Multicampeão no caratê, Douglas Brose vive sonho olímpico

Por Antônio Paiva, Larissa Oliveira e Yves Vieira

A realização de um sonho. É dessa forma que o carateca Douglas Brose conceitua a possível disputa dos Jogos Olímpicos de Tóquio. Natural de Cruz Alta-RS, o pai do Daniel e esposo da Lucelia é um dos maiores caratecas da história do Brasil, mas ainda não teve condições de realizar o sonho olímpico pelo fato de que o caratê estreará como modalidade olímpica apenas no Japão. 

Multicampeão, Douglas já conquistou Campeonato Mundial de Caratê (2x), principal torneio da modalidade no mundo, Jogos Mundiais, torneio promovido pelo Cômite Olímpico Internacional (COI), Campeonato Paramericano (12x) e Jogos Paramericanos. Em conversa com a Revista Marta, Brose falou sobre sua trajetória como atleta, dificuldades ocasionadas pela pandemia, mudança de categoria, Exército e sua relação com sua esposa e treinadora.

O experiente atleta de 35 anos ainda não tem presença confirmada nos Jogos de Tóquio. Em junho, Douglas Brose disputará o Pré-Olímpico, que será realizado em Paris-FRA. O carateca não esconde a expectativa para a fase classificatória e para uma possível vaga olímpica. 

Originalmente, Douglas lutava na categoria que vai até os 60kg. De forma oficial, existem cinco categorias no caratê (60kg, 67kg, 75kg, até 84kg e acima de 84kg), mas estas foram reduzidas para três na modalidade masculina (até 67kg, até 75kg e acima de 75kg) para os Jogos Olímpicos, por questões de adequação. Por isso, Brose decidiu mudar e disputar a categoria até os 75kg, para ter mais possibilidades de classificação. 

Douglas ajustou categoria para ter mais chances de ir às olímpiadas
Reprodução/Instagram

Douglas finalizou o ranking olímpico da categoria até 67kg na décima primeira colocação, atrás de outro carateca brasileiro, Vinícius Figueira, que terminou em quinto. Por essa razão, a decisão pela mudança de categoria, visto que se permanecesse até 67kg, não poderia disputar as futuras etapas pré-olímpicas. Inclusive, Brose foi o vencedor da seletiva nacional da categoria até os 75kg. Sobre a alteração, o atleta afirma que está se adaptando e que sua pretensão é pesar no máximo 71kg, mas pontua também a necessidade de ajustes técnicos pela mudança de perfil dos oponentes. 

O carateca tem se preparado para as Olimpíadas desde 2016, quando foi anunciada a entrada de cinco novas categorias a partir dos Jogos de Tóquio: caratê, beisebol (e softbol, versão feminina do esporte), escalada, skate e surf. Porém, em maio de 2018, no meio da preparação, Douglas sofreu uma grave lesão de ruptura do tendão de Aquiles. Foi necessária cirurgia, que afetou sua caminhada. 

Presença do caratê nas Olimpíadas

A expectativa da comunidade do caratê para a inclusão da modalidade nos Jogos Olímpicos vem de muito tempo. O sonho de ter a arte marcial na principal competição esportiva do planeta bateu na trave algumas vezes até 2016, quando incluíram o esporte para ser disputado em Tóquio. O atleta comenta que é difícil realizar essa troca de modalidades, mas que, quando isso ocorre, é algo positivo, pois traz uma vida nova à competição.

No entanto, ele demonstra frustração com a pandemia, que pode tirar o brilho de uma estreia que não terá público estrangeiro. “O pior é que será em Tóquio, no Japão, a terra do caratê. Mas, o mais importante, é que aconteça”, complementa o carateca.

Caratê estreará em Tóquio
Reprodução/Instagram

Ele também fala sobre a importância que o evento tem para o esporte, pois gera uma grande visibilidade, além de valorizar o esforço e o trabalho dos atletas. Douglas diz que os Jogos Olímpicos são um divisor de águas para algumas modalidades, incluindo o caratê. 

“A inserção do caratê nas Olimpíadas foi um divisor de águas, por conta da organização, por conta de apoio, da institucionalização de tudo isso, que ajudou muito no desenvolvimento da modalidade e dos atletas, não só no Brasil, mas em todo o mundo”.

Outro fator que colaborou nessa caminhada foram os novos investimentos possibilitados pela participação nos jogos. Brose afirma que o investimento aumentou muito comparado com os anos anteriores à oficialização da modalidade como olímpica.

Após a entrada na competição, o esporte marcial começou a contar com apoios privados, assim como passou a fazer parte do Programa de Alto Rendimento das Forças Armadas. Além disso, atletas com boas classificações dentro do ranking mundial, passaram a ter Bolsa Pódio, uma categoria dentro do Bolsa Atleta para profissionais com chances de disputar finais e medalhas olímpicas e paralímpicas.

Durante esse circuito olímpico, a participação do Comitê Olímpico Brasileiro (COB) foi fundamental. Todas as viagens e preparações de caratecas com possibilidades de conseguirem vaga foram custeadas com o apoio do COB em parceria com a Confederação Brasileira de Karatê.

Efeitos pandêmicos

Douglas ressalta que isolamento sempre foi parte da rotina
Reprodução/Instagram

A pandemia do novo coronavírus influenciou diretamente na trajetória de todos os atletas olímpicos. Com Douglas não foi diferente. O nível de preparação foi diretamente afetado. Falta de competições, necessidades de pensar e executar novas formas de treinamento, e no caso do atleta brasileiro: a dificuldade de sair do Brasil.

O Brasil vive um dos piores momentos da pandemia e é um dos países que pior trata a situação no mundo. Por conta disso, apenas sete países apresentam restrições leves para a entrada de brasileiros em seu território, enquanto 117 contam com restrições amplas.

Douglas destaca que conseguiu residência na Espanha, um dos únicos locais do mundo no qual está havendo competição, para disputar o Campeonato Espanhol, mas pontua que não consegue sair do Brasil. 

“Eu consegui preencher a papelada de residência espanhola, para participar do campeonato. Consegui me registrar, me vincular à Federação. Só que hoje, infelizmente, eu não consigo sair do país”, afirma Douglas Brose.

Além do fato de não conseguir sair do país, Brose confessa que não ter um calendário definido de competições o atrapalha bastante, ainda mais nesse seu processo de mudança de categoria. 

Sobre o distanciamento social, prática necessária para barrar a transmissão da Covid-19, Douglas tem um pensamento particular: “O isolamento social sempre foi algo muito comum para quem é atleta. Minha vida sempre foi casa, escola, treino, voltava, dormia, comia, depois voltava para o treino. Nós vamos nos adaptando a cada dia, usando uma sala de casa para treinar, conseguindo grupos restritos e com segurança para treinar”.

Forças Armadas e o esporte brasileiro

Além de grande careteca, assim como outros atletas olímpicos, Douglas faz parte das Forças Armadas do Brasil. Ele é Terceiro-sargento do Exército Brasileiro desde maio de 2017.

Brose analisa a relação entre o esporte brasileiro e as Forças Armadas como uma troca mútua, na qual os dois lados ganham muito. Nesse contexto, há o Programa de Alto Rendimento das Forças Armadas, criado em 2008 pelo Ministério da Defesa do Brasil, em parceria com o Ministério do Esporte, com o intuito de fortalecer a equipe militar brasileira em eventos esportivos de alto nível.

Importante destacar que a entrada dos atletas para as Forças Armadas se dá por meio de editais oficiais e que eles recebem todos os benefícios da carreira, como soldo, 13º salário, férias, direito à assistência médica, incluindo nutricionista e fisioterapeuta, além de disporem de todas as instalações esportivas militares adequadas para treinamento nos centros da Marinha (Centro de Educação Física Almirante Adalberto Nunes – CEFAN), do Exército (Centro de Capacitação Física do Exército e Complexo Esportivo de Deodoro) e da Aeronáutica (Universidade da Força Aérea – UNIFA).

Douglas vê essa relação como mais uma forma de profissionalização do trabalho dos atletas como esportistas. 

Relação familiar

Douglas e Lucelia são pais de Daniel, de seis anos. O casal se conheceu a partir do esporte. Lucelia, hoje treinadora da seleção brasileira de caratê, é ex-atleta da modalidade e faz parte da comissão técnica do marido.

De acordo com o carateca, suas relações pessoal e profissional com sua esposa são muito boas. Douglas relembrou as viagens para o exterior que os dois faziam juntos para competir.

“Cansamos de viajar para eventos internacionais e, em 99% das vezes, íamos só eu e ela e fazíamos quase tudo juntos, era um ajudando o outro, eu ficava de técnico para ela e ela ficava de técnico para mim e íamos nos ajudando mutuamente desde a época de atleta, até chegar o momento que ela se aposentou e entrou na parte de comissão técnica”.

A possível vaga olímpica de Douglas contemplará um sonho dele, mas também de sua companheira de vida e do esporte. 

Perguntado como é seu jeito como pai, Brose confessou levar um pouco do esporte para sua relação com Daniel: “Como um bom carateca disciplinado, eu sou chato como pai, sou muito disciplinador. Talvez o esporte tenha me dado um pouco disso e acabo sendo um pouco mais tradicional em algumas coisas. Mas eu tento equilibrar isso e me dar bem com ele e com a minha família, sempre que eu posso tento estar com eles, tentando ter esse bom relacionamento mesmo com esse calendário extenso de competições”. 

Chance de medalha

“Para minha modalidade, uma medalha seria mudar a cabeça de muitos atletas e professores e ajudar muita gente a ver o caratê como uma forma de desenvolvimento de vida”, disse Douglas, ao ser perguntado sobre o que uma possível medalha olímpica poderia significar para ele. 

Douglas Brose: caratê, família e caráter
Reprodução/Instagram

Para o próprio atleta, essa medalha ressaltaria a credibilidade de seu trabalho. Ele e sua esposa fundaram, em 2011, o Instituto Douglas Boser, instituição direcionada ao fomento do caratê pelo país. “É importante ver a modalidade não só como meio de forjar o seu caráter e a sua disciplina, mas uma forma de você conseguir abrir muitas portas na sua vida, para estudos, bons relacionamentos”.

Mais do que a formação de atletas, o carateca vê seu projeto como formador de pessoas e, ficar entre os três melhores na principal competição esportiva do mundo, pode servir de inspiração para isso.

“Eu costumo dizer: qual é a sua Olimpíada? O que te faz levantar todo dia? A forma que eu tenho de mostrar isso são com os Jogos Olímpicos e o caratê, mas para esses meninos, a Olimpíada pode ser dar uma casa para seus pais”.

Uma medalha olímpica para Douglas mostraria a seriedade do seu longo trabalho como careteca e como seu desejo serviria de inspiração para outras pessoas persistirem na realização dos seus sonhos.

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