Jornalismo esportivo na encruzilhada: entre o passado despolitizante e o futuro engajado

por Samuel Vieira

A democracia no Brasil é bem jovem, mas já sofreu dois abalos violentos nos últimos anos: o golpe de 2016 e a eleição de uma figura com tendências autoritárias, o ex- capitão do exército Jair Bolsonaro (Sem partido-RJ). Mas, uma importante arma para fortalecer a democracia é o quarto poder: o jornalismo.

Um dos vários papéis do jornalismo é fiscalizar as instituições e os poderes políticos. No entanto, uma faceta desta prática que tem deixado a desejar nesse aspecto, e em vários outros, é o jornalismo esportivo. A ausência de um conteúdo mais amplo, que vá além do óbvio e seja diverso, acaba contribuindo para o enfraquecimento da democracia no país.

De acordo com Tatiane Hilgemberg, pesquisadora e professora da UFRR (Universidade Federal de Roraima), a cobertura esportiva no Brasil sempre se ateve aos resultados das competições, a performance dos atletas, sem se preocupar com as ramificações culturais do esporte. O que importa é o que acontece dentro das quatro linhas. “Assuntos mais sérios, como por exemplo a corrupção em um clube de futebol, estão na alçada de outras editorias, longe da editoria esportiva”, afirmou Tatiane.

Renata Mendonça, jornalista dos canais SporTV e uma das criadoras do blog Dibradoras, ressalta a importância da cobertura esportiva para o fortalecimento da democracia. 

“Todo tipo de Jornalismo contribui para a democracia. E não existe jornalismo que não envolva política. Aliás, não existe nada que a gente faça nesta vida que não envolva política. Nossa contribuição, enquanto jornalistas esportivos, está justamente em levantar os debates e questionamentos urgentes da sociedade. Quando há um atleta sendo silenciado por uma manifestação política, como aconteceu com a jogadora de vôlei de praia, Carol Solberg, por exemplo, é nosso papel questionar, colocar o assunto em pauta, defender o direito à liberdade de expressão. 

Renata Mendonça, jornalista dos canais sportv e do blog Dibradora
Carol Solberg_Foto: Wander Roberto/ Inovafoto / CBV

Renata ainda reitera: “Quando há uma eleição em alguma confederação esportiva que perpetua os mesmos dirigentes no comando há décadas, é nosso dever suscitar o debate sobre a importância da alternância de poder. São apenas alguns exemplos, mas nossa contribuição para a democracia consiste em ter a consciência de que esporte também é política e é nosso dever ter esse olhar político sobre ele também”.

Jornalismo esportivo: de quem para quem?

Além de se analisar o conteúdo e a forma do jornalismo esportivo, também é importante que se faça uma análise de quem são os seus responsáveis. Afinal quais os jornalistas que o desempenham aqui no Brasil? É notável que as bancadas de debate, as redações esportivas, as transmissões, todas são compostas por um mesmo padrão: homens cis heterossexuais brancos.  

Também é importante ressaltar o público que consome este tipo de jornalismo. Justamente por fazer uma cobertura pouco aprofundada, sem abarcar nada de novo além do resultado dos jogos, e por ser feito por uma equipe pouco diversa, o jornalismo esportivo encontra dificuldade de ressoar com mais pessoas, que buscam outras formas de conteúdo e profundidade deste tipo de jornalismo. Assim, essa prática fica presa num loop eterno, seguindo sempre os mesmos padrões.

Tatiane Hilgemberg.
Foto: Arquivo pessoal

A pesquisadora Tatiane Hilgemberg afirma que o status quo ainda não tem mudado com tanta significação quanto deveria, apesar dos poucos avanços na representatividade dentro das redações. “Eu vejo uma dificuldade muito grande da inserção da diferença nesse campo. Já temos discussões sobre gênero, já temos mulheres apresentando programas esportivos, mulheres narradoras, algumas discussões sobre racismo, sobre deficiência. Mas ainda assim o jornalismo esportivo é fortemente marcado pela construção dessa arena voltada para homens cis heterossexuais brancos que formam esse padrão”, afirma Tatiane.

Matheus Mello_Foto: Arquivo pessoal

Matheus Mello, doutor em Jornalismo pela UFSC (Universidade Federal de Santa Catarina), salienta que é importante fazer uma distinção entre a mídia mainstream, a grande mídia, e a mídia independente, composta por grupos ou indivíduos autônomos. “Se a gente pensar no jornalismo esportivo dos principais meios de comunicação, o público geralmente tem o perfil clássico, do gênero masculino, mas isso tem mudado aos poucos. No underground, nos veículos independentes essa lógica já é questionada há muito tempo”

Breiller Pires, jornalista do El País e da ESPN, aponta um caminho para a resolução desse problema: a inclusão de pessoas de todos os gêneros, raças e orientações sexuais. 

“Um dos fatores que favorece muito para essa cobertura rasa do esporte é o fato de nós termos pouca diversidade no jornalismo esportivo, assim como no jornalismo em geral. As redações de esporte são dominadas por homens brancos de uma origem privilegiada. Isso favorece a perpetuação de uma ideia hegemônica, um pensamento único. Ainda que existam exceções, ainda é muito difícil encontrar alguém com uma origem social mais pobre, algum LGBT ou uma mulher numa posição de comando nas redações.”

Breiller Pires, jornalista dos canais espn
Breiller Pires. Foto: Arquivo pessoal

O jornalista acredita que é fundamental para a sobrevivência do jornalismo esportivo, ainda mais num período de reinvenção para a profissão, que se tenha mais diversidade dentro das redações esportivas. Segundo ele, é a partir daí que o jornalismo começa a atentar e aprofundar em questões que muitas vezes são negligenciadas, principalmente pautas políticas e sociais.

A importância de uma cobertura esportiva política

Uma cobertura esportiva política ajudaria a sociedade como um todo a compreender fenômenos sociais e políticos atrelados intimamente ao esporte. Um exemplo de fenômeno são as torcidas de futebol anti- fascistas, abordadas no MartaCast desta edição. Breiller Pires afirma que o jornalismo esportivo ainda trata essas organizações de uma forma errônea, enquadrando-as como “baderneiros”, “bandidos”, etc. 

Protesto de torcedores contra Bolsonaro, movimento antifascistas. Fonte: Mídia Ninja

“É emblemático que no meio de uma pandemia partiu das torcidas o primeiro grande ato de rua, a primeira grande mobilização, num momento de paralisia das forças de oposição ao governo. Foram as torcidas que mostraram força. No entanto, o jornalismo esportivo quando cobriu esse acontecimento foi de forma rasa, como se as torcidas estivessem causando mais uma confusão”

BREILLER PIRES, jornalista dos canais espn

Renata Mendonça, do Blog Dibradoras, ressalta outro exemplo de uma cobertura esportiva que não se ateve para a discussão política que permeava o momento. O fato ocorreu em 2019 quando uma partida de futebol masculino foi interrompida pelo árbitro por conta de gritos homofóbicos por parte da torcida do Vasco dirigidos à torcida do São Paulo. 

Renata Mendonça. Foto: arquivo pessoal

“Na transmissão, narrador e comentaristas não se atentaram para a importância daquele momento, o marco histórico que representava e não levantaram a discussão no ar. Falta também o cuidado/interesse de quem já faz parte do meio de se aprofundar sobre essas questões para saber debatê-las quando elas aparecem”, afirmou Renata.

Esses exemplos evidenciam o desperdício de potencial debate com relevância nacional. Em momentos históricos como esse, a cobertura esportiva prefere fechar os olhos para pautas sociais e focar em fazer uma cobertura frívola. Quem sai perdendo é o debate democrático, que fica empobrecido e alheio à realidade.

Imagens da partida entre Vasco e São Paulo. Foto: Rafael Ribeiro/Vasco

Matheus Mello indica mais uma solução para enriquecer a cobertura esportiva: torná-la mais ampla, buscando sempre a pluralidade de vozes e de saberes. “É importante que um veículo jornalístico esportivo faça uma cobertura completa do ponto de vista de áreas do conhecimento e de abordagem. ”

“Ainda falta uma dosagem dos veículos de saber trazer uma reflexão política crítica sociológica, ou de até mesmo de outras áreas do conhecimento, ter um conhecimento maior sobre fisiologia, sobre preparo físico, sobre educação física de um modo geral, e mesclar isso com uma abordagem bem-humorada, de forma atrativa para o espectador”.  

Matheus Mello, doutor em Jornalismo pela UFSC

Apesar de todos os questionamentos apontados, é possível enxergar um futuro otimista. As redações vão aos poucos deixando de ser dominadas pelos mesmos rostos de sempre. A diversidade traz a oportunidade de novos olhares para o jornalismo. Assim, é possível inovar as maneiras de abordar os esportes, deixando a cobertura rasa e supérflua no passado.

Com um jornalismo esportivo mais politizado, voltado para as questões políticas da sociedade, a democracia só tende a ganhar. O caminho pode parecer longo, mas o primeiro passo já tem sido dado.

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair /  Alterar )

Foto do Google

Você está comentando utilizando sua conta Google. Sair /  Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair /  Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair /  Alterar )

Conectando a %s