Na contramão do discurso meritocrático, onde se nasce determina as oportunidades?

Fora da pista, ou antes de chegar à ela, o contexto geográfico impõe barreiras de acesso ao automobilismo

O desenvolvimento profissional no automobilismo carece de infraestrura e investimentos, o que pode ser dificultado por barreiras geográficas
(Foto: Hellen Cordeiro | Imagem gerada com Inteligência Artificial)

Hoje, aos 21 anos, o brasileiro Rafael Câmara se destaca no automobilismo mundial, tendo inclusive pilotado pela primeira vez um carro de Fórmula 1 em um teste pela Ferrari. O último brasileiro pela equipe havia sido Felipe Massa, que deixou a categoria em 2017.

A trajetória de Câmara, que chamou a atenção do time italiano após destacar-se no kartismo nacional, começou em seu estado natal, Pernambuco. Há cerca de 2,6 mil quilômetros da capital paulista, Rafael e o pai, Amaro Câmara, chegaram a pegar a ponte aérea mais de 10 vezes em um único ano para competir na Copa São Paulo Light e na Copa São Paulo KGV. A rotina era 15 dias competindo em São Paulo e os outros 15 dias de volta em Recife. Isso com apenas 8 anos de idade.

Quando retornava ao Nordeste, Rafael não tinha tempo para descansar e acumulava cansaço físico e mental. Diante do desgaste extremo, os pais tomaram uma decisão: se mudar para o estado paulista no ano seguinte, em janeiro de 2014. Essa foi a saída encontrada para eliminar a necessidade de grandes deslocamentos, pois ele passou a morar perto dos principais kartódromos do país. Anos mais tarde, uma nova mudança foi necessária, mudar-se para o exterior atrás de uma grande oportunidade.

No esporte, é preciso desconstruir a narrativa de que “os melhores chegam”, porque ela não se sustenta ao observar como o sistema é estruturado, o que leva a questionar a quem o automobilismo se mostra possível? O sucesso não é determinado apenas por talento ou esforço individual, mas também pelo acesso a oportunidades, a investimentos e a infraestrutura adequados, como tiveram Rafa Câmara, Gabriel Bortoleto e Felipe Drugovich. Este último, no entanto, ainda demonstra como a falta de investimento financeiro e grandes patrocínios são essenciais para chegar à Fórmula 1 (F1), mesmo que vindo de uma trajetória vitoriosa nas categorias de base.

O contraste entre eles é visível. Câmara desponta como uma das maiores promessas do país após conquistar títulos no kart e passou a integrar o programa Ferrari Driver Academy. Bortoleto, por sua vez, destacou-se por vencer a Fórmulas 3 e 2, em anos consecutivos, resultado que lhe garantiu uma vaga no grid da Fórmula 1. A falta de investimentos e patrocinadores capazes de sustentar uma carreira em um ambiente altamente custoso e competitivo fez a diferença. Apesar de ter conquistado o título da Fórmula 2, Drugovich não conseguiu transformar o resultado em uma vaga como piloto titular e, após três anos como titular da Aston Martin, o brasileiro encerrou seu ciclo na F1 para ser piloto titular da Andretti Global na Fórmula E.

O que se percebe, na prática, é o reflexo de desigualdades sociais que se manifestam nos campos econômico, racial, cultural e também geográfico.

Ascender no esporte como um todo, sobretudo naqueles ainda tão elitizados como o automobilismo, requer investimento, não só de equipamentos e preparação física e mental, mas de tempo, esforço e até mesmo de relações familiares. Na prática, muitas oportunidades nem sempre estão próximas ao atleta, o que encarece, dificulta ou até inviabiliza o desenvolvimento do indivíduo, desde as categorias de base até a elite do esporte.

Em diversas categorias, é possível observar que o grid é formado, em grande parte, por pilotos de famílias com alto poder aquisitivo, com acesso a grandes patrocínios e, geralmente, oriundos de países com tradição e investimento no esporte. Dos 22 pilotos que compõem o atual grid da Fórmula 1, a principal categoria do automobilismo mundial, 18 são brancos, três são mestiços e apenas o heptacampeão mundial Lewis Hamilton é negro. No contexto geográfico, 15 são europeus. Outros três são originários de países de alto IDH e de economias centrais – Oscar Piastri (Austrália), Liam Lawson (Nova Zelândia) e Lance Stroll (Canadá). Apenas quatro têm origem em países periféricos.

Representando países da América Latina, estão o brasileiro Gabriel Bortoleto, o argentino Franco Colapinto e também Sergio Pérez, do México. Há ainda a presença da Tailândia no grid, representada pelo piloto Alex Albon, que, no entanto, tem dupla cidadania, pois nasceu em Londres, mas optou por representar o país asiático para honrar suas raízes, por ser filho de mãe tailandesa.

O grid não reflete a diversidade mundial, mas espelha as desigualdades sociais existentes. É fato: o automobilismo ainda tem a Europa como centro de suas atividades, sobretudo nos principais polos: Reino Unido, Itália, Alemanha, França e Espanha. Nesse sentido, a questão geográfica (e, consequentemente, financeira) também afeta outros grupos, como o público que deseja acompanhar o esporte presencialmente e os profissionais que desejam trabalhar com isso. Afinal, como acessar algo que está continuamente distante?

O privilégio geográfico
Assim como no contexto global, no Brasil, há uma desigualdade de oportunidades. Nesse cenário, trabalho, estudos e diversas oportunidades estão concentrados nos grandes centros. Estar longe desses polos significa enfrentar custos mais altos de deslocamento, menores redes de apoio, menos acesso a competições e, consequentemente, menos visibilidade, o que afeta diretamente a formação e o desenvolvimento de novos atletas.

Independentemente da modalidade esportiva, a representação regional não apresenta números proporcionais. No Brasileirão Série A Masculino de 2026, por exemplo, a concentração de clubes do eixo Sul-Sudeste corresponde a 85%, sendo apenas Remo, Bahia e Vitória do Norte-Nordeste e nenhum representante da região Centro-Oeste. Isso se tratando de um esporte popular.

Na Superliga Feminina de Vôlei, dez dos doze times que disputam a temporada atual são do Sudeste, e os outros dois do Sul e do Centro-Oeste. Na categoria masculina, isso se repete. No basquete, o cenário também evidencia um desequilíbrio. O Novo Basquete Brasil (NBB), principal liga nacional da modalidade, é historicamente dominado por equipes do eixo Sul-Sudeste, especialmente de São Paulo, Rio de Janeiro e Minas Gerais, enquanto as regiões Norte e Centro-Oeste têm participação reduzida. Na temporada 2025/2026, há dois representantes nordestinos entre os 20 times.

Voltando ao automobilismo, dos 33 brasileiros que participaram oficialmente como pilotos titulares na Fórmula 1, 22 foram da região Sudeste, sendo 18 de São Paulo e quatro estrangeiros que correram pelo Brasil. O Norte foi representado por Antonio Pizzonia, já o Nordeste não teve representantes na categoria.

A Stock Car Pro Series, principal categoria a nível nacional, reflete esse padrão. Dos atuais 32 pilotos que compõem o grid da categoria, o único nascido no Norte é Felipe Fraga, do Pará. O Nordeste, por sua vez, não tem representantes nascidos na região, embora o paulista Rafael Suzuki represente o Maranhão, onde morou e competiu por vários anos. Assim como no caso de Alex Albon, Suzuki escolheu defender suas raízes.

Como o esporte a motor no Brasil é historicamente concentrado nas regiões Sul e Sudeste (onde estão as sedes das equipes, a maioria dos patrocinadores e os principais circuitos), a representatividade nordestina enfrenta barreiras logísticas e de investimento para alcançar a categoria principal. Então, o que a sub-representação das regiões Norte e Nordeste revela sobre a estrutura do esporte?

As desigualdades no automobilismo operam por meio de barreiras econômicas diretas. Segundo o estudo Personal Favela, realizado pela Novo Outdoor Social, divulgado no final de 2024, 47% dos moradores de favelas no Brasil apontam não ter condições financeiras para praticar um esporte. A questão vai além da prática esportiva, pois em muitas comunidades, o acesso a serviços básicos, como saneamento, água e esgoto, energia elétrica, saúde, educação e internet ainda é limitado ou precário.

Segundo o Instituto Trata Brasil, com dados publicados em maio de 2026, a ausência de saneamento básico atinge cerca de 32 milhões de pessoas sem acesso a água tratada e aproximadamente 90 milhões sem coleta de esgoto. Se grande parte da população ainda luta por acesso ao básico, outras necessidades, como esporte, lazer e cultura, ficam em segundo plano.

Em dezembro de 2025, a MNZ Motors realizou um levantamento de valores de um piloto profissional de kart, que chega a 60 mil reais para adquirir um kart profissional completo novo, entre 7 e 21 mil em equipamentos de proteção, além da contratação de equipe profissional, gastos com pneus e taxas de filiação. Para competir oficialmente há taxas fixas, cerca de 500 a mil reais anuais para filiar-se à CBA e de oitocentos (regionais) a três mil (nacionais) de inscrição por etapa. No nível nacional, a estimativa é de um gasto anual de até 300 mil reais.

O ingresso nas categorias de base, como o kart, já exige investimentos elevados em equipamentos, manutenção, viagens e inscrições em competições, que, em sua maioria, se concentram nos eixos Sul e Sudeste. Fora desse eixo central, onde as oportunidades são mais escassas, como no Norte e no Nordeste, o impacto é ainda maior, diante de gastos mais elevados com passagens, alimentação e hospedagem. Isso ocorre porque as competições também são realizadas nos principais centros.

O mapa a seguir apresenta os circuitos oficialmente homologados pela Confederação Brasileira de Automobilismo (CBA), ou seja, espaços onde ocorrem competições de diversas categorias, como Stock Car, Fórmula 4, Porsche Cup, Copa Truck e campeonatos de kart. Por ser interativo, o mapa permite navegar pelos locais que recebem os principais eventos automobilísticos no Brasil e também localizar onde estão os circuitos homologados pela CBA.

A distribuição de circuitos pelo território brasileiro revela uma forte concentração no eixo Sul-Sudeste, onde se concentra também a maior parte dos eventos e atividades do setor automobilístico. Em contrapartida, grande parte do país permanece com pouca ou nenhuma infraestrutura para a prática e desenvolvimento no esporte.

O ir e vir constante entre cidade natal e a sede dos campeonatos gera impactos aos pilotos e suas famílias, como o desgaste devido a longas viagens e os altos custos de participação, que podem aumentar conforme a distância e o tempo gasto. Atrelado a isso, há ainda impactos em outras áreas da vida, como a pressão constante por resultados (essencial para adquirir visibilidade), a dificuldade da manutenção de vínculos e os inúmeros afastamentos temporários da escola para se dedicar ao esporte.

Essa mesma realidade é observada também em áreas além do profissional, como para quem acompanha o esporte. A logística de gastos, transportes e acomodação deve ser pensada durante o ano inteiro para que seja possível acompanhar uma corrida presencialmente. Essa é a perspectiva de Luiza Sato, de Recife. Ela segue as corridas através de transmissões pela televisão ou pela internet, e planeja o ano inteiro para ir à Interlagos assistir de perto o Grande Prêmio de São Paulo. Para Luiza, não ter eventos mais perto é frustrante para os torcedores.

Apaixonada pela Stock Car, ela nunca esteve presente em uma corrida. A esperança é ter a categoria mais perto após a reforma do Autódromo de Caruaru, a cerca de 150 quilômetros de Recife. O autódromo internacional, que leva o nome de Ayrton Senna, não recebe eventos oficiais há anos, o que apenas reforça a disparidade entre estados, visto que Pernambuco atualmente não possui autódromo e nem kartódromo disponível para treinos e competições.

Ter o pernambucano Rafael Câmara como representante no grid da Fórmula 2 reforça o sentimento de pertencimento ao esporte, ainda mais com o Nordeste no alto do pódio e com boas expectativas de chegar, um dia, à elite principal, a Fórmula 1. Estudante de Publicidade e Propaganda e criadora de conteúdo, ela leva a questão da identidade nordestina ao quadro Pernambuco no Automobilismo, para as redes sociais, ressaltando o espírito “bairrista” do estado entre a comunidade de fãs locais.

A lógica centro-periferia
No desejo de alcançar o topo, muitos jovens optam por mudar de estado e, mais tarde, morar sozinhos na Europa ainda na adolescência. Um exemplo próximo é Rafael Câmara que, aos 16 anos, mudou-se para a Itália para integrar a Ferrari Driver Academy, mudança que ele próprio considera como fundamental para seu amadurecimento pessoal e profissional, como a parte técnica para gerenciamento das corridas. O apoio se concentra na preparação esportiva e não em auxiliar os pilotos financeiramente.

A lógica centro-periferia se intensifica em escala global. A dominância econômica do dólar e do euro torna-se um peso, sobretudo por serem as moedas utilizadas pelos países onde o poder técnico e os campeonatos se localizam.

Na prática, se trata de uma assimetria de poder simbólico, material e financeiro e, consequentemente, culmina na dominação do esporte. Submetidos (ou até mesmo subordinados) a essa lógica, os pilotos precisam se adaptar a esse modelo, muitas vezes tendo que deixar a família e o país de origem ainda na adolescência para tentar carreira, reforçando relações desiguais de poder e dependência entre centro e periferia no esporte.

À medida que o piloto avança para categorias como Fórmula 3 e Fórmula 2, os custos se tornam ainda mais proibitivos, podendo alcançar valores exorbitantes por temporada, ainda mais por não serem mais cotados em reais. Em abril deste ano, a plataforma Autoracing traçou estimativas de custos para competir até chegar à Fórmula 1, considerando que “as chances de chegar à categoria são menores do que as de ir para o espaço”.

A reportagem aponta que os valores vão de 130 mil euros em uma temporada de kart infantil, passando por 1 milhão na FRECA, a regional europeia, e chegando a até 2,3 milhões de euros na Fórmula 2. Em entrevista à CNN Brasil Esportes, o campeão da Fórmula E Lucas Di Grassi estimou que, para formar um piloto desde o kart até a porta da Fórmula 1, o investimento gira em torno de 10 milhões de euros (mais de 50 milhões de reais), somando as categorias de base na Europa.

Expandir fronteiras e abraçar a diversidade
A discussão pode ainda alcançar outros questionamentos, como quais as iniciativas institucionais estão sendo pensadas para tentar transformar essa realidade? A Fórmula 4 Brasil assumiu, recentemente, o papel de facilitar a formação de novos pilotos e prepará-los para o cenário mundial. Criada em 2022, a categoria-escola certificada pela Federação Internacional de Automobilismo (FIA) serve como ponte do kart para categorias de acesso à Fórmula 1, a exemplo das Fórmulas Regionais, Fórmula 3 e 2. 

Embora represente um avanço, a categoria ainda enfrenta desafios para se consolidar em nível nacional e para democratizar de fato o acesso ao esporte. Investimento e incentivo são essenciais para que essa nova categoria ganhe força e crie um caminho mais inclusivo para o automobilismo brasileiro, aproximando os talentos do país de oportunidades cada vez maiores.

Em caráter oficial, como a CBA, não existe um grande projeto nacional de base voltado para periferias e favelas. Diferente do futebol, onde as “peneiras” são comuns nas várzeas, o automobilismo exige uma infraestrutura que, atualmente, ainda está afastada geograficamente e financeiramente das comunidades mais vulneráveis. Algumas oportunidades de acessar o esporte, ainda que por lazer, estão no kart de aluguel (rental) e projetos apoiados pela Lei de Incentivo ao Esporte, como o Piloto do Futuro, encabeçado pelo kartódromo RBC, em Minas Gerais.

Mais do que uma questão esportiva, o automobilismo revela estruturas que atravessam outras áreas, como o acesso à educação, em que a origem e localização geográfica seguem determinando trajetórias e limitando possibilidades. Quem pode ascender, quem pode vencer enquanto a sociedade impõe barreiras? No fim, não se trata apenas de quem vence, mas de quem tem a chance de competir.

Para Rafael Câmara e Gabriel Bortoleto, o desenvolvimento profissional foi possível graças aos investimentos da família e de patrocínios fortes no meio automotivo, incluindo marcas nacionais e multinacionais. Câmara foi apoiado pela academia da Ferrari, que forneceu a infraestrutura e o plano de carreira, além de empresas como Bradesco, Transpetro, Moura, Ambipar, Claro e Octagon Latam, agência de marketing esportivo de Ronaldo Nazário. Bortoleto, por sua vez, teve a base apoiada pelo pai Lincoln Oliveira, e contou depois com Mercado Livre, Porto, Banco BRB, Motorola, Kit Kat e Snapdragon.

A chance de competir passa pelo investimento, não apenas no acesso ao esporte, mas principalmente ou no desenvolvimento do atleta, o que é fundamental para evolução técnica, física e mental. Mas enquanto o automobilismo ainda se afasta, geograficamente, a ideia de inclusão continuará distante da realidade. É preciso descentralizar o esporte e alcançar oe garantir que CEP, status, renda, raça e gênero não sejam definidores para chegar à pista.

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