Por Gabriela Sousa
Muito além do brilho dos carros, da adrenalina pulsante, dos pódios luxuosos e dos milésimos de segundos que separam os pilotos durante uma corrida, o automobilismo é também uma importante ferramenta de sociabilidade e cultura que ultrapassa o universo esportivo. Isso porque as dinâmicas do mundo a motor podem ser aplicadas em discussões que visam ampliar o entendimento na forma como as modalidades reproduzem determinados valores, dentro e fora das pistas.
Prova disso é a presença minoritária de pessoas negras, de pessoas com deficiência e de mulheres nos autódromos, kartódromos e garagens. No Brasil, há menos de 1% de engenheiras e mecânicas atuantes nas categorias nacionais, segundo dados da Comissão Feminina de Automobilismo (CFA) em parceria com a Confederação Brasileira de Automobilismo (CBA). No grid da Fórmula 1, Lewis Hamilton segue sendo o único piloto negro da categoria há anos e, nas categorias de base da principal competição de automobilismo do mundo, ainda não há indícios da presença de outro piloto de pele negra. Em um esporte com centenas de categorias no cenário mundial, divididas, por exemplo, por federações, espaço continental e tipos de veículos, é inaceitável que disputas de poder tão exclusivas continuem ditando quem pode ou não estar presente nas modalidades.
É justamente para dar voz a quem desafia essas estatísticas que a série de reportagens desta edição se inicia. Em “A paixão que move a presença feminina no automobilismo brasileiro”, três mulheres apresentam suas trajetórias nas pistas, discutindo os desafios enfrentados e as ações que promovem a inclusão de outras figuras femininas nas categorias. Erika Prado, Laiza Villaça e Rachel Loh compartilham não só o entusiasmo pelo esporte, mas também o mesmo espaço de atuação, almejando um cenário mais democrático.
Ampliando o debate sobre essas barreiras estruturais, a matéria “Na contramão do discurso meritocrático, onde se nasce determina as oportunidades?” trata dos obstáculos socioespaciais que definem as carreiras dos pilotos. No Brasil e no mundo, a origem geográfica influencia diretamente as formas de ingresso no esporte, desde a concentração dos kartódromos até a distribuição desigual de patrocínios e investimentos.
Essa desigualdade geográfica e social ganha contornos práticos em “O berço do esporte a motor”, texto que contextualiza a vivência de quem frequenta o Kartódromo RBC Racing, em Vespasiano, na região metropolitana de Belo Horizonte. Ali, as vozes de pilotos, chefes de equipe, proprietários e mecânicos enriquecem a reportagem, aproximando o leitor da realidade complexa do kartismo mineiro.
É justamente nesse ambiente de bastidores que a história de David Simpatia ganha destaque. O mecânico e chefe de equipe, com mais de 40 anos de carreira, discorre sobre sua trajetória, conquistas e os obstáculos financeiros enfrentados pelo caminho, propondo uma narrativa sensível sobre quem faz o esporte acontecer longe dos holofotes.
A persistência diante de adversidades implacáveis também conduz o perfil de Nicolas Hamilton, irmão de Lewis Hamilton, que convive com a paralisia cerebral enquanto constrói a própria carreira nas pistas. Como homem negro e PCD, competir na principal categoria de carros de turismo do Reino Unido significa confrontar uma série de limites institucionais para, hoje, aos 34 anos, viver o auge de sua trajetória esportiva.
Em seguida, a trajetória de Jamie Chadwick ilustra com precisão os desafios que a ala feminina enfrenta para se estabelecer no automobilismo de elite. Tricampeã da W-Series, categoria de monopostos exclusiva para mulheres, a piloto transita entre diferentes frentes do esporte em busca de consolidação, tornando-se exemplo prático de como a exposição a novos formatos e possibilidades pode trazer reviravoltas à carreira de um piloto.
Por fim, todas essas discussões sobre inclusão e acessibilidade esbarram nas contradições comerciais da área, debatidas em “A influência do marketing no esporte a motor”. A reportagem investiga como as estratégias publicitárias por vezes mascaram os pontos de exclusão fora das pistas, demonstrando que, enquanto as ações virtuais transmitem uma sensação de democratização, a elitização do ambiente físico afasta o torcedor comum e levanta o questionamento sobre quem realmente se beneficia desse modelo.
Diante desses fatos, uma conclusão se destaca: o esporte não existe em uma bolha. Ele é parte constituinte das desigualdades, da imponência do poder financeiro em contraponto à equidade e da imprescindibilidade das lutas por inclusão. Por esse motivo, pautar, discutir e divulgar questões e iniciativas que circundam o automobilismo, mas que ainda são pouco retratadas, faz parte de um movimento questionador de sistemas enraizados cada vez mais obsoletos. É a partir desses questionamentos também que as mobilizações se expandem, expandem sua formação e adquirem novos formatos de posicionamento e visibilidade.
Se o kartismo é o berço do esporte a motor, é lá que deve começar a introdução da modalidade aos grupos subalternizados, para que estes tenham as condições de compreender e se aprofundar no esporte. Da mesma forma, o repensar dos espaços os quais as práticas automobilísticas ocupam atualmente é entender também a quais pessoas o esporte é ofertado, como é tratada a possibilidade de permanência na área, e de que maneira os patrocínios e estratégias de comunicação influenciam a propagação e acesso às categorias.
Discutir tais estruturas é lutar pela transformação no automobilismo e buscar com que ele seja possível para todos que compartilham da paixão pelo esporte, seja na arquibancada ou nos boxes. A história do universo a motor não passa apenas por aqueles que conquistaram a fama e grandes títulos, mas também por quem luta diariamente para fazer parte, quem estuda com o sonho de um dia poder colocar em prática todos os aprendizados e quem almeja uma mudança efetiva e profunda, na disputa pelo pertencimento e pelo sentir a adrenalina de perto sem o peso da exclusão.
Falar sobre automobilismo é um ato de paixão. O ronco dos motores e os espetáculos que circundam o esporte não podem invisibilizar e servir como nuvem de fumaça para as desigualdades de gênero, raça, socioculturais e espaciais que há muito se tornaram aceitáveis no campo automotivo, barrando talentos e impedindo que parte da audiência possa vivenciar de forma íntegra a experiência a motor.
Essa edição da Revista Marta busca, portanto, por meio do jornalismo, ampliar o acesso às histórias de quem vive pela emoção do balançar da bandeira quadriculada e deseja que o direito ao esporte seja possível a todos.