria salto desde as primeiras montadas dela e agora para ele, 8 anos mais novo, começando aqui no kart e eu tendo o prazer de acompanhá-lo, estimular e torcer muito.”

O piloto mirim não quis seguir os passos da avó e da irmã, apesar das tentativas da família. A paixão por carros falou mais alto e, a partir do interesse por correr de kart, hoje Gustavo trilha o caminho do pai, Renato Gonçalves, também piloto. Enquanto Gustavo estreava em território mineiro, o pai pilotava em Brasília, e, entre uma corrida e outra, eles compartilhavam as vitórias do jovem piloto mesmo à distância.

Avó e neto celebram a conquista do primeiro lugar. Foto: Gabriela Sousa

Mas a paixão pelo esporte a motor não se limita apenas à pilotagem em família. Sophia Oakes caminha pelos boxes e corredores do kartódromo com a tranquilidade de quem nasceu naquele ambiente, incentivada pelo pai. Aos treze anos, ela se destaca como a única figura feminina no meio do circuito, na área restrita a mecânicos e chefes de equipe. Atualmente ela faz um pouco de tudo na equipe Fgm.Motorsport, desde o trabalho de social media até ajustes mecânicos nos karts.

“Todo fim de semana, eu estou aqui ajudando meu pai e aprendendo coisas novas. Meu sonho é um dia poder trabalhar no paddock da Fórmula 1”, destaca a jovem. Com um sorriso tímido no rosto, mas com muita identificação com o espaço, ela continua manuseando e ajudando na limpeza e manutenção dos karts, pronta para o próximo desafio na pista. Sophia tem a esperança de que um dia possa compartilhar a experiência do esporte a motor com ainda mais mulheres. 

Sophia cresceu no kartódromo e pretende seguir carreira no automobilismo. Foto: Gabriela Sousa

Atualmente, a presença feminina no kartódromo ainda se restringe bastante ao âmbito familiar dos pilotos e mecânicos. Apesar disso, pelos corredores que dividem os parques fechados e os boxes, é possível notar a presença de jornalistas, fotógrafas e social media, que, mesmo em minoria, ainda ocupam um espaço importante no RBC Racing.

PERSPECTIVAS PARA O FUTURO

A história do kart mineiro corre através do ronco dos motores no RBC Racing. Uma trajetória com início nas ruas da capital mineira e que percorreu as curvas do saudoso Serra Verde, consolidando o estado hoje como um importante personagem no crescimento da modalidade em todo o Brasil. Ainda que pouco distante dos padrões da metrópole de São Paulo, grande referência nacional, Minas Gerais também se destaca como um celeiro de grandes talentos. O jeito mineiro de fazer kartismo pouco a pouco ganha seu espaço e passa a reverberar com mais força pelas pistas. 

Enquanto jovens como Gustavo e Sophia desenham seus sonhos nos boxes, o grande desafio das lideranças locais é garantir que eles tenham espaço e, principalmente, recursos e incentivos para o desenvolvimento. O kartismo não pode ser apenas um hobby para o fim de semana, mas também precisa abrir portas para o crescimento pessoal e profissional de novos talentos da indústria automobilística. São necessárias a continuidade e a expansão de projetos de formação que fomentem a entrada de jovens que compartilham a paixão pelo esporte, a fim de manter pulsante a chama que corre pelos motores e pulsa pela adrenalina. 

Na pista, sob as viseiras baixas e a alta velocidade, não se distingue quem é cada competidor. Da mesma forma, nos bastidores, pouco se sabe sobre quem torna o espetáculo possível. Nesse sentido, a falta de visibilidade, que não apresenta pilotos, preparadores, mecânicos e comissários responsáveis pelas competições, também mascara um ambiente ainda pouco diverso e pouco tratado pela mídia esportiva.

Sem capacete nos bastidores, cada piloto passa a ser visto além do nome e do número do kart, mas o que se percebe é o reflexo da sociedade ainda inacessível, com poucas mulheres, negros e outros grupos marginalizados. Não que falte interesse ou que o meio se negue a acolher, mas o automobilismo ainda padece de um histórico restritivo, caro e estereotipado. Afinal, quais são as vozes que ocupam e ditam o esporte em geral, seja dentro ou fora das pistas?

Os desafios constantes fazem com que, atualmente, apenas a paixão pela velocidade não seja suficiente. O ambiente ainda é visto como elitizado, faltam patrocínios e visibilidade, tanto para as equipes se manterem completas e robustas quanto para os pilotos darem continuidade na área. É o fantasma invisível, que assombra quem vive pela esperança de que um dia as coisas possam ser diferentes.

 Apesar disso, seguindo a reputação conterrânea, o mineiro segue “dando um jeito”. Faz seus ajustes, chega de mansinho e conquista seu espaço. As oportunidades podem não ser as mesmas, mas a vontade de fazer acontecer é o diferencial que mantém vivo o kartismo. 

Ao fim de mais uma etapa, quando o silêncio do entardecer ameaça a tomar conta do RBC Racing, o que fica não é apenas o rastro dos pneus no asfalto, mas a certeza de que a próxima geração já está alinhada no grid. Minas Gerais segue provando que, no berço do automobilismo, a maior vitória não é necessariamente o troféu na estante, mas sim a persistência de quem volta após volta se recusa a frear diante dos obstáculos. 

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